
O Google faz homenagem ao 100.º aniversário de Paulo Freire. (Crédito: Reprodução)
Para especialistas, é da natureza da pedagogia freireana incomodar, justamente porque ela propõe ensino libertador e baseado na formação crítica do aluno. Celebrado no mundo, pedagogo é muito criticado só no Brasil. A reportagem é de Edison Veiga, 17-09-2021.
Em dezembro de 2003, o então ministro da Educação Cristovam Buarque inaugurou, na frente da sede do ministério, em Brasília, um monumento em homenagem ao educador Paulo Freire(1921-1997).
O pedagogo era então aclamado como uma personalidade importante da história intelectual do país — nove anos mais tarde, uma lei federal o reconheceria como patrono da educação brasileira.
Em 2019, Abraham Weintraub comandava o mesmo ministério no primeiro ano da gestão do presidente Jair Bolsonaro.
- Diante dos maus resultados obtidos pelo país no ranking Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos),
- ele chamou o monumento a Freire de “lápide da educação” e afirmou que o pedagogo “representa esse fracasso total e absoluto”.
O próprio Bolsonaro já criticou Paulo Freire, e em mais de uma oportunidade. Numa das ocasiões, referiu-se a ele como “energúmeno”.
É um discurso recorrente:
- nos últimos anos, a extrema direita brasileira tem usado Paulo Freire, cujo centenário de nascimento é celebrado neste 19 de setembro,
- como bode expiatório para a baixa qualidade do sistema educacional brasileiro.
De acordo com especialistas ouvidos pela DW Brasil, o que incomoda reacionários e também alguns conservadores é o fato de a pedagogia freireana ser essencialmente política.
“A essência da obra de Freire é totalmente política, no sentido nobre do termo, não no sentido da política partidária”, diz o sociólogo Abdeljalil Akkari, da Universidade de Genebra, na Suíça.
“Por isso em todas as regiões do mundo, sua obra é lembrada como algo muito interessante para refletir sobre o futuro da educação contemporânea.”
“O objetivo da pedagogia freireana
- é fazer com que cada uma e cada um aprendam a dizer a própria palavra,
- ou seja, tenham a capacidade de ler o mundo e se expressar diante do mundo.
É a pedagogia da autonomia, da esperança: libertadora no sentido de as pessoas terem as capacidades de se libertarem das opressões que buscam calá-las”,
diz o educador Daniel Cara, professor da Universidade de São Paulo e dirigente da Campanha Nacional pelo Direito à Educação.
Professor do curso de pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Ítalo Francisco Curcio acredita que parte dessa controvérsia seja por desconhecimento do que é, enfim, o método Paulo Freire.
“A maior parte dos que dizem rejeitá-lo nem é especialista em educação, acaba repetindo frases apregoadas por líderes com os quais se identifica”, comenta.
“Isso é muito ruim. Quem padece é a própria população, desde a criança até o adulto.”
Diálogo em vez de lógica bancária
Paulo Freire desenvolveu sua pedagogia no início dos anos 1960. Em 1963 ele trabalhou na alfabetização de adultos no Rio Grande do Norte — e conseguiu resultados muito eficientes com sua abordagem.
Em linhas gerais, ele defendia que
- a educação não poderia obedecer a uma “lógica bancária”,
- em que o conhecimento era simplesmente depositado na cabeça dos alunos.
Clamava por um ensino baseado no diálogo, em que professor e estudante constroem o conhecimento em conjunto.
Por princípio, é uma pedagogia inclusiva. E saberes específicos, de acordo com contextos particulares, são valorizados.
“Ele ressaltou no meio educacional, especialmente na formação de professores e gestores escolares, que é imprescindível considerar os conhecimentos e saberes que o educando já possui, ao ser recebido como aluno. É célebre sua frase:
‘Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo'”,
diz Curcio.
- “Seu método não fala em ideologias, mas em formas de ensinar e aprender.
- Não é um instrumento proselitista”, acrescenta.
- “Quem faz proselitismo é a pessoa, por meio de seus atos e discursos, e não o método.
- Eu posso utilizar uma faca tanto para cortar o pão ou a carne e me alimentar, quanto para matar alguém.”
O educador Cara argumenta que Freire não é bem aceito pela extrema direita justamente porque sua filosofia não admite a doutrinação.
“O sectarismo do autoritarismo impede o reconhecimento de uma pedagogia verdadeiramente libertadora”, afirma. “Então, Freire se tornou inimigo dos ideólogos de direita porque busca uma pedagogia libertadora, enquanto o modelo tradicional é uma pedagogia opressora.”
“Quando a extrema direita chegou ao poder no Brasil, precisava agir no campo da educação. E a figura de Freire se mostrou fácil de ser atacada, porque era algo comum nas comunidades educacionais do Brasil”, diz Akkari.
Para o professor,
- conservadores tendem a acreditar que os problemas educacionais podem ser corrigidos com base em aspectos instrumentais,
- ou seja, mais tecnologia, equipamentos e carga horária,
- e não com uma mudança de abordagem.
Além disso, existe um tabu sobre politização e formação crítica — ele lembra o movimento Escola Sem Partido, criado nos anos 2000 e que ganhou notoriedade no país após 2015.
Paulo Freire é o oposto de tudo isso: sua obra é baseada na formação crítica do aluno.
“Ele é o pedagogo da politização da educação”, define Akkari.
Mazelas do ensino
Outro mito que os especialistas combatem
- é o de atribuir à Paulo Freire a culpa pelos problemas educacionais brasileiros. O principal argumento contrário, ressaltam eles, é que
- a pedagogia dele nunca foi implementada de modo amplo e irrestrito no Brasil.
E há ainda o aspecto oposto: o método freireano é muito disseminado em países que costumam se destacar em avaliações educacionais, como a Finlândia.
“Não faz o menor sentido culpar o Paulo Freire pelas mazelas educacionais brasileiras.
Ele não é responsável
- pelo subfinanciamento da educação,
- pelos péssimos salários dos professores,
- pelo fato de que o Brasil só passou a colocar a educação como questão nacional a partir dos anos 1930.
E, na prática, mesmo em governos alinhados à esquerda não se fez uma pedagogia freireana no país”, diz Cara.
“Até porque é uma pedagogia que demanda investimentos sólidos em formação e um replanejamento de todo o sistema de ensino.”
Akkari observa que essa negação de Paulo Freire por um viés ideológico só ocorre no Brasil.
“Se você observar o resto do mundo, a obra dele é consensual”, diz.
Isso fica claro no amplo reconhecimento que Paulo Freire recebeu.
- Em vida, foi homenageado por pelo menos 35 universidades de todo o mundo
- — entre as quais as de Massachusetts e a de Illinois, nos Estados Unidos; a de Genebra, na Suíça; a de Estocolmo, na Suécia; a de Bolonha, na Itália; e a de Lisboa, em Portugal.
O brasileiro também foi reverenciado pela Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura, com o Prêmio Educação para a Paz, em 1986.
“Particularmente, entendo que,
- por ele ter se tornado uma celebridade internacional,
- identificado historicamente com uma educação socializante,
- acaba incomodando algumas pessoas que vêm em sua obra alguma possibilidade de doutrinação”, avalia Curcio.
“E isso faz com que pessoas que desconhecem o método acabam por dispensar-lhe a mesma conotação.”
Curcio ressalva que Paulo Freire
- não é criticado pela direita,
- “mas por certas pessoas de direita”.
Denominando a si mesmo conservador e mencionando que tem muitos amigos educadores também conservadores, ele afirma que,
- mesmo que haja críticas ao método Paulo Freire,
- é dispensado “o mais profundo respeito pelo trabalho dele”,
- que continua sendo estudado.
“É apenas uma questão de identificação. Não de rejeição ou abominação”, diz.
.
Edison Veiga
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