O clero está se apagando, e isso, precisamente isso, acende a luz da esperança. Artigo de José M. Castillo

 

Cura mayor

José María Castillo – 16 Dezembro 2021 – Foto: Padre ancião: Daqui

 “No Vaticano existem Sagradas Congregações para vigiar a Doutrina da Fé, para cuidar do clero, da liturgia, dos seminários, da Vida Religiosa, etc. Mas não há Congregação que cuide da fidelidade ao Evangelho.
Felizmente, o Papa Francisco abriu uma janela de esperança para nós. Sua humanidade, sua simplicidade, sua proximidade com os pobres, os enfermos e as crianças, sua liberdade de dizer ao clero o que o clero não queria ouvir… Tudo isso nos faz pensar que o clero está se apagando. E isso, precisamente isso, acende a luz da esperança. A Igreja, que vive o Evangelho, tem futuro”,
escreve o teólogo espanhol José María Castillo, em artigo publicado por Religión Digital, 15-12-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

A palavra clero não aparece nem sequer uma vez em todo o Novo Testamento. O termo clero vem do grego “kleros”, que significa “sorte”. E começou a se utilizar na Igreja durante o século III. Encontra-se em Tertuliano (Monogamia, 12) e mais tarde o retoma Cipriano (Epist. 14, 1). Generalizou-se a partir de Santo Agostinho (Enarratio in Ps. 67) (cf. A Forcellini, Totius Latinitatis Lexicon, vol. II, pág. 233; Henricus Spelthahn, Thesaurus Linguae Latinae, vol. III, 1340-1341; A Faivre, Lexikon für Theologie und Kirche, vol. VI, 131-133).

Mas foi o imperador Constantino que recompensou o alto clero cristão com privilégios adequados.

  • Pois eram os clérigos (e não o cristão-médio), os especialistas em rituais;
  • os que sabiam como executar o “culto do santo e celestial poder” (Carta de Constantino al obispo de Siracusa; Eusebio, Historia eclesiástica, 10. 3, 21, pg. 632. Cf. Peter Brown, Por el ojo de una aguja, Barcelona, Acantilado, 2016, pg. 99).

 

Historicamente compreende-se a aparição de alguns “privilegiados

  • que tiveram a “sorte” de ser eles – e somente eles – os que sabiam das leis, ritos e cerimônia tal como a Igreja (do século III ao VI) foi evoluindo,
  • da transparência do Evangelho até a complexidade de uma Religião, que pretendia se impor sobre toda a Europa.

Compreende-se que,

  • naqueles tempos, em que o poder e o dinheiro eram os valores determinantes na sociedade,
  • por isso mesmo se valorizava tanto a enorme “sorte” dos que mandavam.
  • Eles – e somente eles – tinham a “sorte”, ou seja, eles eram o “clero”.

 

Mas, ao mesmo tempo, entende-se que a “sorte” do “clero” também foi uma “desgraça”.

Uma desgraça fatal que só agora podemos compreender.

  • Quando a sociedade, a cultura, a política, a economia e até os costumes mudaram, a presumível “sorte” representada pelo clero não é valorizada nem estimada.
  • Por não ser mais valorizado, como era valorizado na Idade Média, asorteque então que tinham os clérigos”.
  • Hoje se valoriza a sorte dos capitalistas, dos políticos que triunfam, dos sábios, dos artistas.
  • E mesmo na religião, aqueles que alcançam as posições mais altas que podem ser alcançadas na Igreja triunfam.

 

Clero

Os que tiveram “sorte”, os que Constantino encheu de honras e posses, para ajudarem a organizar o Império: funcionários do sagrado ao serviço do profano – Foto: DAQUI

 

Duas consequências – dentre outras – de tudo isso:

1) Todos os dias há menos cidadãos que querem ser clérigos ou pertencer ao clero. Em outras palavras, o clero não é mais “sorte”. A sorte é para aqueles que detêm poder e dinheiro terem sucesso na sociedade de hoje.

2) O mais importante e o mais sério que aconteceu na Igreja é que a religião se impôs e o Evangelho foi marginalizado.

O que quer dizer que a Igreja ficou desorientada.

  • Porque a Igreja nasceu do Evangelho.
  • E segundo o Evangelho, os apóstolos (e seus sucessores) receberam de Jesus o mandato de tornar o Evangelho presente em todo o mundo (Mt 28, 16-20; Mc 16, 14-15; Lc 24, 46-49; Jo 20, 30-31).

E, na realidade,

  • o que a Igreja faz de melhor, o que mais se preocupa e o que mais exige
  • é manter e propagar, na medida do possível, a Religião que os “clérigos” ensinaram desde o século III até os dias atuais.

E se formos honestos, temos que admitir que foi a religião que matou Jesus. Quem mais sentenciou a morte de Jesus? (Jo 11, 47-53).

 

E termino confessando esse fato estranhamente para mim:

  • no Vaticano existem Sagradas Congregações para vigiar a Doutrina da Fé, para cuidar do clero, da liturgia, dos seminários, da Vida Religiosa, etc.
  • Mas não há Congregação que cuide da fidelidade ao Evangelho.

 

Felizmente, o Papa Francisco abriu uma janela de esperança para nós.

Tudo isso nos faz pensar que o clero está se apagando. E isso, precisamente isso, acende a luz da esperança. A Igreja, que vive o Evangelho, tem futuro. Para ela e para o mundo.

 

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