
Por Raimundo Borges, Diretor de Redação – 19/08/2021 – Foto: DAQUI
O Imparcial – Em entrevista exclusiva a O Imparcial, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que hoje está em São Luís, disse que agora não é o momento de tomar a decisão de ser candidato a presidente da República.
“Se ano que vem meu partido e setores da sociedade acharem que eu sou o melhor nome para enfrentar Bolsonaro; se eu ajudar como candidato a derrotá-lo, eu não negaria a me candidatar de novo mandato”.
Para Lula, a esquerda já provou que sabe governar o Brasil.
“Vejam o trabalho excelente que o governador Flávio Dino está fazendo no Maranhão. Os anos do PT na Presidência foram de avanços sociais, crescimento econômico e distribuição de riquezas”
Lula disse que o que está em jogo no Brasil hoje “é uma disputa entre quem defende a democracia e quem defende o autoritarismo e o fascismo”.
Afirmou também que sua andança pelo Nordeste esta semana, não é preparação de campanha eleitoral, porque não decidiu se será candidato.
“Eu estou chegando ao Maranhão para fazer o que eu sempre fiz na vida, antes, durante e depois da Presidência: viajar o país, conversar com as pessoas, dialogar sobre os problemas do povo e as soluções para eles. Eu só não fiz isso nos últimos anos porque fui preso e depois teve a pandemia”, destacou.

A ENTREVISTA:
O IMPARCIAL – Diante de cenários em dias cada vez mais tumultuados no Brasil, existiria algum motivo pelo qual o senhor não seria candidato à eleição presidencial de 2022? E mais: De 2002, quando o senhor venceu a primeira eleição presidencial até hoje, esse tempo faz o senhor mudar seus planos para 2022, inclusive a postura ideológica? Será mais à esquerda ou centro?
Luiz Inácio Lula da Silva – A decisão de ser candidato a presidente não é uma decisão pessoal. Eu já fui presidente duas vezes, candidato cinco. Uma candidatura tem que representar partidos, setores da sociedade.
- Em um momento triste como esse que vive o Brasil, com um presidente sem nenhum apreço pela democracia ou pela verdade,
- a obrigação é recuperar a democracia, o diálogo
- e barrar esse projeto de destruição do país, de desmonte do estado, de volta da fome liderado por Bolsonaro.
Agora não é o momento de tomar essa decisão de ser candidato a presidente da República. Se ano que vem meu partido e setores da sociedade acharem que eu sou o melhor nome para enfrentar Bolsonaro, se eu ajudar como candidato a derrotá-lo, eu não negaria a me candidatar de novo.
É claro que, tendo sido presidente duas vezes, e depois de ter tido mais de dez anos para pensar sobre essa experiência, eu sei ainda mais o que deve ser feito, e como se deve governar para melhorar a vida do povo brasileiro. Eu teria esse desafio a mais, e sou movido a desafios: se eu voltar é pra governar melhor do que nos meus dois primeiros mandatos.
O presidente Jair Bolsonaro, com o governo militarizado como nunca se viu depois da ditadura, o senhor teme que ele possa partir para uma aventura golpista, caso perca a próxima eleição?
Não temo.
O Bolsonaro sempre declarou não ter apreço pela democracia. Seria um desastre completo para a sociedade brasileira, em tudo, na política e na economia, e provavelmente para o próprio Bolsonaro, se ele tentasse algo assim.
O que está em jogo no Brasil hoje
- é uma disputa entre quem defende a democracia e quem defende o autoritarismo e o fascismo;
- quem defende direitos e oportunidades para o povo e quem quer dar, a preço de banana, nosso patrimônio nacional e nossos empregos para os países mais ricos;
- quem defende a vida e a saúde do povo brasileiro e quem deixa seu próprio povo morrer sem atendimento, sem vacina.
Até o próximo ano, quando se imagina que a pandemia do coronavírus esteja minimizada e o Brasil voltando à normalidade, como o senhor está preparando a campanha eleitoral? Qual seria a maior diferença em relação às outras que o senhor já realizou.
Eu ainda não estou preparando campanha eleitoral, porque não decidi se serei candidato.
Eu estou chegando ao Maranhão para fazer o que eu sempre fiz na vida, antes, durante e depois da presidência:
- viajar o país, conversar com as pessoas, dialogar sobre os problemas do povo e as soluções para eles.
- Eu só não fiz isso nos últimos anos porque fui preso e depois teve a pandemia.
Agora, com as medidas de cautela e uma parte das pessoas vacinada, é possível viajar para conversas e encontros com lideranças, com cuidado e distanciamento social. Mas ainda é necessário fazer as coisas com cuidado e não é possível fazer encontros com muita gente.
A gente ainda está em uma fase de enfrentamento com o vírus, de pesquisa e avanços da ciência no seu embate. A vacina tem reduzido as mortes e internações, mas temos que ter paciência, tem as variantes e não se sabe bem ainda quanto tempo dura o efeito da dose da vacina, alguns países já estão aplicando doses de reforço.
Então, não sabemos quando voltaremos à normalidade mesmo. As pessoas tem que continuar tendo os cuidados necessários, porque é uma doença muito perigosa e desconhecida.
Nas suas duas campanhas vitoriosas de 2002 e 2006, o senhor foi eleito com o empresário José Alencar na vice. Na próxima disputa presidencial, Lula pretende chamar um empresário para compor a chapa, ou seria melhor o vice de esquerda?
Eu escolhi o José Alencar em 2002 vendo uma palestra dele sobre sua história de vida e acho que ninguém nunca terá um vice tão bom quanto ele.
- Ele era um grande empresário que, como eu, não teve a oportunidade de fazer uma faculdade,
- mas vamos entrar nós dois como o presidente e o vice que mais fizeram universidades no Brasil.
- Foi de uma lealdade e de um companheirismo incrível, um ser humano maravilhoso.
Se eu for candidato, o vice irá surgir, será uma pessoa de carne osso, que seja um parceiro de confiança, para somar pelo país, não existe um vice de laboratório. A imprensa já inventou 15 vices para mim. Acho engraçado porque se tem alguém que não discutiu isso sou eu.
Caso seja eleito para o 3ª mandato, quais mudanças significativas o senhor pretende atualizar e inovar em relação ao passado.
Quando eu assumi em 2003, o Brasil vivia um momento difícil. Desemprego em alta, muita gente passando fome, racionamento de energia, o Brasil não tinha reservas internacionais para pagar as importações.
- O compromisso que eu assumi foi combater a fome, e combatemos.
- Conseguimos reduzir o desemprego, ampliar o acesso ao ensino superior, desenvolver o país.
- Mudamos o Nordeste completamente, com cisternas, o Bolsa Família, apoio à agricultura, obras de infraestrutura.
Infelizmente, muito desse legado positivo tem sido destruído por Bolsonaro.
- Então, o momento é de novo muito difícil, até pior porque o legado de ódio e mentira que o Bolsonaro plantou na sociedade é muito ruim para o país.
- Vamos precisar reconstruir o Brasil de novo, com muito trabalho, com muito diálogo, claro, mas com a experiência maior que temos, e com um novo momento do Brasil e do mundo.
Eu acho muito importante
- a gente recuperar a imagem do Brasil no exterior, porque Bolsonaro nos transformou em um pária.
- E voltar a governar incluindo os mais pobres.
- Porque quando os mais pobres melhoram de vida, o comércio melhora, a indústria vende mais, toda a sociedade avança junto.
O Brasil não pode ser um país para poucos que abandona a maior parte da sua população.
A esquerda já provou que sabe governar o Brasil. Vejam o trabalho excelente que o governador Flávio Dino está fazendo no Maranhão. Os anos do PT na Presidência foram de avanços sociais, crescimento econômico e distribuição de riquezas.
No Maranhão, todas essas ações são muito visíveis.
- Em 2016, eram 971,3 mil famílias atendidas pelo Bolsa Família, eram quase 3 milhões de pessoas.
- Mais R$ 8,6 bilhões foram investidos no Minha Casa Minha Vida,
- num total de quase 90 mil moradias entregues.
Fizemos muitas obras para o desenvolvimento do estado. Ampliamos o Porto de Itaqui, reformamos e ampliamos o terminal de passageiros do Aeroporto de São Luiz, construímos 11 aeroportos regionais, duplicamos trechos da BR-135, construímos usinas hidrelétricas e termelétricas e linhas e transmissão, destinamos quase R$ 3 bilhões para obras de infraestrutura urbana, como pavimentação, saneamento e prevenção de áreas de risco.
Já o governo Bolsonaro, faz o que?
- Vive de fake news, inventa mais de quatro mentiras por dia
- e esquece que o Brasil precisa de desenvolvimento, de emprego, de crédito, de educação.
- Ele está desmontando tudo o que a que a gente construiu ao longo de 13 anos.
Mas eu tenho fé que esse acidente chamado Bolsonaro logo irá passar e o Brasil irá retomar o rumo do desenvolvimento e de uma sociedade mais solidária e próspera.
Raimundo Borges
