“Oferecer artigo”
Carlos Fino – 19 de Dezembro de 2021 – Foto: Miguel Manso
Depois de oito anos a trabalhar como adido de imprensa da embaixada de Portugal em Brasília, o jornalista Carlos Fino ficou com várias interrogações a bailar na cabeça: como é que nasceu e se consolidou o distanciamento entre Portugal e o Brasil? Porque é que se mantém? Porque falharam todas as tentativas de aproximação?
A tese de doutoramento que defendeu há três anos sobre esta “parceria inconclusa” está agora em livro.
José Luís Peixoto
Apesar da língua partilhada, dos laços de sangue e de um fundo histórico-cultural comum de mais de três séculos, as relações entre Portugal e o Brasil têm sido reconhecidamente permeadas por um sentimento de estranheza ou desconforto mútuo,
- mesmo quando no plano estatal — sobretudo em períodos de coincidência ideológica e política dos regimes que os governam —
- se registam avanços em termos de acordos e tratados celebrados em diversas áreas.
Esse estranho estranhamento opera como fator inibitório do aprofundamento das relações, que estão aquém da intensidade registada noutros casos de relacionamento entre a ex-potência colonial e as ex-colónias, designadamente a Inglaterra com os Estados Unidos e a Espanha com os países latino-americanos.
A latência de uma aproximação não inteiramente realizada entre Portugal e o Brasil já foi até caracterizada como “parceria inconclusa”.
Paralelamente, regista-se entre os dois países um défice de comunicação, que tanto pode derivar desse desajustamento mútuo como estar na sua origem. Em qualquer caso, essa (in)comunicação tende a reforçar o estranhamento e vice-versa, num perpetuum mobile de que ambos mutuamente se alimentam.
Investigar as origens dessa realidade, sondar na história do passado comum as razões desse estranhamento e dessa (in)comunicação, este o objetivo da tese que — sob tutela conjunta da Universidade do Minho e da Universidade de Brasília — defendemos, em abril de 2019, no Instituto de Ciências Sociais, em Braga, e serve agora de base a este livro.
Uma tese a que metemos ombros movidos pelo sincero desejo de
- aprofundar o conhecimento dessa situação
- e encontrar respostas para uma série de questões que se nos foram colocando à medida que avançava o nosso relacionamento pessoal e profissional com o Brasil e com os brasileiros.
Um estranhamento com raízes profundas
A investigação mostrou que não estamos perante fenómeno transitório de fácil superação. O estranhamento entre Portugal e o Brasil tem raízes profundas:
- surgiu em situações de múltiplos choques de interesses e confrontos,
- está na génese da própria nacionalidade brasileira
- e consolidou-se nos últimos dois séculos nas narrativas históricas e sociológicas,
tendo depois os seus termos sido absorvidos — consubstanciados numa ideologia de cariz antilusitano aberta ou difusa —
- pelos sistemas escolar e mediático brasileiros,
- que os implantaram e fortaleceram no próprio senso comum
- através de uma reiterada, maciça e sempre repetida popularização.
Note-se, entretanto, que esse antilusitanismo histórico
- não foi unilateral — resultou, como veremos, de um processo complexo em que há responsabilidades mútuas —
- e não se traduz em hostilidade para com o Portugal contemporâneo.
Não impede, por exemplo,
- milhares de brasileiros de viverem e se sentirem bem em Portugal
- e de muitos milhares de outros o visitarem com gosto, apreciando a tranquilidade e a segurança, descobrindo a paisagem, os monumentos, a gastronomia,
- e — pesem embora os problemas ainda existentes — os bons índices de desenvolvimento económico-social das últimas décadas;
- descortinando até — quase sempre com boa dose de surpresa e por entre eventual desconforto com o sotaque e uma ou outra reação mais ríspida ou menos cordial — os insuspeitados ecos de um remoto passado comum.
O mesmo acontece, aliás, com os portugueses que visitam o Brasil, em geral bem recebidos e acolhidos, numa envolvência de grande cordialidade e sem problemas, se forem estóicos o bastante para encaixar as piadas que ainda hoje circulam…
Desta forma, não se reportando ao Portugal contemporâneo e não sendo inteiramente consciente, o antilusitanismo histórico brasileiro pode perfeitamente viajar incógnito a bordo dos aviões da TAP…
Parafraseando Alexandre O’Neill, e por insólito que pareça, esse antilusitanismo é, antes de mais, um problema que o Brasil tem consigo próprio.
- A inversão de sentido operada no momento da independência para formar — por contraste com a lusitana — a sua própria nacionalidade
- foi tão intensa e prolongada que o Brasil parece ter esquecido a sua origem.
A ponto, por exemplo,
- de não só não comemorar oficialmente a Descoberta, em 1500, mas inclusive de a questionar ou mesmo negar;
- e agora, também, se limitar a mal assinalar, sem verdadeiramente celebrar, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, como se ela não lhe pertencesse.
Por injustificado complexo, na ânsia de rejeitar o seu passado colonial — imagem que não se ajusta ao sonho de grandeza no qual sempre se revê e projeta — pode dizer-se, na fórmula de Pessoa, que
- o Brasil fingiu esquecer Portugal;
- e fingiu tão completamente que às vezes chega a fingir que se esqueceu, quando se esqueceu realmente.
Como refere Lourenço, enquanto
- “todo o português é por dentro um gesto a dizer ao brasileiro que o descobriu”,
- em contrapartida todo o brasileiro é um gesto, “perfeito e negligente a dizer que não se lembra”...
Para adensar a complexidade da questão, basta recordar
- que todo o processo de independência — num primeiro momento mais desejada pelos portugueses que na época se consideravam “colónia de uma colónia”— se fez com base no Estado herdado de Portugal
- e que toda a ideologia antilusitana do Brasil vai beber a rodos ao pessimismo lusitano de final do século XIX.
Mesmo quando
- mais quer frisar a diferença e a separação,
- o Brasil parece assim não conseguir escapar a uma indelével marca lusitana, como se esta fosse um fado de que não se consegue libertar.
- E tanto menos o consegue quanto mais se recusa a reconhecê-la.
Em suma, o emaranhado das raízes não podia ser mais perfeito.
Um substrato unificador poderoso
Entretanto,
- apesar desse contínuo e estranho estranhamento e da (in)comunicação que dele se alimenta e o alimenta;
- apesar do rápido avanço nos últimos anos das igrejas evangélicas, que podem superar a curto prazo a tradicional influência católica, de raiz portuguesa;
- apesar das fortes tradições de origem africana e do culto das suas religiões trazidas com a escravatura, designadamente o candomblé e a umbanda;
- apesar das diferentes identidades indígenas e da influência própria dos diversos grupos étnicos da imigração — dos italianos, espanhóis e alemães aos japoneses, passando pelos sírio-libaneses e eslavos de distintas procedências — que militam, todos eles, no sentido de edificar um perfil nacional distinto e muitas vezes oposto ao português;
- apesar de tudo isso, que é imenso,
o elemento de origem lusa continua hoje, de uma ou outra forma, a desfrutar de uma hegemonia difusa, mesmo quando a ascendência lusitana, entretanto miscigenada, já se esbateu ou até se perdeu nas consciências.
A sua influência prolonga-se,
- antes de mais, através do sangue e da língua,
- mas também de um fundo comum de múltiplos hábitos e tradições, da gastronomia à religião e ao imaginário.
A própria padroeira católica do país — Nossa Senhora Aparecida
- — embora de aparência negra,
- é, afinal, a imagem (encontrada no fundo de um rio por pescadores, no começo do século XVIII e por isso enegrecida) da bem portuguesa Nossa Senhora da Conceição — padroeira de Portugal (Alvarez, 2014).
Por outro lado, toda uma miríade de festas católicas celebradas anualmente de norte a sul do país
- — Círio da Nazaré, em Belém do Pará;
- Bonfim, em Salvador;
- Bom Jesus dos Navegantes, em Sergipe;
- São Sebastião, no Espírito Santo…
há muito que vem carreando e mantendo vivas uma série de práticas de raiz lusitana.
Daí que o próprio Sérgio Buarque de Holanda — que queria cortar essas raízes por considerá-las obstáculo ao desenvolvimento — tenha acabado por reconhecer que subsiste entre os dois países uma “alma comum”. “Um substrato unificador poderoso”— confirmaria, mais tarde, Antônio Cândido —
“formado pela língua e por influências originárias de todo o tipo (literárias, folclóricas, arquitetônicas, urbanísticas, familiares) geradoras de uma fôrma na qual se acomodam os neobrasileiros de vária origem”.
Seja como for,
- ainda que correndo paralelo e em confronto com essa influência difusa, mas real, de origem portuguesa e
- tendo também que se defrontar com uma corrente lusófila sempre mais ou menos presente,
o antilusitanismo não é algo de efémero:
- está na génese da própria nacionalidade brasileira e vem sendo desde a origem reiterado pela escola e pelos media,
- o que obviamente dificulta qualquer ação que tenha por objetivo ultrapassá-lo.
Sobretudo se não houver — como não tem havido até agora — um trabalho persistente em termos de comunicação por parte de Portugal.
Por outro lado, da independência do Brasil para cá, tudo parece ter sido já tentado para minorar a estranheza que assim se instalou entre os dois países. E tudo também parece ter mais ou menos claudicado, esgotadas que foram múltiplas e diversas iniciativas de (re)aproximação — do lançamento de revistas literárias conjuntas a utópicos planos de confederação — acabando por se instalar de parte a parte um clima de lassidão, cansaço e descrença, pouco propício ao surgimento de novas ideias nessa matéria.
Embora tendo disso plena consciência, identificadas que foram as raízes do estranhamento e da (in)comunicação, arriscamos,
- no final da investigação e à luz das teorias e práticas já existentes,
- sugerir o que — em traços gerais — poderia ser feito para ao menos mitigar o desconforto/(des)sintonia que em permanência atravessa o relacionamento entre Portugal e o Brasil.
Mais importante do que isso, no entanto,
- o maior contributo que este livro poderá eventualmente dar para o aprofundamento da relação Portugal-Brasil
- é tornar essa questão de fundo cada vez mais consciente, conhecendo-se a sua origem e os seus porquês.

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Carlos Fino
Lisboa-Brasília, 2019/2020