
Boaventura de Sousa Santos – 23 Setembro 2021 – Foto: DAQUI
“Afinal, o abraço só deixou de ser vulgar quando a pandemia o tornou problemático, e foi então que, perante a sua perda, passamos a apreciá-lo verdadeiramente”,
Eis o artigo.
No passado dia 28 de agosto de 2021, às 16h30, dei o primeiro abraço a alguém fora do círculo das poucas pessoas íntimas que convivem comigo diariamente, quinhentos e vinte cinco dias depois de me ter isolado na minha aldeia a 30km de Coimbra devido à pandemia.
O que senti não tem descrição possível. Foi um ato incondicional, uma presença demasiado forte para poder ser objeto de planejamento ou representação.
Sentir as minhas mãos deslizar e apertar outro corpo contra o meu, era algo tão familiar quanto estranho. O prazer de outro corpo contra o meu era mais que erótico. Era a verdade carnal da existência, uma prova de ser.
- Depois veio medo, mas seria medo ou punição pelo prazer?
- Terá sido um ato impensado e desnecessariamente arriscado?
- Seria preciso retreinar os sentidos e reaprender a lidar com as emoções do contato físico e com o conforto desafiador que delas deriva?
- Teria eu estado sujeito a uma prolongada privação do toque e do tato de outros seres vivos que não os estritamente familiares, entre humanos, gatos e cães?
- Porque não me ocorrera durante a longa privação pandêmica abraçar árvores, como fazem muitos ecologistas para sentirem a energia desses maravilhosos seres vivos que ligam de modo tão natural a profundeza da terra e a altura do céu, algo que é tão difícil para os humanos treinados na cultura ocidental?
- Por que é que abraçar as árvores (e tantas tenho no meu quintal), que eu poderia abraçar sem ter medo de ser por elas contaminado pelo coronavírus, não me daria a mesma indescritível emoção que me invadiu ao abraçar e sentir o corpo quente de um ser humano amigo?
- Por que é que esta verdade carnal da vibração incontida de um abraço escapa à reflexão e só como surpresa invade a consciência como uma avalanche solta e “irracional”, de modo menos previsível que um tsunami ou um terremoto?
- Sendo certo que em certas culturas há quem não possa ser tocado, quer por ser demasiado superior quer por ser demasiado inferior, como funcionará a vibração dos corpos sem toque?
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Seria preciso retreinar os sentidos e reaprender a lidar com as emoções do contato físico e com o conforto desafiador que delas deriva? – Boaventura de Sousa Santos – Tweet
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Esta verdade carnal dos corpos e das relações humanas é o dia-a-dia de todos os seres humanos que não fazem do corpo (próprio ou alheio) e das relações humanas
- um instrumento de diagnóstico científico,
- um objeto de lucro
- ou um motivo de especulação filosófica,
mas raramente ocorre ou se impõe a intelectuais e filósofos.
Quando isso ocorre, o que é muito raro, faz deles seres muito especiais.
Lembro-me de Michel de Montaigne que, nos seus Essais, escritos por volta de 1570, escreve sobre o que verdadeiramente conhece,
- o seu corpo
- e as surpresas e contradições das relações humanas.
Por isso, dedica um ensaio à arte de conversar e da confrontação oral e discorre sobre o prazer de comer ostras, mesmo tendo de sofrer as cólicas que elas podem vir a causar.
Mas o caso mais notável é o deAlbert Camus
- e a sua incessante luta contra as ideias abstratas,
- a que contrapõe a verdade carnal da morte e do sofrimento concretos.
Numa sessão na Universidade de Estocolmo, por ocasião da entrega do Prêmio Nobel da Literatura em 1957, quando interpelado agressivamente por um ativista islâmico sobre a independência de Argélia e a questão da violência, Camus respondeu:
“terrorismo nas ruas de Argel… poderia matar a minha mãe ou a minha família. Eu creio na justiça, mas defenderei a minha mãe acima da justiça”.
A sua mãe valia mais para ele do que qualquer ideia abstrata.
O abraço e a cultura
A verdade carnal do abraço depois de tanto desuso e a emoção com que me abalou fez-me refletir sobre o abraço.
Os poetas desde sempre contemplaram as ambiguidades do abraço.
Florbela Espancacanta, num dos sonetos, o “lânguido e doce” abraço de “Dona Morte”.
Pablo Neruda dedica-lhe um poema de amor:
“Em teu abraço eu abraço o que existe / a areia, o tempo, a árvore da chuva / E tudo vive para que eu viva: / sem ir tão longe posso vê-lo todo: / veio em tua vida todo o vivente”.
António Ramos Rosa recusa-se a adiá-lo, e ao amor:
“Não posso adiar este abraço / que é uma arma de dois gumes / amor e ódio”.
E Ana Luísa Amaral canta rupestres saudades de “fresco e doloroso abraço”.
Já Shakespeare tinha mostrado um derrotado Henrique VI a não ter escolha senão “abraçar o amargo infortúnio”.
Por sua vez, o grande poeta, matemático, astrônomo e filósofo persa do século XI, Omar Khayyam, ousou perguntar-se pelo maternal, derradeiro abraço que tudo apazigua.
Muitos séculos mais tarde, o grande poeta turco, Nâzim Hakmet, haveria de cantar o desejo do seu povo –
“honesto, trabalhador, valente, meio saciado, meio faminto, meio escravo…” – de abraçar tudo o que fosse “moderno, belo e bom”.
Entretanto, descobri que psicólogos, etólogos, antropólogos e estudiosos da cultura têm dedicado longas páginas ao estudo de tão simples fenómeno, tão comum entre humanos como entre animais, mas com tantas variações e tão diferentes significados. O termo vem do latim, “bracchia collo circundare”, pôr os braços à volta do pescoço.
É um ato que transmite afabilidade, simpatia, ausência de hostilidade, um gesto que entre humanos tanto ocorre no início de um encontro como na despedida
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É um ato que transmite afabilidade, simpatia, ausência de hostilidade, um gesto que entre humanos tanto ocorre no início de um encontro como na despedida – Boaventura de Sousa Santos – Tweet
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Os animais também se abraçam mas, ao contrário dos humanos, abraçam-se de frente e de costas, e, pelo menos os animais domésticos, não parecem abraçar-se nunca à despedida.
A fenomenologia do abraço é muito complexa e tem sido objeto de minucioso estudo:
- os movimentos de aproximação,
- as expressões corporais,
- a fixação do olhar,
- a duração,
- a maior ou menor pressão dos corpos apertados no abraço,
- o contato ou não de zonas tabu no encontro de corpos de sexo diferente,
- o toque na cabeça ou na cara,
- o âmbito do deslizar das mãos nas costas ou nos ombros do parceiro sem causar desconforto.
O contato corporal é fundamental para os recém-nascidos e o abraço da mãe é rapidamente identificado com sentimentos de alegria, conforto e confiança, que são depois reproduzidos quando abraçam bonecos ou brinquedos.
Por outro lado, há um ramo do conhecimento, a proxêmica,
- dedicado a estudar a relativa distância que as pessoas em diferentes culturas ou com diferentes características psicológicas
- consideram ser necessário manter entre si e outra pessoa, numa interação normal, sem sentirem desconforto.
Por exemplo, pessoas extrovertidas exigem menos distância que as introvertidas ou com distúrbios psicológicos.
- A zona de distância entre os corpos no abraço é considerada a zona íntima, entre 0 e 15 cm.
- Considera-se hoje que essa distância está relacionada com fatores genéticos, ambientais, práticas culturais, papéis sociais, infância, religião.
No mundo ocidental (sobretudo anglo-saxônico),
- os homens tendem a preferir o aperto de mão ao abraço,
- enquanto as mulheres entre si preferem o abraço.
Tudo isto me parece fascinante,
- embora nada me diga sobre o que senti quando abracei o visitante bem-vindo e de quem tinha tantas saudades.
- E também não me explica por que razão, nesse preciso momento, um simples aperto de mão (sobretudo se seguido de desinfecção),
- longe de ser um ato afetivo, significaria distância, desconforto e até hostilidade.
A ciência do abraço não ensina a abraçar, nem é esse o seu propósito.
Mas não deixa de ser interessante conhecer os diferentes significados culturais que esse ato tão vulgar pode ter.
- Afinal, o abraço só deixou de ser vulgar quando a pandemia o tornou problemático,
- e foi então que, perante a sua perda, passamos a apreciá-lo verdadeiramente.
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A ciência do abraço não ensina a abraçar, nem é esse o seu propósito. Mas não deixa de ser interessante conhecer os diferentes significados culturais que esse ato tão vulgar pode ter – Boaventura de Sousa Santos – Tweet
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O significado do abraço está inscrito em muitas culturas.
Na Bíblia,
- é pelo abraço que se dá a reconciliação entre Esaú e Jacó:
- “Então Esaú correu-lhe ao encontro, e abraçou-o, e lançou-se sobre o seu pescoço e beijou-o; e choraram”.
É sabido que
- os povos latinos e africanos têm uma maior necessidade ou uma maior disponibilidade para se abraçar e de o fazer mais efusivamente,
- ainda que nos países africanos de cultura islâmica, os abraços ocorram apenas entre humanos do mesmo sexo.
A duração do abraço está sempre relacionada com a intensidade da emoção, que tanto pode estar relacionada com felicitações como com condolências.
- Enquanto na Rússia, na França e em certas regiões da Europa de Leste o abraço entre homens seguido de beijo na face é comum, tal não acontece noutros países.
- Mas enquanto na Europa do Sul o abraço é uma saudação comum, na Europa do Norte a saudação comum é o aperto de mão.
- Nas diferentes culturas islâmicas, o contato corporal entre homens e mulheres no espaço público é mais raro, a distância na interação tende a ser maior, e o abraço pode mesmo ser proscrito.
A população branca dos EUA é tão pouco atreita a abraçar-se, pelo menos em público, que Kevin Zaborney propôs em 1989 que o dia 21 de Janeiro passasse a ser dia nacional do abraço para desenvolver sentimentos de confiança e de segurança entre familiares e entre amigos.
Não surpreende que os sessenta milhões de latinos que vivem nos EUA, que tão gostosamente mostram a sua diferença em relação à população branca ao abraçar-se profusamente entre si, tenham sofrido tanta privação psicológica durante a pandemia.
Segundo alguns relatos, a
- propagação da infecção entre latinos esteve relacionada, entre muitos outros fatores, com os abraços e a proximidade corporal,
- de tal modo entranhados na cultura, que não puderam ser dispensados, apesar dos riscos.
O abraço e a saúde
São hoje conhecidos os benefícios do abraço para a saúde.
Já referi atrás que Kevin Zaborney propôs o dia nacional do abraço para melhorar a comunicação humana e diminuir os níveis de stress e de hostilidade.
Curiosamente, o Brasil também celebra o dia anual do abraço, mas a 22 de maio,
- e não é porque faltem abraços nas relações entre os brasileiros e as brasileiras.
- É apenas para celebrar a magia do contato corporal da amizade e da afetividade e do apoio mútuo,
- tão necessária nos momentos que correm.
Os mais conhecidos efeitos físicos do abraço
- são a produção da ocitocina, considerada o hormônio do amor pelo seu papel na diminuição da ansiedade, na melhoria do humor e no aumento da afetividade.
- Também diminui a agressividade do humano masculino, tornando-o mais amável, generoso e social.
O abraço baixa a tensão arterial e, segundo alguns especialistas, aumenta a imunidade do corpo, o que não deixa de ser irônico e mesmo cruel em tempos de pandemia: quanto mais necessidade teríamos de nos abraçar, mais perigoso isso se torna em razão da possibilidade de contágio.
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O abraço baixa a tensão arterial e, segundo alguns especialistas, aumenta a imunidade do corpo, o que não deixa de ser irônico e mesmo cruel em tempos de pandemia – Boaventura de Sousa Santos – Tweet
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O ser humano em pleno labirinto da sua potência e limitação. A inconformidade prometeica com tal contradição levou à engenharia do abraço a nós próprios como se fôssemos outrem.
- Refiro-me à invenção do Sense Roid,
- o manequim coberto de sensores tácteis, vestuário táctil com motores de vibração e músculos artificiais que recriam a sensação do abraço.
- O Sense-Roid foi criado pela Universidade de Electrocomunicações do Japão e pode ser comprado na Amazon.
À primeira vista, parece estarmos na fronteira da distopia pós-humana. Mas, afinal, a estranheza que nos causa será diferente da que causaram no início da sua comercialização os vibradores sexuais, considerados hoje um acessório comum?
- Contra este fix tecnológico, que torna o solitário em espelho perverso do solidário,
- parece crescer entre os jovens o hábito de se abraçarem para se sentirem mais apoiados, mais íntimos e mais afetuosos.
Em tempos de pandemia, talvez corram riscos, mas o risco maior não será viver como se morre? Só.

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Boaventura de Sousa Santos
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/613070-a-urgencia-e-a-poetica-do-abraco
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