Eis o artigo.
A continuidade da V Conferência Episcopal de Aparecida como Primeira Assembleia Eclesial do povo de Deus, realizada de maneira híbrida, fisicamente no México e virtualmente em dimensão continental, foi um balão de ensaio. A convocação dessa assembleia pelo Papa Francisco tinha dois objetivos:
- Primeiro, retomar sugestões de Aparecida que, no decorrer dos 14 anos desde a sua realização, não encontraram a devida atenção.
- Segundo, ampliar a base dos interlocutores na preparação, na realização e no encaminhamento das decisões de eventos semelhantes.
Na Evangelii gaudium (EG 113, cf. 239), de 2013, o Papa Francisco refere-se a essa base mais ampla:
“Jesus não diz aos Apóstolos para formarem um grupo exclusivo, um grupo de elite. Jesus diz: «Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos»” (Mt 28, 19).
Pela pregação e o batismo, os apóstolos edificaram a Igreja e fizeram discípulos de todos os povos.
Nessa Igreja,
“cada ministro é um batizado entre os batizados” (Episcopalis Communio10), cada bispo é “mestre e discípulo, […] discípulo quando, sabendo que o Espírito é doado a todo batizado, põe-se em escuta da voz de Cristo que fala através do inteiro povo de Deus, tornando-o `infalível in credendo´ (Episcopalis Communio5)”.
O Espírito, o qual guia o povo de Deus,
- transforma os batizados de “ouvidores”da hierarquia e de executores de decisões, das quais não participaram,
- em protagonistas da evangelização.
“Como parte do seu mistério de amor pela humanidade, Deus dota a totalidade dos fiéis com um instinto da fé […]. A presença do Espírito confere aos cristãos certa conaturalidade com as realidades divinas […], embora não possuam os meios adequados para expressá-las com precisão” (EG 119).
Ao lembrar o Vaticano II (cf. Lumen gentium 12), o Papa ainda considera que, por conseguinte
“não seria apropriado pensar em um esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas ações.
A nova evangelização deve implicar um novo protagonismo de cada um dos batizados” (EG 120).
- A realização desse “novo protagonismo”
- inspirou a transformação de uma esperada “VI Conferência Episcopal” em “Primeira Assembleia Eclesial”,
- uma proposta realmente profética em continuidade ao Concílio Vaticano II e ao magistério latino-americano e caribenho posterior.
1. Continuidade
Na origem da “Primeira Assembleia Eclesial”, pela proposta de seu conteúdo e a prática de sua metodologia, está o Concílio Vaticano II e o magistério latino-americano e caribenho.
Nem o fato de que a “Assembleia Eclesial” foi declarada início de um processo, justificaria um distanciamento além daquele que a própria história impõe aos caminhantes desses dois referenciais. Também o Vaticano II e as Conferências Episcopais desencadearam processos nas comunidades, paróquias e faculdades de teologia, através de seus Documentos e suas Conclusões.
A “Primeira Assembleia Eclesial” e sua bandeira da “conversão sinodal”
- não significa ruptura,
- mas inserção e continuidade criativa em uma longa caminhada desde o Vaticano II (1961-65), Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007).
A “Primeira Assembleia Eclesial” não começa em um marco zero imaginado, mas faz parte de uma caminhada histórica concreta.
2. Consenso
Os eventos referenciais da “Primeira Assembleia Eclesial”, seus conteúdos e métodos, foram resultado de calorosas discussões.
Em nenhum desses eventos e processos que geravam, havia unanimidade.
Basta ler as votações finais dos documentos do Vaticano II para se dar conta da realidade histórica, na qual precisamos aprender a viver com consensos sofridos e plurais que não significam unanimidade.
Basta reconstruir as discussões em torno da eclesiologia do Vaticano II,
- nas quais a eclesiologia de “comunhão” e “mistério”, defendida pelo cardeal Ratzinger,
- e a eclesiologia de “povo de Deus”, na base do capítulo II da Lumen Gentium e defendida por setores em torno da Teologia da Libertação e do Terceiro Mundo
foram disputadas.
Unanimidade caracteriza regimes autoritários.
“A lógica da encarnação”, nos lembrou o “Documento Final do Sínodo para a Amazônia”, contribui necessariamente para um “rosto pluriforme” da Igreja, “enraizada em muitas culturas diferentes”(DFSA 91).
- Não podemos esperar de sínodos ou assembleias eclesiais unanimidade, o que significaria desprezar a condição humana histórica e as contingências dos atores sociais.
- O Espírito pode transformar as diferenças entre as pessoas e povos, que por vezes são incômodas, “em dinamismo evangelizador”(EG 131, cf. 162).
Sínodos e concílios nos ensinam
- a conviver com “uma realidade dinâmica” (FT 211)
- e a aceitar os condicionamentos históricos da verdade.
“A expressão da verdade pode ser multiforme” (EG 41).
- Sua unidade é escatológica, quando veremos Deus face a face.
- Sínodos e assembleias eclesiais não precisam ter medo de divergências e discussões.
- Podem ser lugares de convivência civilizada e discussões produtivas entre setores diferentes da Igreja una e santa.
3. Clericalismo
Embora as conferências latino-americanas tenham sido episcopais, não se realizaram desarticuladas do conjunto do povo de Deus. A maioria dos delegados dessas conferências veio de realidades sofridas em suas dioceses e prelazias.
Em seu conjunto, não se tratava de elites, e por causa disso não servem como exemplos de um clericalismo que precisa ser erradicado.
- Basta ler as respectivas Conclusões.
- Basta ler o Documento Final do “Sínodo [ainda episcopal] para a Amazônia” (DFSA) para sentir o zelo pastoral dos seus autores, em sua maioria clérigos.
Contudo, mesmo as decisões pastorais corretas precisam da participação do povo de Deus ao qual se referem.
Com a palavra “clericalismo”, que de fato é um fenômeno abominável na Igreja, trata-se do uso e abuso do poder institucionalizado que mantém os leigos “à margem das decisões”(EG 102).
Para sanar a Igreja desse “abuso do poder institucionalizado”, que pode ser clerical ou laical, o Papa Francisco propôs essa metamorfose da “Conferência Episcopal” em “Assembleia Eclesial”.
A maioria estatística dos “assembleístas” foi composta de leigos e leigas.
- Na condução da assembleia, porém, o papel decisivo não foi deles, mas dos quadros institucionais do Celam, que cumpriu o papel que a Cúria Romana teve durante o Vaticano II.
- Ao iniciar seus trabalhos, a assembleia foi confrontada com o Programa Geral do evento, sem consulta ou possibilidade de alguma modificação.
- Tudo já estava previsto e decidido, como antigamente nos Cursilhos de Cristandade.
4. Participação
A perspectiva de uma real participação do povo de Deus na “Assembleia Eclesial” desencadeou grandes expectativas. É compreensível que essa participação não pode acontecer de uma dia para o outro.
Convém lembrar uma frase programática de Aparecida sobre essa participação, válida para a e além da “Primeira Assembleia Eclesial”:
- Na realização da “conversão pastoral” da Igreja e da “renovação missionária das comunidades” (DAp 7.2),
- “os leigos devem participar do discernimento, da tomada de decisões, do planejamento e da execução”(DAp 371).
- A “Assembleia Eclesial” de 2021, convocada como “Assembleia do povo de Deus”, deve ser avaliada a partir dessa efetiva participação.
Essa “participação”já foi praticada no início do Concílio Vaticano II, quando a assembleia dos mais de dois mil padres conciliares presentes se declarou soberana, face aos esquemas preparados pela Cúria Romana.
- No final da primeira sessão conciliar, criou uma Comissão de Coordenação e rejeitou, salvo o esquema da liturgia, praticamente o restante dos 69 esquemas preparados.
- Também vale a pena reler o que a Conferência de Puebla (1979) propõe na terceira parte de suas Conclusões, sobre a prática ampla de participação na Igreja: “Evangelização na Igreja da América Latina: Comunhão e Participação” (DP 563-1127).
- A “conversão sinodal”exige “comunhão e participação”na busca de “novos caminhos eclesiais, sobretudo, na ministerialidade e sacramentalidade da Igreja” (DFSA 86).
Na “Síntese Narrativa”, que sistematizou a escuta das vozes do povo de Deus, antes da realização da “Assembleia Eclesial”, o anseio conceitual da “participação” é mais de duzentas vezes mencionado. Por conseguinte, pode-se presumir dessa assembleia uma forte vontade de maior e real participação em tudo aquilo que a Igreja propõe para servir à humanidade.
5. Autonomia
As Conferências Episcopais que precederam a “Primeira Assembleia Eclesial”
- iniciaram seus trabalhos com a constatação da soberania da assembleia,
- e com a consulta aos participantes sobre a possibilidade e qualidade de um Documento Final.
Uma minoria, mais distante da realidade pastoral ou mais próxima à Cúria Romana,
- votou, geralmente, contra um Documento Final,
- mas foram exatamente as Conclusões das respectivas Conferências Episcopais que permitiram prolongar os eventos em processos frutíferos,
- os quais tiveram ampla participação nas Igrejas locais.
Ao receberem, no início da “Assembleia Eclesial”, o Programa Geral, os assembleístas souberam que a “Primeira Assembleia Eclesial” não produziria um Documento Final que significou o aviso de uma ruptura com as experiências bem sucedidas das Conferências Episcopais anteriores.
Haveria no final, no sábado 27 de novembro,
- a “Apresentação de Conclusões” que se tornaram “Doze Desafios Pastorais”,
- os quais, quase em sua totalidade, já se encontram no Capítulo II da Evangelii gaudium, de 2013.
- Na computação dos votos, esses desafios foram matematicamente somados.
Entretanto,
“o Consensus Ecclesiae não resulta da contagem dos votos, mas é fruto da ação do Espírito, alma da única Igreja de Cristo” (Episcopalis Communio 7).
- Outras experiências pastorais e seus desafios, como as Comunidades Eclesiais de Base, as Missões Populares e os mártires nem foram mencionados.
- Os povos indígenas e afrodescendentes entraram de raspão como último desafio.
Resultado austero para um evento tão esperado para abrir caminhos de uma ampla participação do povo de Deus na Igreja. A Assembleia foi conduzida para dar respostas a algo que não foi perguntado.
No “ver”, que trata do levantamento da realidade, todas as Conferências Episcopais se desdobraram para identificar desafios. Agora é o tempo de os discípulos missionários assumirem a Igreja em saída.
O que o Papa disse sobre a “corresponsabilidade”, a “reabilitação e apoio das sociedades feridas” (Fratelli Tutti 77), é muito concreto e vale também para a Igreja.
- Uma real participação do povo de Deus, além da escuta, da presença numérica e de atividades pastorais executivas, vai depender de permanentes ajustes entre conversão sinodal e participação eclesial.
- Esses ajustes necessitam humildade, vigilância, discernimento, coragem profética e lealdade eclesial.
Os cinco discernimentos sobre continuidade, consenso, clericalismo, participação e autonomia na “Primeira Assembleia Eclesial”, fazem parte da recepção festiva que ela recebeu de seus organizadores, que merecem gratidão, e por parte de muitos assembleístas que, pela primeira vez, participaram de um evento dessa magnitude.
O “discernimento evangélico da realidade” (cf. EG 45; 50) e “a alegria do Evangelho” são dons do Espírito. Ambos sustentam o ardor missionário.
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Paulo Suess
Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/615009-discernimentos-depois-da-primeira-assembleia-eclesial
Leia mais:
- Os rumos da Igreja na América Latina a partir de Aparecida. Uma análise do Documento Final da V Conferência. Revista IHU On-Line, Nº. 224
- Igreja sem saída, Igreja em saída: Da Conferência Episcopal de Aparecida para a Assembleia Eclesial do México. Artigo de Paulo Suess
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