MOVIMENTOS E REBELDIAS

Por Aldo Anfossi, no La Jornada | Tradução: Gabriela Leite – 18-05-2021
A velha política sai fragilizada das eleições para a Constituinte. Direita de Piñera, que julgava-se intocável, afundou na arrogância. Esquerda tradicional é incapaz de mobilizar ideias. Emerge uma nova força política – autonomista e popular
A espetacular vitória obtida pelos candidatos independentes na eleição de delegados constituintes, efetuada no último final de semana no Chile, bem como o fiasco eleitoral que sofreram os partidos políticos tradicionais, equivale a um mega-terremoto político cujas sequelas apenas estão começando a ser sentidas, dizem os analistas.
Os números mostram que
- os independentes serão 48, a primeira maioria,
- seguidos por 37 da direita oficialista aglutinada na chapa Chile Vamos,
- 28 do pacto Apruebo Dignidad(que reúne os comunistas e a esquerda que faz parte da Frente Ampla),
- 25 da Lista del Apruebo [antiga Concertación, centro-esquerda de onde saiu a ex-presidente Michelle Bachelet]
- e 17 de povos originários. As eleições [que no Chile não são obrigatórias] tiveram participação de 6,3 milhões de eleitores, 42% do total.
O despencar da direita, que com seus 37 dos 155 delegados acabou longe do terço (52) que ansiava ter — mínimo necessário para ter capacidade de veto na aprovação de artigos constitucionais — confirma o desempenho desastroso do governo de Sebastián Piñera, inclusive entre seus próprios eleitores.
Outra prova dessa derrota é que a Chile Vamos perdeu 55 prefeituras, passando de 143 a 88.
Os efeitos foram sentidos de imediato:
- a candidata a presidente pelo partido da Democracia Cristã (DC), Ximena Rincón, que seria oficializada nesta segunda-feira,
- pediu adiamento e insinuou estar disposta a abrir mão de sua candidatura por uma figura mais competitiva.
- A DC, que foi um dos partidos mais relevantes do país, elegeu um mísero delegado constitucional — uma tragédia eleitoral.
Hoje termina o prazo para que partidos e coalizões inscrevam seus candidatos às eleições primárias presidenciais, que deveriam ser realizadas em junho,
- mas a velha Concertação — que aglutina a DC junto aos partidos pela Democracia, Socialista, Radical e outros menores —
- parece estar relutante devido à fragilidade eleitoral que os castiga e os expõe ao ridículo.
Em contraste,
- o candidato presidencial do Partido Comunista, Daniel Jardue, foi reeleito prefeito do distrito popular da Recoleta, em Santiago, com 65% dos votos.
- Jadue pontua nas pesquisas entre 10% e 15%, sendo um dos favoritos, junto ao direitista Joaquín Lavín, da União Democrata Independente.
Aqueles que não se redimem
Na autodenominada Lista do Povo estão os inusitados, irredentos e gloriosos vencedores das eleições, que com 941 mil votos elegeram 27 delegados constituintes. Formada por mulheres e homens que se conheceram e coordenaram ao calor das manifestações da Plaza Dignidade, após a eclosão da revolta social de 18 de outubro de 2019, proclamam:
somos o povo, lutamos por toda a história para obter dignidade e justiça. Somos os que viveram e cresceram na injustiça e desigualdade, somos os que se levantaram em um 18 de outubro para dizer basta,
diz seu manifesto.
Seus objetivos
- não são apenas competir em igualdade de condições,
- mas criar laços e pressionar o governo e o sistema político a fim de que deixem de privilegiar aos partidos, que têm decidido pelo povo e contra o povo,
- e todes nós (sic), os e as independentes devemos escrever a Constituição.
Claudio Fuentes, pesquisador de ciência política da Universidade Diego Portales, afirma que os independentes
- ganharam porque refletiam os interesses dos atores sociais mobilizados a partir de 18 de outubro de 2019,
- e tiveram a capacidade de mobilizar seu eleitorado.
Fuentes destaca que sem dúvida a grande surpresa foi a Lista do Povo, e isso mostra que algo estava acontecendo e que ninguém foi capaz de prever. Ele acrescenta que
- é muito saudável que essas pessoas entrem na Assembleia Constituinte,
- porque ao representar os movimentos sociais, é bom que se institucionalizem e que essa expressão política esteja representada.
A respeito da derrota da Concertação, e da direita, explica que os partidos tradicionais estão em um dilema:
- “por um lado, atuar na defensiva, reagrupar-se e seguir na lógica tradicional;
- por outro, reagir e fazer uma virada significativa, mostrando novos rostos, discursos e formas de fazer política”.
“Não sei se a política está percebendo, mas se não quiserem enxergar isso agora estarão cometendo suicídio, porque a lógica nacional se transformou, veremos se os partidos são capazes de compreendê-lo e se reconstruir, por exemplo com o contingente parlamentar das próximas eleições”,completou.
O que aconteceu neste último final de semana
- é um sinal de que surgirão novos movimentos, agrupações e atores políticos/sociais que vão começar a disputar o poder:
- isso aconteceu agora e seguramente será a expressão futura da política no Chile.
Quanto a Piñera, que conclui seu governo em março de 2022, Fuentes opina que
- o presidente provavelmente continuará com seu impulso de intervir em tudo, inclusive no debate constitucional,
- quando deveria abster-se e concentrar-se em administrar o que resta.
Ele não vai conseguir deixar passar, tem um impulso de intervir e se preocupa com o legado: veremos se adota uma atitude mais ascética, embora o governo esteja paralisado e tenha abandonado o navio há muito tempo.
Na esteira da eleição, os preços das principais ações caíram 8% hoje, já que os investidores estavam confiantes de que a direita alcançaria um terço da Assembleia Constituinte.
![Opinión] - Aldo Anfossi - Aldo Anfossi - Cooperativa.cl](https://opinion.cooperativa.cl/opinion/site/artic/20181004/imag/foto_0000000220181004165253.jpg)
Aldo Anfossi,
Fonte: https://outraspalavras.net/movimentoserebeldias/o-terremoto-popular-que-abalou-a-direita-chilena/
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