Os fenomenólogos da religião fazem notar que, mesmo nas sociedades secularizadas, encontramos ainda algo dos mitos cosmogónicos, nomeadamente nos festejos da passagem de ano:
- folguedos e licenças, uma certa tonalidade orgiástica, alguma “confusão” social na noite de passagem de ano,
- simbolizam o regresso ao estado indiferenciado e caótico de antes da formação do mundo pelos deuses.
Volta-se, portanto, de algum modo ao caos das origens, para que o mundo se regenere e se reponha o cosmos: um mundo outra vez novo, ordenado, belo.
Aparentemente, é a repetição.
- Mas, de facto, é mesmo no novo que nos encontramos: 2022.
- Nunca houve nem nunca haverá um ano como este em que acabamos de entrar.
- É novo e único na História da Humanidade e do mundo.
Depois dos eufóricos festejos – neste ano, por causa da pandemia, quase nada -, também haverá alguns pensamentos de meditação.
É tão certo tratar-se de um ano novo que para nós constitui uma incógnita.
O que acontecerá? Como será?
Até certo ponto, o ano que começa é programável, mas nunca de modo adequado, pois há o completamente imprevisível: não somos senhores absolutos do tempo, do futuro.
Significativamente, em algumas línguas, existem duas palavras para dizer o futuro;
- no alemão , por exemplo: Futur e Zukunft.
- Nós, embora não tão acentuadamente, também temos futuro e advento.
Para dizermos
- o futuro até certo ponto programável, pois é continuidade do presente,
- e futuro enquanto não programável, pois é o que chega, o que vem, não programável.
Significativamente, o último livro da Bíblia, o Apocalipse, diz o que é Deus nesta referência ao tempo:
“Deus é Aquele que era, que é e que há-de vir”, quando esperávamos que dissesse “e que será”.
Sendo Deus Aquele que vem, a História está aberta à esperança que não engana.
- Nestes dias festivos, lembramos mais os amigos, os familiares, aqueles e aquelas que levamos no coração.
- Ao menos por esta altura, há uma saudação, uma palavra, um encontro.
Mas talvez nenhum de nós, nesta lembrança, tenha deixado de deparar-se com um buraco negro:
- um amigo, um familiar, uma amiga, que ainda no ano passado cá estavam e já cá não estão.
- E é uma falta e uma tristeza e um queixume e uma pergunta e talvez uma oração (afinal, rezar também é perguntar…).
Depois, há a História e votos para o novo ano.
- Foi no dia 1 de Janeiro de 2002 – há vinte anos – que o euro, a nova moeda dos europeus, começou a circular de modo palpável.
- Desde então, é possível circular de Lisboa a Atenas, a Helsínquia ou a Berlim sempre com a mesma moeda.
- Quantos acreditariam ainda há poucos anos que isto havia de ser possível?
Afinal, há sonhos e utopias que se tornam realidades.
No ano anterior, a 15 de Dezembro, houve a Declaração Comum dos Chefes de Estado e de Governo da União Europeia, aprovada na Cimeira de Laeken:
- “Num mundo globalizado, mas simultaneamente muito fragmentado, a Europa deve assumir as suas responsabilidades na gestão da globalização.
- O papel que deve desempenhar é o de uma potência que luta decididamente contra todas as formas de violência, terror ou fanatismo,
- mas que também não fecha os olhos às injustiças gritantes que existem no mundo.”
Mas hoje sente-se algum mal-estar e até se fala em ameaças de guerra…
O dia primeiro do ano é também o Dia da Paz. A guerra só traz destruição.
Foi a 8 de Dezembro de 1967 que o Papa Paulo VI propôs a criação do Dia Mundial da Paz, que se celebraria no dia 1 de Janeiro de cada ano. Como é hábito, neste ano o Papa Francisco também escreveu uma mensagem para este dia.
Fica aí um apontamento.
Começa com uma constatação:
“O caminho da paz permanece, infelizmente, arredio da vida real de tantos homens e mulheres e consequentemente da família humana, que nos aparece agora totalmente interligada.
- Apesar dos múltiplos esforços visando um diálogo construtivo entre as nações,
- aumenta o ruído ensurdecedor de guerras e conflitos, ao mesmo tempo que ganham espaço doenças de proporções pandémicas,
- pioram os efeitos das alterações climáticas e da degradação ambiental, agrava-se o drama da fome e da sede
- e continua a predominar um modelo económico mais baseado no individualismo do que na partilha solidária.
Como nos tempos dos antigos profetas, continua também hoje a elevar-se o clamor dos pobres e da terra para implorar justiça e paz.”
Para a construção de uma paz duradoura, propõe três caminhos.
1. O primeiro é o diálogo entre as gerações como ponte entre o passado e o futuro: ele é a base, forma eminente de amor para a realização de projectos compartilhados e sustentáveis.
2. A instrução e a educação são “os alicerces de uma sociedade coesa, civil, capaz de gerar esperança, riqueza e progresso”. Impõe-se um novo paradigma cultural, através de “um pacto educativo global para e com as gerações jovens, que empenhe as famílias, as comunidades, as escolas e universidades, as instituições, as religiões, os governantes, a Humanidade inteira na formação de pessoas maduras”.
3. O trabalho é indispensável para “construir e preservar a paz”: ele constitui “expressão da pessoa e dos seus dotes, mas também compromisso, esforço, colaboração com outros, porque se trabalha sempre com ou para alguém”. O trabalho “é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal”. Neste domínio, “é chamada a desempenhar um papel activo a política, promovendo um justo equilíbrio entre a liberdade económica e a justiça social”.
Bom ano de 2022!
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Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia.
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/ano-novo-2022-14449791.html
