
A última quinta-feira foi um grande dia para dom Charles Chaput, arcebispo emérito da Filadélfia. Ele chamou o Papa Francisco de mentiroso nas páginas da revista ultraconservadora First Things.
O artigo é Michael Sean Winters, jornalista estadunidense, publicado por National Catholic Reporter, 25-10-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.
Chaput estava respondendo (disponível neste link, em inglês) ostensivamente a um artigo de Austen Ivereigh, publicado na revista America (disponível neste link, em inglês), dos jesuítas estadunidenses, no qual discutia os comentários do Papa Francisco sobre a EWTN, uma rede de comunicação católica conservadora dos EUA.
E Chaput reconhecia a ligação.
“Para ser justo, o artigo de Ivereigh simplesmente elabora os comentários que o Papa Francisco fez recentemente aos jesuítas na Eslováquia”, escreveu.
“Papa Francisco não nomeia nenhuma organização midiática, mas como jornalistas rapidamente confirmaram, ele se referia à EWTN”.
Quando ele vai explicar que
- a EWTN não é nem de perto tão temível quanto o Facebook,
- e que o âncora Raymond Arroyo, a estrela da emissora, é menos ameaçador que Xi Jinping,
- e que, como antigo membro da diretoria da EWTN, ele estava consciente das suas forças e fraquezas,
diz que está rebatendo Ivereigh.
Mas então ele entra no conteúdo central do seu artigo:
“E qualquer suspeita que a EWTN seja infiel à Igreja, ao Concílio Vaticano II ou à Santa Sé é simplesmente vingativo ou falso”.
Ser infiel à Igreja é exatamente o que o Papa Francisco disse que a EWTN era.
“Há, por exemplo, um grande canal de televisão que não tem hesitação em continuamente falar mal do Papa”,
falou Francisco aos jesuítas na Eslováquia.
“Eu pessoalmente mereço ataques e insultos porque sou um pecador, mas a Igreja não merece. Eles estão fazendo o trabalho do diabo. Eu também tenho dito isso a alguns deles”.
O arcebispo Chaput agora constata que tal reivindicação é “simplesmente vingativa e falsa”.
Como Chaput
- enquadra o esforço consistente da EWTN para demonizar os imigrantes à moda trumpiana – por exemplo, neste episódio de The World Over (em inglês) –
- com sua afirmação de que eles são fiéis à Santa Sé,
- sendo que esta fez do cuidado dos migrantes uma prioridade óbvia para muitos anos?
A Igreja
- há muito clama por assistência médica universal, e como não poderia?
- Nosso fundador, Jesus, ministrou às pessoas de seu tempo, curando os enfermos aonde quer que fosse.
Mas a EWTN
- ficou muito feliz em espalhar mentiras sobre a Lei de Cuidados Acessíveis.
- Isso é ser fiel à Igreja?
A exortação apostólica do Papa Francisco, Amoris Laetitia, e os dois sínodos que a conduziram, foram uma fonte de críticas constantes na EWTN.
Na verdade,
- os únicos cardeais que Raymond Arroyo inclui rotineiramente na pauta são aqueles como o cardeal Raymond Burke e o cardeal Gerhard Müller,
- que lideraram a oposição a Amoris Laetitia (inclusive, Müller apareceu na EWTN na semana passada dizendo que a consulta antes do sínodo é “desnecessária”).
A lista continua.
Seu esforço contínuo para reivindicar o manto da ortodoxia para si mesmos enquanto lançam calúnias sobre a ortodoxia do Papa é, pelo menos, quase cismático.
- Da mudança climática à tradicional missa latina à nomeação de cardeais estadunidense para a sinodalidade,
- os programas de notícias gêmeos da EWTN, News Nightly e o semanário The World Over, de Arroyo, destacam os críticos do Papa e nunca seus defensores.
Mesmo prelados conservadores como o cardeal Sean O’Malley não são mais convidados por Arroyo porque – imagine só! – O’Malley leva a sério seu voto de obediência ao Papa.
Chaput certa vez fez o mesmo voto, o voto de obediência que todos os bispos fazem. Em sua ordenação episcopal, Chaput, como todos os bispos, fez várias promessas, mas uma delas é a fidelidade ao Papa.
- “Você está decidido a construir o corpo de Cristo, Sua Igreja, e permanecer em unidade com esse corpo, junto com a ordem dos bispos, sob a autoridade do Sucessor de São Pedro, o Apóstolo?”,
- ele deve ter sido questionado, ao que ele deve ter respondido: “Eu aceito”.
Então, a ele deve ter sido perguntado:
- “Você está decidido a prestar obediência fiel ao Sucessor do Abençoado Apóstolo Pedro?”.
- Novamente, ele deve ter respondido: “Sim, estou”.
Se Francisco não é Pedro, não existe Pedro.
Chaput passa a criticar Massimo Faggioli por seu livro “Joe Biden and Catholicism in the United States”.
- Ele diz que a obra “qualifica [Faggioli] para o status de cortesão”,
- mas a única corte que ele mencionou até agora é o que cerca o Papa, não o presidente.
O livro de Faggioli mostra que ele gosta de nosso presidente e o considera o homem certo para o cargo neste momento da história, em grande parte por causa de sua sensibilidade e fé católica, mas ele dificilmenteo o estava bajulando
(Nota do IHU: Faggioli proferiu a palestra “Francisco, Biden e os radicais de direita”, no IHU. Na ocasião, o palestrante afirmou que as políticas migratórias de Biden são uma decepção para os católicos. O vídeo completo da conferência pode ser visto neste link, e a transcrição neste).
Se você deseja ver um bajulador católico em vez de um líder político, lembre-se das entrevistas de Arroyo com o presidente Trump. Isso era bajulação da mais alta ordem.
A crítica a Faggioli realmente não se encaixa no restante do artigo. Parece que Chaput só queria tirar isso do peito.
- Ele critica de forma semelhante um artigo na Civiltà Cattolica do jesuíta Antonio Spadaro e do pastor protestante Marcelo Figueroa (traduzido para o português pelo IHU),
- que ele afirma ter se caracterizado por “melodrama e má vontade”.
- Eu pensei que estava certo. Cada um com o seu, mas por que Chaput está agregando esse artigo em sua defesa da EWTN?
É realmente triste, mas importa o que um arcebispo emérito pensa?
Afinal, as estrelas em ascensão na hierarquia não são homens de sua aparente guerra cultural.
- O arcebispo Mitchell Rozanski em St. Louis e o arcebispo Paul Etienne em Seattle – esses homens são pastores, mais nos moldes do Papa Francisco.
- Bispos mais como Chaput vão para Crookston, Minnesota (diocese com aproximadamente 35 mil católicos), e não Chicago (arquidiocese com aproximadamente 2,2 milhões de católicos – os dados foram acrescentados pela tradução, com base no site Catholic Hierarchy).
No entanto, um dos ex-auxiliares de Chaput, o arcebispo José Gomez, é o presidente da conferência nacional dos bispos e faz parte do conselho da EWTN.
Há uma maioria de bispos que ainda estaria do lado de Chaput sobre o papa em qualquer uma de várias questões.
Agora que Chaput chamou o papa de mentiroso, é hora de homens como Gomez decidirem: eles estão com seu patrono ou com seu papa?
E para que o resto de nós saiba onde eles estão. O povo de Deus precisa saber se nossos bispos estão nos levando ao cisma ou não.

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Michael Sean Winters
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