
José Tolentino de Mendonça – 09.10.2021 – Imagem: DAQUI
O MUNDO DIVIDIDO ENTRE “NÓS” E “ELES” É UM MUNDO ASSENTE NUMA VISÃO DE VIDROS FOSCOS, CAINDO EM TANTAS DEFORMAÇÕES.
Olhando para trás, aquela conferência que o sociólogo Zygmunt Bauman pronunciou em Assis, em 2016, tornou-se uma espécie de legado seu ao futuro.
Nessa ocasião, ele que tinha então 91 anos de idade, propôs-se refletir sobre o estado da humanidade fazendo a história do recurso ao pronome “nós”.
Recordo-me de ouvi-lo dizer que
- esta palavra decisiva começou o seu percurso da forma mais restritiva,
- pois os grupos humanos protegiam a sua identidade fechando-se em agregados minúsculos.
Por exemplo, o primeiro “nós” da história humana não ultrapassaria o reduzido círculo de uma centena de pessoas.
Além dessa realidade, os primeiros humanos não conseguiam dizer “nós”.
A humanidade era então composta por bandos de caçadores e recoletores que podiam mover-se conjuntamente e assegurar a alimentação do próprio grupo.
O “nós” terminava abruptamente nessas fronteiras. Tudo o resto era “outro”. E o outro era olhado como inimigo.
Com o tempo,
- o número daqueles que cabiam dentro do “nós” foi crescendo
- e assim se chegou à subsequente noção de tribo e de comunidade, de nação e de império.
- Do estritamente local passava-se ao global.
Bauman para descrever a mecânica da história insistia em dois princípios:
- o primeiro é que a construção da civilização (tanto no passado, como no presente) ocorreu sempre no balanço entre exclusão e inclusão;
- o segundo, é que a civilização avançou apenas quando conseguiu alargar as fronteiras da inclusão e fazer regredir a prática da exclusão.
Por isso, ele afirmava que o nosso futuro depende da capacidade de expandir o pronome “nós” e de reduzir o espaço dado ao pronome “eles”, coisa que só acontecerá se soubermos erguer uma sociedade mais empática, humana e dialógica.
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Não tenhamos dúvidas: a experiência da pandemia só nos servirá como alavanca se ativar mecanismos de construção do “nós”, tornando-nos a todos co-responsáveis por uma política da esperança.
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Num dos escritos de Wittgenstein há uma crua metáfora que infelizmente arrisca tornar-se emblemática da nossa contemporaneidade.
- Diz o filósofo que nos assemelhamos a um homem que olha o mundo através dos vidros foscos de uma janela fechada.
- Vemos a sombra dos que passam no exterior, mas não compreendemos os seus estranhos movimentos.
Na verdade,
- estando protegidos em casa, não nos damos conta que rebentou uma tempestade
- e que aqueles que vemos do outro lado só com dificuldade se mantêm de pé.
- O mundo dividido entre “nós” e “eles” é um mundo assente numa visão de vidros foscos, caindo em tantas deformações.
Sabemos como a insistência na contraposição dualista favorece apenas a hostilidade e o medo, em vez de incentivar a hospitalidade, o encontro, a perceção do bem comum.
Não tenhamos dúvidas:
- a experiência da pandemia só nos servirá como alavanca se ativar mecanismos de construção do “nós”,
- tornando-nos a todos co-responsáveis por uma política da esperança.
- Em vez de dizermos “eles”, deveríamos ser mais capazes de dizer “nós”.
Falando dos pobres, dos excluídos da prosperidade económica, da multidão daqueles que o mercado de trabalho condena à precariedade, dos jovens a quem não se oferece uma perspetiva de amanhã, dos idosos considerados pelas nossas sociedades como um peso deveríamos ter a capacidade de dizer “nós”.
Falando daqueles que não estão em igualdade de oportunidades ou são apressadamente remetidos para o equívoco estatuto de minoria deveríamos ser capazes de dizer “nós”.
Falando dos migrantes e dos refugiados, deveríamos ser capazes de dizer “nós”, alicerçando-nos no reconhecimento de uma condição universal.
Naquela sua conferência/testamento, Bauman recordava que ainda não encontramos os instrumentos para implementar o “nós”.
Nesse sentido, creio, uma tarefa urgente para esta estação que vivemos é aprofundar o significado dessa palavra.
in Semanário Expresso, 09.10.2021

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José Tolentino de Mendonça
Poeta escritor e intelectual português que Francisco fez cardeal