Enrico Berti – Settimana News – 10 Janeiro 2022
Foto: Escola de Atenas: Platão e Aristóteles. Afresco de Rafael Sanzio no Museu Vaticano / DAQUI
O sítio Settimana News, 07-01-2022, recordou-o com esta entrevista retomada do blog Officina Filosofica, 04-05-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Na filosofia grega, encontramos muitos aspectos pelos quais não só a teologia é devedora, mas também a cultura cristã como um todo. Penso no finalismo que encontramos em filósofos, embora muito distantes entre si, como Platão e Aristóteles. Há também outros aspectos que podemos considerar além deste?
Mais do que pelo finalismo (que em Aristóteles diz respeito apenas à finalidade interna), a teologia cristã é devedora a Aristóteles do conceito de um Princípio transcendente e pessoal, que em Aristóteles
- é o primeiro entre os motores imóveis dos céus
- e, portanto, o primeiro dos entes e o motor de tudo,
- enquanto para os cristãos (como também para os muçulmanos) é Deus.
No entanto, é preciso ter em mente o significado diferente que a palavra “deus” tinha para os antigos e para os fiéis nas religiões monoteístas.
- Para os antigos (gregos e romanos) “deus” é um nome comum, o nome de uma espécie de seres vivos,
- como “homem”, por isso se escreve com o artigo e a inicial minúscula (o deus).
Para os monoteístas (judeus, cristãos, muçulmanos), por sua vez,
- “Deus” é o nome de uma única pessoa, por isso se escreve sem artigo e com a inicial maiúscula.
- Essas são regras gramaticais, não escolhas ideológicas.
Na Divina Comédia, por exemplo, como no Motor imóvel descrito por Aristóteles, os corpos celestes se movem com velocidades diferentes de acordo com a distância de Deus: o famoso “amor que move o sol e as outras estrelas” (Paraíso, XXXIII, 145).
Por isso, eu lhe pergunto por que um filósofo como Aristóteles foi tão dominante até praticamente o advento da era moderna?
Dante, que não só foi o maior poeta, mas também um filósofo original, assumiu, como todos os medievais, a cosmologia grega, ou seja, o geocentrismo, que não era apenas de Aristóteles, mas estava amplamente presente já no “Timeu” de Platão e havia dominado toda a cultura antiga e medieval.
De Aristóteles, Dante retomou, como muitos outros, a teoria dos céus como esferas concêntricas (introduzida por Eudoxo de Cnido), que – com as modificações feitas por Ptolomeu – explicava quase completamente os fenômenos celestes.
Por fim, de Aristóteles ele retomou a teoria do motor imóvel de todo o universo, que ele interpretou como “Deus” e, portanto, como “amor”.
Nisso, entretanto,
- Dante foi influenciado pela interpretação teologizante de Aristóteles,
- que via no primeiro motor imóvel o objeto do amor de todas as criaturas.
Além disso,
- Aristóteles havia fornecido a base física, ou seja, científica, das teorias cosmológicas antigas e medievais,
- portanto permaneceu como o ponto de referência principal de filósofos e cientistas, até ao advento da ciência moderna.
Ele também foi o autor de um corpo de doutrinas totalmente excepcional, que ia
- da lógica à física,
- da biologia à psicologia,
- da metafísica à ética,
- da política à poética e à retórica.
Nenhum outro autor antigo era comparável a ele.
Para nós contemporâneos qual é o aspecto mais atual do pensamento de Aristóteles?
Os aspectos atuais do pensamento de Aristóteles são inúmeros.
- Na lógica, a teoria das categorias, das oposições, do silogismo, das falácias.
- Na física, a teoria dos quatro gêneros de causas, a ciência do mundo vivo e, sobretudo, a concepção da alma como forma, isto é, como princípio interno de vida.
- Na metafísica, a teoria da substância e a doutrina da potência e do ato.
- Na ética, a concepção da felicidade como plena realização das capacidades humanas.
- Na política, a concepção da polis como sociedade indispensável para uma vida autenticamente humana e do ser humano como animal por natureza política.
Todos esses aspectos, negligenciados e muitas vezes até desprezados ao longo dos séculos, foram hoje redescobertos e valorizados, razão pela qual Aristóteles se tornou um dos principais interlocutores do debate filosófico contemporâneo.
Lendo o último livro da “Metafísica”, mas também o Livro VIII da “Física”, podemos dizer que o “Deus” de Aristóteles tem muito pouco a ver com o cristão?
O que os cristãos consideram como o “Deus” de Aristóteles, isto é, o primeiro motor imóvel – que para Aristóteles
- é “um deus” porque é um vivente imortal e feliz –,
- não é criador, não é providente,
- sobretudo não é salvador.
No entanto, assim como o Deus dos cristãos, ele é transcendente e pessoal.
- A sua transcendência é expressada pela sua imutabilidade, que o distingue de qualquer outra realidade que experimentamos.
- A sua personalidade, por sua vez, se deve ao fato de que ele pensa e, portanto, vive, e é feliz por pensar e, portanto, tem uma vontade.
No entanto, considero equivocado comparar
- uma doutrina filosófica, conquistada por um ser humano por meio de capacidades exclusivamente humanas (experiência e raciocínio),
- com um conceito que é fruto de uma revelação divina.
Então, poderíamos até falar em Aristóteles de uma pluralidade de divindades?
Aristóteles, como todos os antigos, era politeísta, ou seja, admitia a pluralidade de deuses, e “praticava” a sua religião, ou seja, rezava aos deuses e fazia votos, como fica claro em seu testamento.
No entanto,
- ele criticou os aspectos antropomórficos do politeísmo,
- interpretando os deuses como inteligências motoras dos céus,
- e reconheceu entre eles um “primeiro”,
abrindo assim o caminho, retomado depois pelos estoicos, para o monoteísmo.
Por isso, São Paulo, no Discurso aos Atenienses (Atos), se referiu ao “Deus dos filósofos” gregos como alternativa aos ídolos da religião popular e como base para a compreensão da revelação cristã (assim J. Ratzinger defende na “Introdução ao cristianismo”).
Talvez possamos encontrar a grandeza da Academia platônica na syn-philosophein, a beleza e o prazer de fazer filosofia juntos, apesar da diversidade de pontos de vista. Podemos dizer que esse aspecto constitui ainda hoje o valor adicional da filosofia, sobretudo em nível pedagógico nas escolas?
Eu concordo inteiramente. Para Aristóteles, fazer filosofia junto com os amigos é o máximo da felicidade. E a única forma de ensinar a filosofia nas escolas é fazer filosofia juntos, isto é,
- formular perguntas,
- propor respostas
- e, sobretudo, tentar argumentar e criticar as respostas,
- estando sempre disponível para questioná-las sempre.
Portanto, hoje, a sociedade precisa mais do que nunca de filosofia…
Não apenas hoje, mas sempre.
A filosofia é conatural ao ser humano, sempre existiu e sempre existirá, apesar das tentativas interessadas de decretar o seu fim.
Esse não era apenas o pensamento de Aristóteles, segundo o qual
“todos os seres humanos por natureza (isto é, homens e mulheres, livres e escravos, gregos e bárbaros) desejam saber”,
e a filosofia – quando retamente entendida – é a forma mais elevada de saber.
Platão na “Apologia” já fazia Sócrates dizer que “uma vida sem busca não é digna de ser vivida pelo homem”.
Enrico Berti
http://www.settimananews.it/reportage-interviste/berti-cosa-ereditiamo-dalla-filosofia-greca/
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