Um front conservador por trás da “mãozinha” que revelou a nota do Vaticano

Ddl Zan: quali partiti vogliono cambiare la legge contro l'omofobia - la Repubblica

Paolo Rodari e Giovanna Vitale  – 6 Junho 2021

 Há uma passagem, na intervenção do cardeal Parolin, que revela um aspecto inquietante da crise diplomática entre a Santa Sé e a Itália. É quando o secretário de Estado vaticano, reconstruindo a gênese da nota verbal sobre o projeto de lei Zan, afirma claramente que sim, ao aprová-la, “eu achava que poderia haver reações”.

A reportagem é de Paolo Rodari e Giovanna Vitale, publicada em La Repubblica, 25-06-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Porém – eis o ponto-chave –

“se tratava de um documento interno, trocado entre administrações governamentais por via diplomática. Um texto escrito e pensado para comunicar algumas preocupações, certamente não para ser publicado”.

Ou seja, devia permanecer confidencial.

Palavras úteis

  • para dissipar a suspeita de que havia sido a comitiva do papa que quis trazer à tona o desacordo com o Palazzo Chigi para bloquear uma lei pouco agradável.
  • No entanto, destinadas a levantar mais de uma interrogação, sobre a qual ambas as margens do Tibre se atormentam nestas horas:
  • de quem é a “mãozinha” que fez vir à tona um ato coberto pelo segredo, de porte disruptivo
  • ? Alguém quis instrumentalizar a iniciativa vaticana? E por quê?

Não há respostas certas, mas, nos palácios romanos, fontes confiáveis propõem uma trama semelhante a uma história de espionagem.

Ela fala de contínuos contatos

  • entre os ambientes mais conservadores da Cúria – aqueles que pressionavam a Secretaria de Estado para que formalizasse a sua dissidência –
  • e uma parte política específica, que há muito tempo cultiva o mesmo objetivo: enterrar o texto contra a homotransfobia.

Em primeiro lugar, a Liga, que há meses o mantém refém na Comissão de Justiça, graças ao obstrucionismo do presidente salviniano Andrea Ostellari. A outra figura que, pelo que se sussurra, teria favorecido a difusão seria Maria Elisabetta Alberti Casellati.

A presidente do Senado teria contribuído com o vazamento de notícias para que o caso explodisse com o maior barulho possível.

Enquanto isso, no Vaticano, a iniciativa do secretário de Estado faz muitos suspirarem.

“Parolin fala com conhecimento da causa”,

diz um alto prelado, explicando que, nas últimas horas, houve uma consulta entre o cardeal e Francisco. A marcha à ré no Vatican News – sim à defesa dos princípios, mas sem invasões de campo – foi decidida com o aval do papa, que sabia da nota, mesmo que, segundo alguns do outro lado do Tibre, com toda a probabilidade, sem estar a par até o fim.

De fato,

  • com as suas palavras que reconhecem a legitimidade da defesa de Draghi da laicidade do Estado,
  • Parolin esvazia de sentido o instrumento da nota e volta a abraçar o caminho de uma diplomacia feita de relações cultivadas em campo.

Nestas horas, a Secretaria de Estado

  •  está favorecendo o nascimento de uma pequena equipe liderada por Dom Gallagher, secretário para as Relações com os Estados,
  • que esteja pronta para colaborar com a Itália quando um canal para revisar as partes mais críticas do projeto de lei Zan volte a se abrir.

Constitucionalistas de renome, apreciados também na margem italiana, mesmo se distanciando da nota, valorizaram o seu conteúdo.

  • É em virtude dessas contribuições que, nos tempos e nos modos que Draghi quiser,
  • Santa Sé espera poder voltar a colaborar e a trazer para casa objetivos que considera imprescindíveis.

Nesse ínterim, no front parlamentar, a votação do dia 6 de julho para agendar para a semana posterior (dia 13) a discussão geral sobre o projeto de lei na Câmara reacendeu a polêmica. Que agora corre o risco de transformar o Palazzo Madama em um teatro de guerra.

O vice-líder do Partido DemocráticoFranco Mirabelli, desafiou o leghista Ostellari a convocar imediatamente uma mesa para

“debatermos o mérito e ampliar o consenso sobre o projeto de lei Zan sem distorcê-lo”.

Assim, na quarta-feira, dia 30, todos os líderes se reunirão para trabalhar em um acordo.

O renziano Faraone explica:

“É uma tentativa que deve ser feita para encontrar a um acordo. Caso contrário, o risco é de que a lei Zan não passe”.

Na mesma linha, Bernini, da Forza Italia:

“Devem ser feitas modificações, acima de tudo sobre a liberdade de expressão que deve ser especificada. Se Letta continuar dizendo que o texto não será tocado, ele nos leva a votar contra”.

Com boas chances de sucesso.

Mas quando Salvini entra com agressividade –

Deve-se modificar o artigo 1, não queremos que a educação de gênero entre nas escolas, nem podemos tolerar restrições à liberdade de pensamento ou de expressão. Sem diálogo, não haverá o número [de votos]”

– perdem a paciência na sede do Partido Democrático:

“A oferta de diálogo da Liga não é crível. Querem apenas atolar o procedimento, que deve ser aprovado sem modificações”.

Letta é mais explícito:

“Para nós, o projeto de lei Zan contém todas as garantias em seu interior, razão pela qual o melhor é ir ao Parlamento, e cada um dirá a sua palavra. A nossa é aprová-la assim como ela é”.

 

Paolo Rodari e Giovanna Vitale 

Fonte: IHU

 

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