A entrevista é de Francisco Manacorda, publicada por la Repubblica, 05-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Você publicou “Capital e ideologia” em 2019. O que mudou com a pandemia?
A pandemia, para além dos seus terríveis efeitos em todo o mundo, mostrou a fragilidade do nosso modelo econômico e social. Todos compreenderam que
- precisamos de serviços públicos, como os serviços de saúde, fortes
- e que existem problemas mais importantes do que respeitar a relação dívida/PIB e as regras orçamentais.
A crise de 2008, e agora esta,
- marcam a saída de uma certa forma de hipercapitalismo e neoliberalismo
- extremamente otimista sobre a capacidade dos mercados de regular todos os problemas.
As desigualdades econômicas são o foco de seus estudos. Já temos as provas de seu aumento por conta da pandemia ou é muito cedo para percebê-lo?
É um pouco cedo, mas já constatamos que
- as rendas mais baixas e as situações mais precárias no mercado do trabalho
- perderam mais do que as pessoas que tinha situações mais estáveis, empregos que lhes permitiam trabalhar de casa,
- enquanto ao nível dos patrimônios foi fácil perceber que os bilionários do planeta, em setores como o de alta tecnologia, são ainda mais ricos.
Isso tudo leva a um debate que está evoluindo rapidamente sobre como distribuir essa riqueza.
Um debate provocado pela crise Covid?
Não, acelerado pelo Covid. Mas o debate estava ganhando impulso antes mesmo da pandemia.
Em particular, fiquei impressionado com a campanha para as eleições presidenciais dos EUA de 2020 em comparação com a de 2016.
Quando falei com a senadora democrata Elizabeth Warren no primeiro turno sobre a necessidade de introduzir um imposto anual de 5 a 10% sobre a riqueza de bilionários ela era muito cética.
- Quatro anos depois, Warren e Bernie Sanders estavam competindo para saber quem proporia o imposto sobre a riqueza mais alto.
- O mesmo aconteceu na Alemanha com a SPD, onde em 2014-2015 Sigmar Gabriel não quis reintroduzir um imposto sobre a riqueza enquanto agora Olaf Scholz e os Verdes alemães estão pensando nisso.
- E também Enrico Letta fez recentemente uma proposta para aumentar o imposto sobre a herança e dar um capital inicial a todos os jovens.
Uma proposta que você obviamente aprova …
Eu faria mais:
- o imposto sucessório deve ser aumentado, mas um imposto anual sobre grandes fortunas também é necessário.
- Se realmente queremos redistribuir, antes de criar ‘a herança para todos’, que eu defendo,
- é preciso um sistema de garantias como o salário mínimo para os trabalhadores ou a renda básica.
E devemos ter cuidado para que
- essa ‘herança para todos’ não seja uma forma de abolir outras formas de estado de bem-estar, da saúde pública à educação estatal.
- Sempre existe o risco de que algum liberal veja uma oportunidade para gerar dinheiro: ‘Pegue seus dez mil euros e pare de nos incomodar’.
Mas a proposta de Letta não foi bem recebida na Itália. Até o primeiro-ministro Mario Draghi disse que não é hora de falar sobre novos impostos.
Eu realmente aprecio Draghi,
- mas não acho que ele pensa que pode financiar tudo por meio das dívidas.
- Depende de qual horizonte é dado.
- Se ele pensa que ficará lá por mais um ano, sua resposta é compreensível.
Mas o que interessa a mim é o horizonte de cinco ou dez anos em que esses problemas surgirão inevitavelmente.
Hoje, porém, a Europa parece capaz de sair da crise.
Acredita-se que se possa sair da crise somente através do Banco Central europeu que empresta dinheiro para estados com juros zero. Mas esta situação, que à primeira vista parece funcionar, é na realidade muito frágil.
Por que é que as taxas vão necessariamente subir diante de um reinício da economia?
Não só isso.
Mesmo enquanto as taxas permanecem em zero,
- elas resolvem um problema de dívida pública,
- mas criam um problema de desigualdade dos patrimônios.
Para os pequenos poupadores,
- as taxas zero não são necessariamente uma coisa boa,
- enquanto para aqueles que têm patrimônios muito maiores e podem investir em mercados financeiros ou imobiliário,
- as taxas zero podem ser um ótimo negócio.
Acho que seria necessária uma nova forma de política monetária em que o dinheiro seja dado diretamente às pessoas normais e não aos bancos e àqueles que podem tomar empréstimos.
E, depois, um dia certamente será necessário ter a contribuição dos mais ricos.
O imposto, temido por muitos, que na Itália se chama patrimonial …
Veja bem, todas as grandes crises de dívida pública também se resolveram assim. Por exemplo,
- na Alemanha, após a Segunda Guerra Mundial, em 1952, foi instituída uma taxa excepcional sobre os patrimônios privados mais altos que podia chegar a 50%
- e isso permitiu reduzir a dívida pública alemã de forma acelerada e financiar a reconstrução do pós-guerra.

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Francisco Manacorda
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