
“A reforma na Igreja foi realizada por homens e mulheres que não tiveram medo de entrar em crise e se deixaram reformar pelo Senhor. É o único caminho, do contrário seremos apenas ‘ideólogos da reforma’ que não colocam a própria carne em jogo.”
Este é um trecho da carta com a qual o Papa rejeitou o pedido do cardeal Reinhard Marx de renunciar à liderança da Diocese de Munique e Frisinga.
Um texto papal repleto de indicações preciosas,
- que vão muito além do caso particular para se concentrar mais uma vez no essencial,
- indicando um olhar e comportamento cristãos diante da realidade.
Esse olhar e essa atitude muitas vezes esquecidos quando – mesmo na comunidade eclesial –
- existe o risco de atribuir valor salvífico
- às estruturas, ao poder da instituição,
- às normas legislativas cada vez mais detalhadas e rigorosas,
- às melhores práticas de negócio,
- às lógicas de representação política transplantada para os caminhos sinodais,
- às estratégias de marketing aplicadas à missão,
- ao narcisismo comunicativo de efeitos especiais.
Afirmar, como faz o Bispo de Roma, que diante do escândalo do abuso
- “não seremos salvos por investigações nem pelo poder das instituições.
- Não seremos salvos pelo prestígio de nossa Igreja, que tende a dissimular seus pecados;
- não seremos salvos pelo poder do dinheiro ou pela opinião da mídia (muitas vezes somos muito dependentes deles)”,
significa mais uma vez indicar o único caminho cristão. Pois, escreveu o Papa a Marx,
“seremos salvos pela porta do Único que pode fazê-lo e confessar a nossa nudez: ‘Pequei’, ‘pecamos’…”.
É no caminho da fraqueza que a Igreja reencontra força, quando não confia em si mesma e não se sente protagonista, mas pede perdão e invoca a salvação do Único que a pode dar.
O que Francisco escreveu na carta ao cardeal de Munique e Frisinga pode parecer para alguém uma “não-resposta”. Porque
- não nos tira da grade,
- não fecha a ferida,
- não nos permite acusar com o dedo levantado os outros que erram.
Em vez disso, pede a cada um de nós que “entre na crise” e confesse
- nossa própria impotência,
- nossa própria fraqueza,
- nossa própria pequenez diante do mal e do pecado,
seja o satânico do abuso de menores ou o de pensar em salvar a Igreja graças a nossas ideias, nossas estratégias, nossas construções humanas.
O Papa emérito Bento XVI, nas notas preparadas tendo em vista a cúpula para a Proteção de Menores em fevereiro de 2019 e publicadas dois meses depois, questionando-se quais seriam as respostas certas para a chaga dos abusos, escreveu:
- “O antídoto para o mal que ameaça a nós e o mundo inteiro, ultimamente só pode consistir no fato de nos abandonarmos «ao amor de Deus».
- Se refletirmos sobre o que fazer, é claro que não precisamos de outra Igreja inventada por nós».
- Hoje, «a Igreja é amplamente vista apenas como uma espécie de aparato político»
- e «a crise causada por muitos casos de abusos por parte de sacerdotes nos leva a considerar a Igreja até mesmo como algo errado que devemos definitivamente tomar em nossas mãos e formatar de uma nova maneira.
- Mas uma Igreja feita por nós não pode representar nenhuma esperança».
Em 2010, em meio à tempestade causada pelo escândalo do abuso na Irlanda, o Papa Ratzinger indicou o caminho penitencial como o único viável, dizendo estar convencido de que o maior ataque à Igreja não veio de inimigos externos, mas de dentro.
Hoje, o seu sucessor Francisco, com uma consonância de olhares e acentos, nos lembra que a reforma, na Ecclesia semper reformanda, não é realizada por estratégias políticas, mas por homens e mulheres que se deixam “reformar pelo Senhor”.
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Andrea Tornielli
Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/tag/editorial.html
