
IHU – 04-09- 2021 – Foto: DAQUI
Sem organização, os mais pobres e desamparados deste país são facilmente derrotados, basta ver os eventos mais recentes, desencadeados a partir do golpe de 2016.
É uma sucessão de derrotas, que deve ser explicada pela politização dos setores da direita, não pode ser compreendida sem referência também à desmobilização popular promovida pelo lulismo“.
“Aqui tudo parece
Que era ainda construção
E já é ruína
Tudo é menino, menina
No olho da rua
O asfalto, a ponte, o viaduto
Ganindo prá lua
Nada continua
E o cano da pistola
Que as crianças mordem
Reflete todas as cores
Da paisagem da cidade
Que é muito mais bonita
E muito mais intensa
Do que no cartão postal
Alguma coisa
Está fora da ordem…“
(Caetano Veloso, “Fora da Ordem“, 1991)
Jair Bolsonaro escolheu o 07 de setembro de 2021, para dar seu ultimato às instituições democráticas.
Na verdade, as ameaças ao longo de seu mandato foram várias, o que também deixa todos céticos sobre ser realmente um ultimato.
- No entanto, com os avanços do judiciário e do legislativo em investigações variadas sobre a participação da família Bolsonaro em esquemas de corrupção e a má gestão da pandemia no país, Bolsonaro declarou:
- “Tenho três alternativas: estar preso, ser morto ou a vitória”.
Segundo constata uma recente pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma base de apoio fundamental para as teses radicais do presidente são os Policiais Militares, como reporta o Estado de São Paulo:
“o apoio aumentou 29% e crescimento foi maior entre oficiais do que entre praças […]
‘Não estamos falando de manifestações cívicas, mas da defesa da prisão de ministros do Supremo, do fechamento do Congresso e de outras pautas ilegais’,
disse ao Estadão o sociólogo e diretor-presidente do Fórum, Renato Sérgio de Lima”.
Um PM de São Paulo, ex-comandante do Rota, publicou um vídeo na semana passada convocando seus colegas para se somar às manifestações de apoio a Bolsonaro, e contra o STF e o Congresso.
No vídeo, Ricardo de Mello Araújo, afirmou:
“nós temos que dia 7 de setembro ajudar o nosso presidente Bolsonaro. A PM de SP participou dos principais movimentos do nosso país (…). Não podemos nesse momento em que o país passa por essa crise, com o comunismo querendo entrar (…). (…) Eu vejo que nós da PM de SP, a força pública, nós devemos nos unir. E no dia sete de setembro, todos os veteranos de SP, devemos estar presente na Avenida Paulista”.
Em editorial, o Estadão relatou o clima da apreensão que Bolsonaro está criando em torno da data:
“Não é bom o clima que vai se formando em torno do Sete de Setembro. Autoridades de São Paulo e de Brasília estão preocupadas com a tensão crescente nas redes sociais entre apoiadores do presidente e grupos contrários a ele”.
Por outro lado, como fazem desde 1995 no dia 07 de setembro, os movimentos sociais, pastorais e movimentos progressistas das Igreja cristãs no Brasil seguem convocando para um “Grito dos Excluídos“.
Para bispos e bispas da Igreja Anglicana no Brasil, a solução das crises que o país vive passa essencialmente pelo
“processo democrático, em especial se pensarmos no respeito às garantias de vida e na dignidade humana e ambiental”,
como relata o jornalista Edelberto Behs, em reportagem para o IHU.
Em Manaus, o arcebispo Leonardo Steiner, na convocatória para o 27º Grito dos Excluídos e das Excluídas, também expressou a necessidae de mobilização contra as ameaças do presidente:
“’É muito importante nos movimentarmos em busca de um Brasil melhor, em busca de um Brasil justo, em busca de um Brasil onde todos e todas possam se sentir à vontade’.
O arcebispo insistiu em
‘termos uma sociedade mais equânime, mais equilibrada, mais fraterna, mais justa‘, denunciando a difícil situação que vive o país em relação ao emprego, aos povos indígenas, ao meio ambiente. O objetivo é ajudar a sociedade a perceber que ‘nós, todos juntos, podemos oferecer uma outra situação ao Brasil’,
enfatizando que ‘sem a participação da sociedade, as coisas não mudam’.
O arcebispo destacou a necessidade de ‘buscar um outro modo da política’, diante das manifestações do presidente Bolsonaro, que ‘tem incomodado a muitas pessoas’”, reportou ao IHU, o jornalista Luis Miguel Modino.


Cartaz do 27º Grito dos Excluídos. Reprodução: CNBB
O que se prenuncia é um 07 de setembro de intensa mobilização.
- Não serão apenas desfiles pátrios, com estética militarizada e nacionalista.
- Serão protestos plurais, com “algumas facetas do Brasil”, mas irreconciliáveis, nada miscigenados, tampouco podem ser pacíficos a curto ou médio prazo.

Imagem: Reprodução
Recordar os 60 anos da Campanha da Legalidade
Em meio às ameaças de golpe, mais que uma efeméride, recordar os 60 anos da Campanha da Legalidade é uma urgência para defender o Estado Democrático de Direito, como afirmou o historiador Carlos Guazzelli, em entrevista ao IHU.
Na mesma entrevista, o jornalista Flávio Tavares, que acompanhou o então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, na resistência ao golpe militar, convocou para um nova mobilização popular:
“a mobilização popular em 61 impediu um golpe já concretizado. Isso tem que ser revivido agora, neste momento, em que sofremos pressões, mas o golpe não se concretizou ainda”.
Para Pedro Ruas, jurista e vereador de Porto Alegre pelo PSOL, é necessário uma reflexão conjunta sobre o que seria uma resistência hoje, para se inspirar no movimento liderado por Brizola. Na visão dele:
“entendo que seria o que propôs Brizola, ou seja, o povo se organizar e ir para as ruas exigir, sim, o cumprimento da Constituição Federal na sua íntegra.
Não aceitar passivamente as barbaridades que têm ocorrido, como o próprio genocídio do nosso povo pela falta de vacinas, pela falta de cuidados.
Combater os desmandos e as ofensas às instituições democráticas promovidas pelo presidente da República. Então o povo resistir, organizadamente. Isso nos ensinou Brizola“.
Um fator importante da resistência de 1961 se deu pela formação do Grupo dos Onze, como destaca o historiador Diego Martins, em entrevista ao IHU:
“em termos de legados, acho que o projeto dos Grupos de Onze deixa um ensinamento: é preciso se organizar.
Sem organização, os mais pobres e desamparados deste país são facilmente derrotados, basta ver os eventos mais recentes, desencadeados a partir do golpe de 2016.
É uma sucessão de derrotas, que deve ser explicada pela politização dos setores da direita, não pode ser compreendida sem referência também à desmobilização popular promovida pelo lulismo“.
Em palestra proferida no IHU Ideias da quinta-feira, 02 de setembro, o historiador Jorge Ferreira, professor da UFF, também destacou a importância da articulação entre governo do estado do Rio Grande do Sul, população, brigada e militares.
“A população de Porto Alegre estava completamente mobilizada pela Legalidade. Eram 100 mil pessoas nas ruas. Brizola recolheu armas e distribuiu a quem quisesse, a Brigada também fez, fuzil, revólver, metralhadora. Todos devolveram as armas depois. Havia pessoas mobilizadas no interior do RS, regimentos militares apoiando a Legalidade.
O comandante José Machado Lopes conversou com Brizola, assume o comando da Base Militar, e o 3º Exército se soma à Legalidade.
Os sargentos também tiveram papel primordial, eles desarmaram os aviões na Base Aérea de Canoas para evitar bombardeio ao Palácio Piratini.
Ou seja, não existe uma vinculação direta entre militares e golpes. Mas há uma esquerda militar que foi expurgada do exército pela ditadura militar”,
explica Jorge Ferreira.
IHU
Fonte: V Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/612639-199-anos-07-de-setembro-e-um-brasil-entregue-a-quem
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