
Departamento de Defesa do Talibã – by Lt. j. g. Joe Painter-RELEASED-(CC BY 2.0) / Foto: DAQUI
María Angeles Corpas – Reportagem local – publicado em 17/08/21
O grupo extremista retomou o poder no Afeganistão. Saiba o que ele defende e como age
O Talibã retomou o poder no Afeganistão e deixou o país mergulhado em um caos. Mas, afinal, o que é o Talibã?
- Na tradição sunita, os “talibãs” são reconhecidos como aqueles que aderem escrupulosamente aos padrões legais, morais e rituais do dogma islâmico.
- Na tradição xiita, o “talib” é frequentemente identificado como o grau mais baixo na hierarquia clerical.
Embora o Talibã esteja presente em diferentes momentos da história islâmica, o grupo teve seu apogeu no século XX.
Da Indonésia ao Marrocos e do Afeganistão ao Senegal,
- aparecem ligados a correntes de reação contra o colonialismo,
- que procuram purificar os usos e costumes do espaço público das influências ocidentais.
Nesse contexto de “despertar” o mundo árabe, que busca devolver o Islã aos seus princípios originais, o Talibã encontrou uma fonte de inspiração e uma forma de agir muito específica.
- Embora seus membros fossem partidários da incorporação dos avanços técnico-científicos,
- eles opuseram-se a uma ocidentalização que liquidasse as peculiaridades inerentes à civilização islâmica.
Essas abordagens foram utilizadas com sucesso pelos movimentos nacionalistas, que assumiriam a partir de 1945 a evolução política do mundo árabe.
O Talibã e o fim da Guerra Fria
Mas foi no fim do século XX que o Talibã reaparecereu como um movimento político em ascensão motivado por duas questões:
- o fracasso dos modelos que emergiram do nacionalismo árabe
- e as consequências que teria o fim da Guerra Fria.
É neste contexto de divisão interna e luta pelo controle geopolítico da área que o movimento estudantil Talibã/ Afegão germinou.
Nesse contexto de confronto entre as duas superpotências (Estados Unidos e União Soviética), a maioria desses estudantes
- foram refugiados da guerra do Afeganistão contra os soviéticos (1979-89),
- criados em “madrassas”(escolas) financiadas pela Arábia Saudita e assessoradas pelo Paquistão e com o apoio da CIA,
- em um panorama político de luta contra o Irã xiita de Khomeini.
Esta geração, desenraizada de seu ambiente, encontrou o Islã transmitido no exílio como o único ponto de referência vital.
Ou seja,
- tingido com um forte senso de hierarquia e comunidade,
- obediência cega ao líder,
- aplicação da lei islâmica e defesa do caráter islâmico do Afeganistão.
Um programa com fortes elementos islâmicos-nacionalistas, que excluiria qualquer um que não o compartilhasse.
Como o Talibã chegou ao poder
Sua chegada ao poder está intimamente relacionada à desintegração do poder soviético na Ásia Central.
- No Afeganistão, os Mujahidin (militantes islâmicos) não conseguiram se estabelecer como alternativa ao governo.
- No Paquistão, sucessivos governos viram a instabilidade na área ameaçada e com ela um sério perigo para seus interesses políticos e econômicos.
- Interesses que coincidiram com os das grandes empresas de energia dos Estados Unidos.
Portanto, a ascensão do Talibã foi vista como uma garantia de alguma estabilidade.
Entre 1994-96, estruturas organizacionais afegãs auxiliaram o avanço do Talibã.
Em abril de 1996, Mulá Omar, o mais alto representante do movimento, foi proclamado a mais alta autoridade de todos os muçulmanos.
Em setembro daquele ano, o Talibã conquistou Cabul. Um fato que confirmaria sua grande capacidade de preencher o vácuo de poder gerado pela desintegração de um fraco estado dependente de potências externas.
Dessa forma, para muitos, eles se tornaram a grande esperança islâmica.
Diante da pressão ocidental, o Talibã exerceu o poder de maneira intransigente e extremista.
- Mais do que razões culturais ou religiosas,
- foram as razões políticas que levaram o grupo a praticar a intolerância total com a diversidade étnica, social, política e cultural que caracterizava a sociedade afegã.
- E esta também foi a razão do seu progressivo enfraquecimento no país: a perda de apoios internos.
Osama Bin Laden
Essa fisionomia do poder encontrou, a médio prazo, pontes de comunicação com o modelo proposto por Osama Bin Laden: a preparação ideológica para a jihad, visando a libertação de territórios e a partir dos quais empreender e propagar o combate islâmico.
Essa aliança foi a que determinou o fim do regime do Talibã após os ataques terroristas às torres gêmeas de 11 de setembro.
Por outro lado,
- a proximidade com Bin Laden rompeu definitivamente suas relações geoestratégicas com os Estados Unidos.
- Para o Paquistão, o governo do Talibã havia feito mais mal do que bem.
- Por isso, a intervenção militar internacional não encontrou oposição para acabar com o regime.
Atualmente, o Talibã continua controlando grandes áreas da região pashtun do Afeganistão e do Paquistão.
São bases a partir das quais implantam táticas de guerrilha contra a aliança militar internacional.
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é Doutora em Historia Contemporânea e especialista em Islam, tema sobre o qual vem trabalhando á decadas, já que fez sua tese doutoral sobre este assunto e sobre o diálogo interreligioso.
Fonte: https://pt.aleteia.org/2021/08/17/o-que-e-o-taliba/
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