Martín Canziani – 20 Março 2021 – Foto: Mohamed Hassan / Pixabay – Daqui
A China e os Estados Unidos transitam a pandemia de forma divergente. Enquanto o gigante asiático desacelerou seu crescimento econômico e se posicionou como provedor de recursos e ajudas sanitárias, os Estados Unidos sofreram de cheio o impacto do coronavírus e teve um caminho de governo, em plena pandemia, que o obriga a definir seu rumo no novo cenário internacional. Nesta situação, a pergunta pela disputa global entre as potências se torna impostergável.
Para respondê-la, entrevistou-se EstebanActis, doutor pela Faculdade de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Nacional de Rosário, professor e pesquisador nas universidades de Rosário, Buenos Aires, La Plata e Católica de Córdoba, e coautor do livro La disputa por el poder global.
A entrevista é de Martín Canziani, publicada por Página/12, 18-03-2021. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.
A pandemia veio acelerar um conjunto de tendências profundas que já estavam presentes no cenário internacional, e a mais significativa é a disputa entre os Estados Unidos e a China – Esteban Actis – Tweet
Esteban Actis – Foto: Twitter
A pandemia mudou o rumo das relações entre a China e os Estados Unidos ou acelerou algo que já estava acontecendo?
Veio acelerar um conjunto de tendências profundas que já estavam presentes no cenário internacional, e a mais significativa é a disputa entre os Estados Unidos e a China.
O que mudou é que este evento global demonstrou um conjunto de aspectos, onde os mais relevantes são
- a dificuldade na cooperação entre os dois Estados mais importantes do cenário internacional,
- a crise de liderança que o mundo vive
- e a vontade da China de ocupar esse papel, apesar da desconfiança da comunidade internacional e as limitações próprias.
A liderança global dos Estados Unidos está comprometida?
A crise de liderança que o mundo atravessa
- tem como manifestação a incapacidade dos Estados Unidos em oferecer bens públicos globais e de que sejam aceitos.
- Trata-se da capacidade de prover as construções que em um sistema anárquico, onde não há um governo acima dos Estados,
- quem deve prover estabilidade econômica, financeira e militar global é aquele que precisa arcar com gastos para sustentar a estabilidade.
Também precisa
- fornecer certa narrativa ou ideias que determinem uma hegemonia através de sua cultura e do modelo de desenvolvimento,
- algo que os Estados Unidos vêm fazendo durante os últimos 100 anos.
- No entanto, nos últimos tempos, os Estados Unidos perderam essa capacidade e a pandemia é uma clara demonstração disso.
A experiência chinesa colocou em tensão uma ideia que estava muito enraizada na economia internacional: só há progresso sustentável através de uma democracia liberal de mercado – Esteban Actis – Tweet
A China é o país que hoje conta com maiores recursos duros e materiais de poder.
Aí estão inseridos
- seus bancos multilaterais de desenvolvimento,
- a rota da seda e as facilidades de financiamento produtivo que a potência asiática oferece,
- mas não é o necessário para preencher a lacuna que a faça ocupar o lugar dos Estados Unidos.
As democracias do ocidente podem competir com o regime de partido único chinês?
A experiência chinesa
- colocou em tensão uma ideia que estava muito enraizada na economia internacional:
- só há progresso sustentável através de uma democracia liberal de mercado.
A China,
- com um capitalismo de Estado e um regime político que não é uma democracia,
- teve êxitos econômicos tangíveis, em um contexto onde as democracias ocidentais se estagnaram em seu desenvolvimento.
Sem entrar em juízos de valor em relação ao modelo,
- a China demonstrou que não é necessário ter uma democracia de mercado conforme a considerada no Ocidente
- para alcançar o desenvolvimento.
Neste sentido, o mundo ficou dividido em dois modelos em disputa:
- um com um capitalismo onde a transformação produtiva é sustentada pelo setor privado, onde o Estado é importante, mas o motor do desenvolvimento está nas mãos privadas,
- e um capitalismo de base estatal
- onde, embora a China dê protagonismo ao mercado e aos incentivos privados,
- a condução do Estado nos delineamentos e planejamento do modelo de desenvolvimento é muito clara.
Não há uma desglobalização ou retrocesso da globalização como alguns vaticinaram, no início da pandemia – Esteban Actis – Tweet
A economia global também faz parte das tensões entre as potências?
O que estamos vendo é que
- a globalização, até há alguns anos, estava centrada nos custos.
- As empresas multinacionais se movimentavam em torno desta variável que consideravam central.
O que aconteceu nos últimos tempos,
- com uma geopolítica muito mais convulsionada pela tensa relação entre a China e os Estados Unidos, a presidência de Trump e inclusive o Brexit,
- é que as empresas precisam se movimentar no risco.
Não há uma desglobalização ou retrocesso da globalização como alguns vaticinaram, no início da pandemia. O que vemos é um processo muito mais delicado, em que as empresas precisam avaliar os custos econômicos, mas também estratégicos de suas decisões.
Esta ideia tão enraizada de que
- as empresas multinacionais norte-americanas e a política exterior caminhavam de mãos dadas não está se cumprindo.
- E isto é produto da tensão pelo volume do mercado chinês e sua dinâmica de crescimento.
Que lugar a América Latina pode ocupar dentro desta disputa?
A América Latina
- está em uma situação muito delicada
- porque a região tem uma maior irrelevância sistêmica ou menor peso gravitacional do que outras regiões do mundo.
Os indicadores nos mostram que estamos fora das cadeias globais de valor,
- com pouca capacidade de investimento na indústria 4.0,
- pouca participação na governança global
- e uma fragmentação regional inédita que traz uma incapacidade de diálogo para coordenar cenários futuros.
A partir deste cenário regional, que em decorrência da pandemia caiu em termos econômicos, ocorre uma maior relevância estratégica por parte dos atores externos.
A China e os Estados Unidos começam a ter maiores interesses em todo o mundo e a América Latina não é a exceção.
Nesse sentido,
- as pressões da potência hemisférica sobre o que considera o seu quintal aumentaram
- e a China começa a pressionar países têm suas exportações comprometidas com o gigante asiático.
.
Martín Canziani
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