TRÁFICO DE PESSOAS
Mons. Jorge Lozano* – 06 fevereiro 2022 – Foto: Tiago Xavier
“São organizações criminosas que lucram com isso, escravizando homens, mulheres e crianças, laboral e sexualmente, para o comércio de órgãos, para fazê-los mendigar ou cometer crimes”.
Quando alguém está em apuros há muito tempo, qualquer porta que pareça se abrir gera ilusões e expectativas. Já vi filas de mais de 200 pessoas esperando para marcar uma entrevista e enviar documentação para três vagas que são oferecidas.
- Esse desejo desesperado às vezes é aproveitado pelas redes mafiosas.
- Aparecem disfarçados de gente boa que promete estudar ou trabalhar em outra Província ou Estado, desenhando uma realidade que nunca chegará.
Imediatamente
- o estudo e o trabalho são substituídos por cadeias de redução à servidão ou trabalho escravo, prostituição, tráfico de órgãos.
- Eles são uma máfia que também administra a ilegalidade de armas e drogas.
- Quando a enganação não basta, vão ao sequestro na saída da escola, da universidade, da discoteca.
Essa ação criminosa é favorecida por um modelo econômico de exploração e opressão. A grande maioria das vítimas são mulheres: meninas, adolescentes, jovens.
No bairro ou no campo, elas são a ponta de lança que, com seu engenho e criatividade, se dedicam a passar de uma economia de exploração humana e degradação ambiental para uma economia do cuidado. Protegem os mais frágeis e são amigos da casa comum. Além disso, devemos reconhecer que a oposição às suas tarefas é muito forte, e elas têm que remar contra a corrente.
Existe uma ligação muito estreita entre a economia e o tráfico. Podemos vê-lo de duas maneiras.
- Por um lado, esse sistema concentra a riqueza e amplia a pobreza e a miséria, gerando uma busca angustiada por oportunidades diante das necessidades presentes e futuras.
- Por outro lado, está na base do modelo a visão que privilegia a obtenção de dinheiro a qualquer custo,
- inclusive os direitos à integridade das pessoas, que são consideradas mercadorias a serem avaliadas pelo “anti-direito” de a oferta e a procura.
Na terça-feira, 8 de fevereiro, acontece o Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o tráfico de pessoas.
O tema que está disponível é:
“A força do cuidado: mulheres, economia e tráfico de pessoas”.
É necessária uma voz profética para denunciar esses abusos e, ao mesmo tempo, unir proximidade e acompanhamento às vítimas. O Papa Francisco tem uma posição firme:
“São organizações criminosas que lucram com isso, escravizando homens, mulheres e crianças, laboral e sexualmente, para o comércio de órgãos, para fazê-los mendigar ou cometer crimes”.
- É preciso prestar atenção aos gritos silenciosos que, da escuridão invadida pelo fedor rançoso do tabaco, das drogas e do álcool, clamam por justiça, liberdade e dignidade.
- É o Corpo de Cristo oprimido, humilhado, vexado.
- São suas feridas abertas que correm sangue inocente.
Não temos que dar espaço à indiferença que torna invisível, nem à anestesia que não sofre a dor dos irmãos e irmãs como sua.
As autoridades estatais têm a obrigação de cuidar de todos os cidadãos, bem como de promover a verdade e a justiça. É nossa vocação e missão acolher famílias que vivem com angústia a falta de informação sobre sua filha, irmã, neta… Carregam um fardo pesado que se torna insuportável pela ocultação e ineficácia sustentada pela impunidade e corrupção.
Devemos nos comprometer e lutar para construir uma sociedade em que cada pessoa seja respeitada em seus direitos e dignidade. Estamos diante de um crime aberrante que nos envergonha como humanidade.
Mons. Jorge Lozano
Arcebispo de San Juan de Cuyo (Argentina) e secretário geral do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM)
Fonte: https://www.diarioelargentino.com.ar/noticias/222100/crimen-aberrante-que-averguenza
