
- que dedicam a sua vida ao anúncio do Reino de Deus,
- conselheiros espirituais que despertam para a transcendência,
- animadores e coordenadores das comunidades…
Neste sentido, embora sem ordens sacras, continuará o ministério de padres, presbíteros, bispos, líderes das comunidades.
Homens e mulheres, casados ou não, escolhidos pelas comunidades ou com a sua participação. Alguns temporariamente, outros de modo permanente. E para quê?
1. Para que a questão de Deus não morra entre os homens enquanto questão. Se a simples palavra “Deus” deixasse de existir, o Homem deixaria de ser Homem, como escreveu Karl Rahner:
“A morte absoluta da palavra “Deus”, uma morte que eliminasse até o seu passado, seria o sinal, já não ouvido por ninguém, de que o Homem morreu.”
Até filosoficamente, toda a pergunta pelo “sentido da acção humana”, o perguntar pelo “sentido do processo do mundo na totalidade” exigem “um conceito de Deus”. 9
Com o eclipse de Deus, desaparece o sentido do mundo, que o Homem
“em vão tenta reencontrar mediante uma acumulação de racionalidade”.
Mas já Georges Gusdorf tinha prevenido:
- “O caos, o absurdo, hoje, não propõem possibilidades abstractas;
- campeiam por todo o lado, não por insuficiência de racionalidade, mas por superabundância e excesso de lógica, de técnica, de intelectualidade parcelar,
- num universo em que a imensa acumulação de pormenores contraditórios oculta, ou mesmo destrói, a ordem humana.
Deus morreu, a História enlouqueceu, o Homem morreu: tudo fórmulas desesperadas que exprimem a tomada de consciência, e o ressentimento, da ausência do sentido.”
O mundo parece encontrar-se perante um facto decisivo e mesmo único:
- se, independentemente da sua resposta positiva ou negativa, o Homem já não vir pura e simplesmente necessidade de colocar a questão de Deus,
- isso significa que, pela primeira vez na sua história, a Humanidade sucumbe à imediatidade, a uma visão fragmentária do aqui e agora e
- “abdica da sua procura de sentido”.
Mas o Homem enquanto for Homem não deixará de perguntar, e toda a pergunta, em última instância, desemboca na pergunta pelo Ser Absoluto e Fundamento Último.
Como diz Ciorán,
“tudo se pode sufocar no Homem excepto a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, e inclusivamente ao desaparecimento da religião”.
No mesmo sentido, afirma L. Rougier:
“A Igreja pode declinar, mas o sentimento religioso grávido de um impulso para o ideal, de uma sede do Absoluto, de uma necessidade de superar-se, que os teólogos chamam transcendência, subsistirá.”
2. Líderes, para que a causa de Jesus, que é o Reino de Deus enquanto causa do Homem, não morra entre os homens. Líderes, portanto, exercendo, com o Povo de Deus, o tríplice múnus de Cristo, profeta, rei e sacerdote.
Profetas, anunciando o Deus Pai/Mãe que quer a salvação de todos os homens e mulheres.
- Não um deus do terror, mas o Deus da alegria e da vida; não um deus da exclusão, mas o Deus do perdão sem condições, que a todos acolhe, sobretudo aqueles e aquelas que são excluídos e marginalizados por motivos sociais, económicos, sexuais, religiosos;
- não um deus infantil, infantilizante e imoral, mas o Deus que é força de autonomização e dignificação.
Profetas, que, parafraseando Kafka, falam sobre Deus, porque primeiro aprenderam a falar a Deus e com Deus.
Profetas que sabem ler os sinais do mundo e dos tempos,
- que perguntam e escutam, e preparam anunciadores do Reino de Deus, implicados numa pastoral da interrogação,
- que tem a ver com dar razões da dúvida e razões da fé e da esperança.
A fé não pode encerrar-se nas muralhas de um dogmatismo fixo, coisista e morto, mas tem de abrir-se ao diálogo e à razão crítica.
Líderes com um múnus régio. Jesus respondeu a Pilatos: sim, sou rei; nasci para dar testemunho da verdade. E já tinha dito: “Vim para servir, não para ser servido.”
Líderes, portanto, para animar comunidades cristãs fraternas, de serviço à dignidade infinita do ser humano.
Desgraçadamente, a globalização está a ser sobretudo mundialização do mercado, no quadro ideológico do neoliberalismo, que cava cada vez mais fundo o fosso entre ricos e pobres. Os números não param de chegar, alarmantes e falando por si.
Para quem tenta seguir Jesus Cristo,
- este estado de coisas é intolerável,
- bem como toda a exploração do trabalho, o racismo, os vários tipos de discriminação, qualquer violação dos direitos humanos.
- Trata-se, portanto, do combate lúcido e eficaz pela dignidade livre e pela liberdade com dignidade de todos os homens e mulheres, a começar pelos mais pobres, pelos humilhados e excluídos.
3. Não há religião verdadeira sem justiça e solidariedade.
Mas isto implica que a justiça e o respeito pelos direitos humanos têm de começar pelo interior da própria Igreja.
Na Igreja,
- Jesus até queria mais do que uma democracia,
- pois o que ele propunha era uma filadélfia, isto é, comunidades de irmãos e amigos (lê-se no Evangelho de S. João:
“Já não vos chamo servos, mas amigos”).

Padre e professor de Filosofia.Escreve de acordo com a antiga ortografia
Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/jesus-e-a-igreja-3-13630812.html