
por Roberto Malvezzi (Gogó) – 09.12.2021 – Foto: Outras Palavras
Desemprego e miséria, gêmeos siameses, assolam dezenas de milhões de famílias brasileiras. O clima é de derrota, mas até quando? “Metade da humanidade não come; e a outra não dorme, com medo da que não come”,
já disse Josué de Castro
O melhor critério para avaliar o atual governo, que compreende todos os envolvidos no golpe de 2015, é a fome.
- São mais de 100 milhões de brasileiros em insegurança alimentar
- e 19 milhões na miséria absoluta. Ao sepultar o Programa 1 Milhão de Cisternas (P1MC) o atual governo também ressuscitou a sede.
Podemos trazer junto os irmãos siameses da fome,
- como a invasão dos territórios ancestrais,
- o desemprego,
- a derrubada da legislação trabalhista retirando as garantias mínimas ao trabalhador,
- a desindustrialização,
- quem sabe alguma contribuição da pandemia,
- embora ela esteja no mundo inteiro e só aqui o desemprego e a fome tenham avançado em números tão altos.
Faz parte desse rosário a destruição dos bens naturais desse país.
A fome não rouba o sono dos donos do poder.
- Foi atribuída a Josué de Castro a famosa frase: “metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come”.
- Millôr Fernandes ironizou a frase de Josué: “metade passa fome, metade faz regime”.
- Convenhamos, Millôr estava certo.
Voltaram
- os pedintes, os flanelinhas dos faróis,
- cresceu o povo de rua,
- gente furtando comida,
- gente disputando ossos nos lixões ou desmaiando de fome nas filas do país.
Quem passou a vida na luta pela superação da fome, da sede e da miséria, literalmente a luta por um copo de água limpo e um bom prato de comida, evidentemente todos os dias sente a amargura da derrota.
Nesse momento da história, fomos vencidos. Mas, a derrota real é dos que passam fome.
Jesus disse
- bem-aventurado porque “tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35).
- E amaldiçoada porque “tive fome e não me destes de comer” (Mt 25,42).
Portanto, esse é o critério último do julgamento religioso-ético-político de um governo.
Há nessas frases uma dimensão sociopolítica, não só individual. Esse é o Evangelho da Fome.

Roberto Malvezzi (Gogó)
https://outraspalavras.net/crise-brasileira/o-evangelho-da-fome/Fonte