A ALEGRIA DO AMOR É O MELHOR CAMINHO

 

A alegria do amor é o melhor caminho - NH TV

Frei Bento Domingues – 06/02/2022 – Foto: DAQUI

Não estamos condenados à tristeza da nossa condição finita.

O ser humano afirma-se pelo sim que dá à vida.

 

1. O sentido das palavras depende muito do seu uso. Um caso interessante é o da palavra caridade.

Foi destacada, por S. Paulo, como a mais excelente das três virtudes teologais — fé, esperança e caridade — que é um bem definitivo e que, neste domingo, faz parte da liturgia da palavra [1]. De repente, este hino à caridade foi substituído pelo hino ao amor.

O ganho parece evidente: ninguém se casa por esmola, para fazer uma caridade.

Por isso, desertou dos casamentos. A palavra caridade, no uso corrente, deixou de ser o amor mais excelente, o amor da pura gratuidade para ser apenas uma esmola.

Fez bem o Papa Bento XVI, na encíclica Deus caritas est (2005), ao tentar esclarecer o vocabulário do amor:

“O primeiro obstáculo que encontramos é um problema de linguagem.

O termo amor tomou-se hoje uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, à qual associamos significados completamente diferentes.”

O tema desta encíclica está concentrado na questão da compreensão e da prática do amor na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja. Mas, como observa Bento XVI, não podemos prescindir pura e simplesmente do significado que esta palavra tem nas várias culturas e na linguagem actual.

Ao explicitar o vasto campo semântico da palavra amor, lembra algo muito corrente:

  • o amor da pátria, amor à profissão, amor entre amigos, amor ao trabalho,
  • amor entre pais e filhos, entre irmãos e familiares, amor ao próximo e amor a Deus.

“Em toda esta gama de significados, porém, o amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresistível, sobressai como arquétipo de amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam.”

Surge então a questão:

  • todas estas formas de amor, no fim de contas, apesar de toda a diversidade das suas manifestações, unificam-se como sendo um só amor,
  • ou, pelo contrário, utilizamos uma mesma palavra para indicar realidades totalmente diferentes?

“Ao amor entre homem e mulher, que não nasce da inteligência e da vontade, mas de certa forma impõe-se ao ser humano, a Grécia antiga deu o nome de eros.

Diga-se, desde já, que o Antigo Testamento grego usa só duas vezes a palavra eros, enquanto o Novo Testamento nunca a usa: das três palavras gregas relacionadas com o amor — eros, philia (amor de amizade) e agape — os escritos neotestamentários privilegiam a última, que, na linguagem grega, era quase posta de lado.

Quanto ao amor de amizade (philia), este é retomado com um significado mais profundo no Evangelho de João para exprimir a relação entre Jesus e os seus discípulos.

A marginalização da palavra eros, juntamente com a nova visão do amor que se exprime através da palavra agape, denota sem dúvida, na novidade do cristianismo, algo de essencial e próprio relativamente à compreensão do amor.

Na crítica ao cristianismo que se foi desenvolvendo com radicalismo crescente a partir do iluminismo, esta novidade foi avaliada de forma absolutamente negativa.

Segundo Friedrich Nietzsche, o cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, que, embora não tivesse morrido, daí teria recebido o impulso para degenerar em vício.

Este filósofo alemão exprimia assim uma sensação muito generalizada:

  • com os seus mandamentos e proibições, a Igreja não nos torna porventura amarga a coisa mais bela da vida?
  • Porventura não assinala ela proibições precisamente onde a alegria, preparada para nós pelo Criador, nos oferece uma felicidade que nos faz pressentir algo do Divino?” [2]

Não vou deixar, aqui, as respostas que Bento XVI dá às suas perguntas. O texto está publicado e é de fácil consulta no Google.

 

2. Por outro lado, o Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia (2016), preocupou-se precisamente por ajudar as famílias a descobrirem a alegria do amor. Este documento produziu não só acolhimentos fervorosos, mas também acusações de que o Papa, com a sua misericórdia e paciência, estava a descuidar as duras exigências do ideal evangélico.

A esta acusação respondeu de forma muito clara:

  • “Compreendo aqueles que preferem uma pastoral mais rígida, que não dê lugar a confusão alguma; mas creio sinceramente que Jesus Cristo quer uma Igreja atenta ao bem que o Espírito derrama no meio da fragilidade:
  • uma Mãe que, ao mesmo tempo que expressa claramente a sua doutrina objectiva, não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de se sujar com a lama da estrada.

Os pastores, que propõem aos fiéis o ideal pleno do Evangelho e a doutrina da Igreja,

  • devem ajudá-los também a assumir a lógica da compaixão pelas pessoas frágeis
  • e evitar perseguições ou juízos demasiado duros e impacientes.

O próprio Evangelho exige que não julguemos nem condenemos.” [3]

Não podemos esquecer algo fundamental da mesma Exortação Apostólica:

  • “Somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para connosco.
  • Não é uma proposta romântica nem uma resposta débil ao amor de Deus, que sempre quer promover as pessoas, porque a arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia.

Toda a sua acção pastoral deveria estar envolvida pela ternura que dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia.

É verdade que, às vezes, agimos como controladores da graça e não como facilitadores.

Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida atormentada.” [4]

 

3. Não estamos condenados à tristeza da nossa condição finita. O ser humano afirma-se pelo sim que dá à vida. Não existe oposição entre eros, philia e agape, mas não podemos esquecer o melhor dos caminhos para a alegria, apontado por S. Paulo:

  • ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine.
  • Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou.
  • Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita.
  • O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento.
  • Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade.
  • Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará. (…)
  • Agora, permanecem as três virtudes: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor.

No entanto, precisamos da esperança para nos dizer bom dia todas as manhãs.

[1] 1Cor 12,31—13,1-13.

[2] Cf. Deus caritas est, nº 2 e 3; cf. também Olivier Abel. Jérôme Porée, Vocabulário de P. Ricoeur, Minerva-Coimbra, 2010.

[3] Cf. Mt 7,1; Lc 6,37.

[4] Cf. Amoris Laetitia (A Alegria do Amor), nº 308-310.

 

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Frei Bento Domingues

Fonte: https://www.publico.pt/2022/01/30/opiniao/opiniao/alegria-amor-melhor-caminho-1993496

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