
Raniero La Valle – 23 Dezembro 2021
A opinião é de Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado por Chiesa di Tutti, Chiesa dei Poveri, 22-12-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Antes do Natal, foram divulgados alguns dados sobre a tragédia humana em curso hoje no mundo. Acima de tudo, os dados sobre a pandemia: no debate público, alguns falam de resquícios da sua impetuosidade, mas ela parece bem longe do fim.
Ela pressiona a Europa, enquanto o renomado virologista estadunidense, conselheiro de Biden para a saúde, Antony Fauci, diz que o fim da crise global ainda está longe.
A variante Ômicron está se difundindo com extraordinária rapidez na África do Sul e criou raízes em 40 nações, além de 15 Estados estadunidenses, onde foram registrados nos últimos dias 800.000 mortes e 50 milhões de casos. A ciência nos deu as vacinas, mas decepciona as esperanças na solução para a crise.
Também não existem apenas as doenças.
- Somando dor sobre dor, as Nações Unidas contaram no ano passado 281 milhões de migrantes internacionais.
- Em 2019, havia 4,4 milhões de requerentes de asilo e 21 milhões de refugiados.
- As migrações que antes se limitavam a alguns países e a algumas categorias de pessoas que tinham a possibilidade de emigrar hoje dizem respeito a quase todos os países e faixas de renda mais baixas.
A FAO diz que 811 milhões são aqueles que lutam contra a fome todos os dias.
Enquanto isso, rios de dinheiro correm para as armas.
- De acordo com dados citados por 50 prêmios Nobel da Paz, que pediram aos governos uma redução dos gastos militares em 2% ao ano durante cinco anos,
- essas despesas chegaram a dois trilhões de dólares [11 trilhões de reais] por ano.
O cruzamento desses dados com a recorrência do Natal
- sugere uma interrogação que hoje caiu no silêncio,
- mas que, até o advento da modernidade, havia percorrido toda a história humana, pelo menos nesta parte do mundo:
o que aconteceu com a salvação da humanidade? Existe uma salvação que podemos esperar e na qual podemos ter esperança?
Ao longo do tempo, sucederam-se a essa pergunta as respostas das fés religiosas, a judaica, a cristã, a islâmica. No século passado, um grande filósofo, Heidegger, diante do domínio absoluto da técnica, também se perguntava se, agora, somente um Deus poderia nos salvar.
- Hoje, os céus parecem fechados, mas Prometeu também parece ter feito a sua corrida.
- As respostas que eram esperadas da razão, do Estado, da ciência, do dinheiro mostraram a sua falácia, revelaram os seus limites.
Naturalmente, a história não acabou, e todas as pistas permanecem abertas;
- mas então seria preciso mais determinação na busca das soluções parciais, das salvações mesmo que circunscritas, embora esperadas,
- algo sobre o qual as crenças também deveriam estar de acordo.
Entre estas, as mais urgentes parecem ser hoje as relativas à pandemia, e isso por duas razões.
A primeira é que, mais do que qualquer outro desastre,
- ela evidencia as contradições do sistema, fragmentado e selvagem como é,
- e a necessidade de uma gestão diferente da convivência.
A segunda é que,
- ao impor a separação e a distância entre as pessoas como seu remédio peculiar,
- ela representa a máxima negação da comunhão necessária ao humano.
Por isso, consideramos mais do que nunca necessário buscar a solução
- de um constitucionalismo mundial que afirme a universalidade dos direitos
- e fundos políticos que garantam o seu cumprimento para todos,
- na progressiva construção da casa comum.
Uma difusão universal das vacinas, até a sua obrigatoriedade para todos, deveria ser um dos seus primeiros objetivos,
- e a reivindicação da propriedade intelectual das vacinas pelas empresas farmacêuticas não poderia ser um obstáculo para isso,
- nem a recusa de quem não quer se vacinar (na Itália, oito milhões; nos Estados Unidos, mais de um quarto da população),
- coisas que, segundo esse paradigma, também podem reivindicar uma tutela constitucional,
- mas que não deveriam ter uma proteção superior ou igual à do bem e do direito universal à saúde e à vida.
Utopia e irrealismo?
- Não, um constitucionalismo para além do Estado,
- dotado de garantias internacionalmente estabelecidas, como diz Luigi Ferrajoli (“La costruzione della democrazia” [A construção da democracia], Ed. Laterza, 2021),
- é antes a única resposta racional e realista a essa e a outras emergências planetárias.

Raniero La Valle
Jornalista leigo italiano, foi o melhor comentador e divulgador das sessões diárias do Concilio Vaticano II, na década de 60, na Itália
Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/615546-o-jogo-da-salvacao-artigo-de-raniero-la-valle#
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