Dois papas, dois estilos. Dois modos de ver a Igreja

Gianluigi Nuzzi – 27 janeiro 2022 – Foto: Bento XVI e Francisco / El País
“Em suma, o que está acontecendo hoje é um dos reflexos da revolução do jesuíta que, antes de tudo, não quer mais sofrer passivamente os escândalos, mas tornar-se promotor das investigações. Uma coisa é se defender com embaraço de uma investigação lançada por outras autoridades e Estados, outra é tomar a iniciativa”,
escreve Gianluigi Nuzzi, jornalista italiano, em artigo publicado por La Stampa, 21-01-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
No final, é sempre uma questão de apóstrofos e acentos. É grave e infame a acusação dirigida contra Joseph Ratzinger de ter encoberto quatro sacerdotes pedófilos quando era arcebispo em Munique entre 1977 e 1982.
Pela primeira vez na história recente da Igreja, até mesmo um papa, ainda que emérito, é acusado do pior dos males, de encobrir quem abusa dos pequeninos do rebanho.
O mundo está chocado e indignado porque
- conhecemos as batalhas travadas contra a pedofilia por Bento XVI, a envergadura de um dos mais refinados teólogos vivos,
- e é surpreendente e desorientador que ele também possa ter sabido e calado.
- Mas todos nós temos a memória curta.
Esquecemos, por exemplo, que naqueles seis anos se alternaram três pontífices no Vaticano: Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II.
Foto: Reprodução
E, suspendendo a análise sobre Luciani porque Albino reinou apenas 33 dias,
- certamente não podemos atribuir a Montini e Wojtyla nenhum mérito na luta contra a pedofilia dentro da Igreja.
- Todo escândalo era calado, toda vítima silenciada, todo sacerdote indefensável no máximo era transferido.
Nesse clima, a ação atribuída a Ratzinger deve ser contextualizada. E a prova plástica disso é que a investigação que acusa o papa emérito
- não foi iniciada por algum movimento agnóstico insurrecionista,
- por alguma entidade anticlerical,
- mas pela igreja alemã.
Em particular, é Reinhard Marx, o cardeal no topo da mesma diocese que foi de Ratzinger que determina esses aprofundamentos. E sabe-se que Marx talvez seja o cardeal alemão mais próximo de Bergoglio,e que retornou à Alemanha depois de anos na cúria para presidir as reformas do Vaticano pelas mãos restauradoras.
Em suma, o que está acontecendo hoje
- é um dos reflexos da revolução do jesuíta que, antes de tudo,
- não quer mais sofrer passivamente os escândalos,
- mas tornar-se promotor das investigações.
Uma coisa é se defender com embaraço de uma investigação lançada por outras autoridades e Estados, outra é tomar a iniciativa.

Ratzinger está assustado. Foto: Reprodução
Aconteceu na investigação sobre a compra e venda do prédio em Londres que envolveu o cardeal Angelo Becciu, com Bergoglio reivindicando aos colaboradores próximos a peculiaridade dessa primeira investigação que parte dos gabinetes judiciais do Vaticano e agora se repete na frente incerta dos crimes sexuais contra menores.
Voltando a Ratzinger, agora o papel e a responsabilidade estarão sendo apurados,
- há quem instrumentalizará o caso reduzindo tudo ao costumeiro suposto confronto entre papa reinante e papa emérito,
- mas não se pode esquecer que aquela Igreja é diferente da Igreja de hoje.
Imaginar que na época na Europa um bispo iniciasse uma campanha de limpeza para expulsar e punir os sacerdotes pedófilos de sua diocese é dramaticamente irrealista. Hoje, ao contrário,
- naquela corrida contra o niilismo que enfraquece a Igreja
- e de recuperação da credibilidade, chega-se até a apontar o dedo contra um pontífice.
E este é um aviso de que nos sagrados palácios faz tremer os cadeados de quem guarda demasiados esqueletos dentro dos armários.

.
Gianluigi Nuzzi
Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/616037-os-papas-e-os-escandalos-silenciados