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Luiz Gonzaga Belluzzo – 11 Julho 2020 – Imagem: DAQUI
Eis o artigo.
No ensaio recente Néolibéralisme classique et nouveau néolibéralisme, Pierre Dardot cuida de seu tema preferido, o neoliberalismo, suas origens e evolução.
Julguei oportuno revisitar a contraposição entre o liberalismo clássico e os neoliberalismos em um momento delicado da vida brasileira.
Muitos brazucas se contorcem
- entre a adesão aos movimentos em defesa da democracia sem adjetivos
- e os receios de perder na caminhada os inalienáveis direitos sociais e econômicos duramente conquistados.
Vamos às origens.
Ainda antes da Segunda Guerra Mundial, em carta a um amigo, Wilhelm Röpke, um dos corifeus do neoliberalismo, desvelou a incompatibilidade entre seu ideário e a democracia geral e irrestrita.
“É possível que minha opinião sobre um ‘Estadoforte’ (um governo que governa) seja ainda ‘mais fascista’,
- porque eu realmente gostaria de ver todas as decisões de política econômica concentradas nas mãos de um Estado vigoroso e totalmente independente
- e não fragilizado pelas forças pluralistas de natureza corporativista…
Estou procurando a força do Estado na intensidade e não na abrangência de sua política econômica. (…) Compartilho a opinião de que
- as velhas fórmulas da democracia parlamentar demonstraram sua futilidade.
- As pessoas precisam se acostumar com o fato de que há também uma democracia presidencial, autoritária, sim,
- e até mesmo – horribile dictum – uma democracia ditatorial.”
Michel Foucaultdiscorreu com abrangência e profundidade sobre o significado do neoliberalismo.
Foucault dá importância secundária à hipótese mais óbvia que afirma o predomínio dos nexos mercantis sobre o conjunto das relações sociais.
Para o filósofo,
- “a sociedade regulada com base no mercado em que pensam os neoliberais é uma sociedade em que o princípio regulador não é tanto a troca de mercadorias quanto os mecanismos da concorrência…
- Trata-se de fazer do mercado, da concorrência e, por consequência, da empresa o que poderíamos chamar de ‘poder enformador da sociedade’”.
Contrariamente ao que imaginam detratores e adeptos, diz Foucault,
- o neoliberalismo é uma “prática de governo”na sociedade contemporânea.
- O credo neoliberal não pretende suprimir a ação do Estado,
- mas introduzir a regulação do mercado para preservar a concorrência e impedir as interferências nefastas da proteção social aos “ineficientes”.
Em 1942, Wilhelm Röpke revisitou as categorias Dominium e Imperium.
- Dominium significa “dominância sobre as coisas”,
- Imperium significa “dominância sobre os homens”.
Ele diz:
“Imperium e Dominium estão separados no mundo do liberalismo clássico”.
Já o neoliberalismo deve manter a convergência entre essas duas esferas, o que corresponde à visão de um “governo duplo”:
- haveria um mundo de economia e da propriedade, coexistindo com outro mundo,
- o dos espaços jurídico-políticos onde vivem e padecem os homens de carne e osso.
Corey Robin, em artigo sobre as afinidades entre Nietszche e Hayek, afirma que
- o economista austríaco admite a necessidade das “decisões de uma elite governante”
- como antídoto às trapalhadas da malta ignara.
Nas páginas do famoso livro The Road to Serfdom, Hayek escreve:
“O empregador e o indivíduo independente estão empenhados em definir e redefinir seu plano de vida, enquanto os trabalhadores cuidam, em grande medida, de se adaptar a uma situação dada”.
Ao trabalhador de Hayek faltam responsabilidade, iniciativa, curiosidade e ambição. É um perdedor.
Por isso, nos escritos político-jurídicos, Hayek não hesita em escolher o liberalismo diante dos riscos da democracia.
- “Há um conflito irreconciliável entre democracia e capitalismo – não se trata da democracia como tal, mas de determina- das formas de organização democrática…
Agora tornou-se indiscutível que os poderes da maioria são ilimitados e que governos com poderes ilimitados devem servir às maiorias e aos interesses especiais de grupos econômicos.
Há boas razões para preferir um governo democrático limitado, mas devo confessar que prefiro um governo não democrático, limitado pela lei, a um governo democrático ilimitado (e, portanto, essencialmente sem lei).”
O poeta e crítico literário Anis Shivani
- reconhece que as leis do Imperium conseguiram submeter os mais frágeis.
- “Em vez de reivindicarem a proteção social como um direito legítimo, os cidadãos sentem-se culpados, vexados e deprimi-los por sua dependência dos programas governamentais.”
Convencidos de sua liberdade, os indivíduos livres entregam seu destino aos grilhões da concorrência e às ilusões da meritocracia.
Transtornados por suas culpas, os perdedores acomodam-se aos suplícios da exclusão e da desigualdade.

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Luís Gonzaga Belluzzo
é um economista e professor brasileiro da Universidade Estadual de Campinas e da Faculdades de Campinas.
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