
Maria Antonietta Calabrò – 26 Julho 2021
Ex-cardeal Becciu vai sentar amanhã no banco dos réus – Foto: Dom Total
A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada por Huffington Post, 23-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.
Vai comparecer ou não? Na manhã de terça-feira, 27 de julho, o cardeal Angelo Becciu vai estar presente perante o Tribunal do Vaticano presidido por Giuseppe Pignatone?
O ex número três da hierarquia vaticana deve ser julgado, juntamente com outros nove réus por diversos crimes, de cumplicidade para peculato, suborno de testemunha, abuso de poder.
O Papa, com uma recente inovação normativa, estabeleceu que
- é direito dos acusados, se representados por seus advogados,
- não comparecer ao tribunal, sem serem declarados inadimplentes.
Becciu
- – que é o primeiro cardeal a ser julgado pelo Tribunal ordinário e sempre protestou sua inocência e declarou que aguardava o julgamento para fazer valer suas razões –
- poderia jogar a cartada de sua clamorosa presença perante os jornalistas credenciados por todos os jornais estrangeiros.
- Mas seu advogado Fábio Viglione, consultado pelo Huffpost, não quis antecipar nada a respeito.
E justamente na véspera do processo, o Vaticano quis renovar seu compromisso com a transparência.
Ao publicar o Balanço 2020 (com um déficit de “apenas” 66,3 milhões, reduzido em relação ao que se esperava há apenas quatro meses) e pela primeira vez também o Balanço do ano da Apsa, que é a administração da Sé Apostólica (que possui bens móveis e imóveis, especialmente em Roma), que se destina a receber os “fundos reservados” da Secretaria de Estado e a gerir o Óbolo de São Pedro.
O processo, no centro do qual está a venda do famoso edifício em Londres, antiga sede da loja de departamentos Harrods, adquiridos pela Secretaria de Estado do Vaticano entre 2014 e 2016,
- será a prova de fogo das reformas econômicas do Vaticano
- e, ao mesmo tempo, da eficácia do sistema judicial que, como no resto do mundo a partir da Itália,
- é considerado um dos fatores fundamentais da transparência financeira.
O caso do Prédio de Londres não é isolado. O Tribunal Federal suíço rejeitou há poucos dias o recurso contra a apreensão de 11 milhões de suas contas apresentado pelo advogado Gabriele Liuzzo, condenado em primeira instância pelo Tribunal do Vaticano por peculato e lavagem de dinheiro às custas do IOR. A procuração para que o advogado Paolo Bernasconi atuasse no processo para o Vaticano foi assinada pessoalmente pelo Papa Francisco.
Enquanto isso, o Tribunal de Apelação do Vaticano confirmou a apreensão de 30 milhões de euros dos três réus condenados pela venda das propriedades do chamado banco do Vaticano: o ex-presidente do IOR Angelo Caloja e os dois advogados Liuzzo pai e filho.
A motivação das condenações em primeiro grau de 252 páginas “por fatos de excepcional gravidade”
- foi ajuizada em 16 de julho e constitui uma reconstrução meticulosa de como os réus se apropriaram de dezenas de milhões de euros
- com a venda de quase todos o patrimônio imobiliário do IOR na Itália a sujeitos que estavam dispostos a pagar em espécie grande parte do preço dos imóveis,
- inclusive milhões de euros (como o edifício no Corso Porta Nuova 3 em Milão para a editora Universo).
Milhões que os três condenados transferiram para as suas contas pessoais e que também utilizaram para comprar do IOR o edifício Ara di Conso, no Aventino de Roma, em claro conflito de interesses, através da blindagem de múltiplas empresas de direito irlandesas e inglesas e das Bahamas.
No processo, surgiu também que,
- para concluir esse “saqueio“ dos bens do banco,
- os três condenados também rejeitaram as ofertas de compra de parte da Apsa (a administração vaticana do patrimônio da Sé Apostólica), então presidida pelo Cardeal Attilio Nicora, e do Instituto milanês do Clero, que evidentemente não pagavam “por fora”,
- completando assim a pilhagem de bens em prejuízo de outros entes vaticanos e eclesiásticos.
Isso foi revelado na ata de 2008 de uma intervenção do ex-secretário de Estado, cardeal Angelo Sodano, no Conselho cardinalício de Fiscalização, publicada na íntegra na motivação da sentença.
Em um caso, a venda organizada por Caloja e Liuzzo pai foi concluída em favor de uma pessoa envolvida no processo italiano de suborno Enimont, violando os critérios de integridade dos compradores estabelecidos para as alienações.
- Um indício, junto com a personalidade proeminente dos condenados no cenário econômico-financeiro italiano,
- de como os atos desse processo vaticano podem ser úteis para reescrever em parte vinte anos de história não só no Vaticano, mas também da Itália.
A sentença, deve-se enfatizar, não assume inteiramente a tese da acusação dos Promotores da Justiça do Vaticano (o Professor Milano e o advogado Diddi):
- em alguns casos a constatação de peculato foi transformada em apropriação indébita,
- mas a substância da investigação foi confirmada,
baseada no enorme trabalho de reconstrução iniciado pelo ex-presidente do IOR von Freyberg (nomeado por Bento XVI) e pela empresa de consultoria Promontory, a partir de 2014.
“Mas se foi possível chegar ao julgamento e às condenações, deve-se à tenacidade do atual diretor-geral do IOR Gianfranco Mammi e ao Papa Francisco”,
afirma o advogado Alessandro Benedetti, representante da parte civil do IOR no processo, juntamente com os advogados Lipari e Mustilli para a Sgir, a sociedade proprietária dos imóveis, controlada pelo IOR.
“O que emergiu – explica Benedetti – é que foram desmontados todos os mecanismos de controle interno e externo de parte da empresa certificadora dos balanços financeiras do banco, onde trabalhava o filho de um dos condenados”.
Os condenados terão de ressarcir, no total, danos econômicos superiores a 18 milhões de euros, também danos morais e de reputação causados ao IOR e à Sgirper por outros 6 milhões de euros.
A carta inédita do ex-Secretário de Estado Sodano sobre o caso do IOR mostra que o ex-presidente do IOR Caloja e os co-réus leigos enganaram os vértices do Vaticano da época.
Talvez o esquema também será apurado no processo que abre na terça-feira para o caso do prédio de Londres envolvendo o que era chamado de “terceiro banco do Vaticano”, ou seja, o fundo reservado da secretaria de estado, que também administrava o Óbolo de São Pedro (as ofertas dos fiéis para o Papa) e que o Papa este ano transferiu para a APSA sob o controle da Secretaria da Economia.
O certo é que agora
- o Vaticano está à caça do dinheiro daqueles que saquearam as suas finanças
- e em 2020 foram apreendidos por autoridades estrangeiras 105 milhões de euros reclamados pelo Vaticano,
- um reconhecimento da solidez das acusações.

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Maria Antonietta Calabrò
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