Karl Rahner, talvez o maior teólogo católico do século XX, deixou escapar um dia, numa aula, uma daquelas observações que nunca mais se esquecem:
- na Igreja católica, é obrigatório confessar os pecados graves e mortais, mas ele não estava a ver que algum bispo ou padre ou superior religioso, ministro ou professor católico
- se tenha alguma vez confessado do pecado grave e, frequentemente, mortal, da ignorância culpada, da incompetência fatal, da inteligência irresponsavelmente menorizada.
Em geral, nas igrejas, faz-se pouco apelo à razão, à reflexão crítica, à pergunta. Como se a fé não tivesse de conviver com a inteligência, com a dúvida e com a pergunta. Os cristãos – mas isso acontece em todas as religiões – parece que ficam tolhidos na sua capacidade de perguntar.
No entanto, Jesus morreu a rezar esta pergunta infinita que atravessa os séculos:
“Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”,
e o filósofo Martin Heidegger, um dos maiores do século XX, escreveu que “a pergunta é a piedade do pensamento”.

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Na catequese e nas pregações da Igreja,
- parte-se, desgraçadamente, de um Cristo definido dogmaticamente e concebido à maneira de um robô,
- que chegou a este mundo já pré-programado e que não fez senão cumprir esse programa.
Por isso,
- não precisou de pensar,
- não teve hesitações,
- não passou por tentações,
- não teve de decidir ele mesmo o que devia fazer para realizar a vontade de Deus,
- a quem chamava com ternura Abbá, querido Papá.
Na Igreja, valoriza-se a obediência, referindo constantemente aquele passo de São Paulo:
“Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz.”
Mas quase nunca se explica o que é a obediência de Cristo, ocultando que,
- para obedecer a Deus e ao que Deus quer – dignidade, futuro, fraternidade, liberdade para todos -,
- teve de desobedecer aos opressores, nomeadamente a uma religião que, em vez de libertar, oprimia.
Tanto entre os crentes como entre os ateus e os sem religião, não faltam os que julgam saber, com saber certo, sem qualquer dúvida nem hesitação,
- o que Deus é,
- em que consiste a vontade divina para cada pessoa,
- qual é o sentido da História e do mundo.
Entronizados no poder, definem dogmas, estabelecem normas e mandam com soberania inquestionável.
Os seres humanos são, por natureza, frágeis, carentes e, por isso, é quase inevitável que, entre a liberdade e a segurança, a maioria não hesite em escolher a segurança, como já aqui expliquei, referindo o diálogo entre o Grande Inquisidor e Cristo em Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski.
O Grande Inquisidor disse a Cristo num calabouço do Santo Ofício, onde O tinha mandado prender:
- que O queima na fogueira como o pior dos hereges,
- e a razão é que a liberdade de fé tinha sido para Ele a coisa mais preciosa.
Não foi Ele que disse tantas vezes: “Quero tornar-vos livres?”
Cristo não percebeu que
“o Homem não tem preocupação mais torturante do que encontrar alguém em quem possa delegar o mais depressa possível a dádiva da sua liberdade.”
“Em vez de Te apoderares da liberdade das pessoas, acrescentaste ainda mais à sua liberdade!”,
diz-lhe o Inquisidor.
- Por isso, os hierarcas eclesiásticos corrigiram a façanha de Cristo, baseando-a em milagre e autoridade.
- Agora, todos sabem em que hão-de acreditar e o que devem fazer, sem terem de perguntar porquê nem de escolher.
“E as pessoas ficaram contentes por serem de novo guiadas como um rebanho e por ter sido tirada dos seus corações a dádiva terrível que tanto sofrimento lhes causava.”
Daí, a ordem do velho cardeal inquisidor:
“Cristo, vai-te embora e não voltes mais… não voltes… nunca, nunca!”
Perguntar vem do latim percontari, que, por sua vez, terá na sua base contus, vara comprida. Então, perguntar, etimologicamente, quer dizer
- examinar o fundo de um rio ou de um tanque com um bastão
- e, portanto, sondar o interior da pessoa e da realidade.

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Só o Homem pensa e pergunta. Lá está O Pensador, de Rodin.
- Um animal com a mão encostada à face ou a face entre as mãos, a cabeça inclinada e absorto, é um homem que pensa: tenta ver o seu interior e o mais fundo de tudo.
- Nenhum outro animal pensa nem se examina nem examina as consequências dos seus actos nem pergunta.
- O Homem pergunta, e a sua pergunta não tem limites.
E é assim que, nesse seu perguntar, pode surgir a questão da transcendência e de Deus.
Como escreveu Theodor Adorno, da Escola Crítica de Frankfurt,
“o pensamento que se não decapita desemboca na transcendência”.
Por tudo isto,
- é uma surpresa boa encontrar em Vilnius algo típico da Lituânia, talvez porque é um povo que sofreu demasiado:
- umas pequenas estátuas de Cristo a pensar – o Cristo pensador.
Estive uma vez em Vilnius e a recordação que trouxe e que se encontra presente na minha mesinha de cabeceira é uma dessas pequenas estátuas.
- Pensar vem do latim pensare, com o significado de ponderar, examinar, pesar argumentos e razões.
- Pensar pode ter também o significado de aplicar o curativo, os remédios necessários.
- E é assim que, em português, pesar também quer dizer solidariedade com a tristeza de alguém que sofre.
Neste contexto, quero prevenir que me parece que se pensa pouco, mas que, se todos os dias se dedicasse um pouco mais de tempo a pensar, muitos desastres pessoais e familiares teriam sido evitados.
Também seriam evitados a nível colectivo, se os políticos se dedicassem a pensar verdadeiramente no bem comum e não ficassem confinados no mero pensar astucioso para ganhar eleições.
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia
Fonte: https://www.religiondigital.org/anselmo_borges_17857/
