
Anselmo Borges – 13 Fevereiro 2021 – Foto: testedevocacao.com.br
O étimo das palavras pode abrir-nos portas aparentemente difíceis de abrir. Neste caso da ecologia, temos oikos, palavra grega para casa, e logos, razão, tratado: o tratado da casa, da casa de cada um, de cada família, de cada país, da casa comum da Humanidade.
A ecologia está inevitavelmente ligada à economia, e lá está de novo oikos (οικοσ), casa e nomos (νóμοσ), lei, governo:
- cada um deve governar a sua casa, as famílias também,
- os países têm um governo que deve governar,
- e hoje, sendo todos interdependentes mais do que nunca, por causa da globalização,
- precisamos de uma governança global para a casa de todos, a casa comum da Humanidade.
Em conexão com ecologia e economia está a ética, que tem um duplo étimo:
- ethos, que, segundo se escreva, em grego, com épsilon (ε) ou eta (η)
- significa, respectivamente, uso, costumes, e habitação.
Assim, ligando as três palavras, a questão é esta: que comportamento ter para podermos todos habitar bem na casa comum da Humanidade?

Foi o biólogo alemão, discípulo de Darwin, Ernest Haeckel, que criou a palavra ecologia em 1866. Definiu-a, e cito o recente livro de Leonardo Boff, Uma Ecologia Integral, no qual me inspiro concretamente para as estatísticas, como
“o estudo das relações de todos os seres vivos e não vivos entre si e com o seu ambiente. Todos vivem juntos na Casa Comum, que é a Terra, e juntos apoiam-se mutuamente para alimentar-se, reproduzir-se e co-evoluir.”
- A idade do Universo é de uns 13 700 milhões de anos, com o Big Bang;
- a Terra terá uns 4400 milhões de anos;
- a vida terá começado há uns 3800 milhões de anos;
depois, a vida foi evoluindo e complexificando-se e
- apareceu o sapiens e depois, há uns 150 mil anos, o Sapiens sapiens, o homem actual
- Sapiens sapiens e Demens demens, é preciso acrescentar sempre.
De qualquer modo,
- é em nós que o gigantesco processo da evolução sabe de si, e sabemos de nós:
- somos conscientes de ser conscientes, somos, cada um, uma subjectividade, alguém,
- alguém que diz “eu” de modo único.
Sobretudo nos últimos 300 anos, com a revolução industrial e o paradigma tecnocrático e hiperneoliberal, o Homem, esquecendo que também é Terra e que tudo está ligado com tudo, como lembrou o Papa Francisco na encíclica que fará história, “Laudato Si”, arvorou-se em senhor e dominador da Terra:
- scientia est propter potentiam (F. Bacon): a ciência é por causa do poder e é poder;
- somos seigneurs et possesseurs de la nature: senhores e dominadores da natureza, proclamou Descartes.
No imaginário dos fundadores da sociedade moderna, lembra L. Boff,
“o crescimento e o desenvolvimento movem-se em dois infinitos: o infinito dos recursos naturais e o infinito do crescimento e do desenvolvimento olhando para o futuro”.
Pura ilusão, pois é sabido que
- os recursos são finitos
- e, num mundo limitado, não é possível um crescimento ilimitado,
- como há muito tempo aqui venho repetindo.
Os números estão aí, alarmantes. Assim, cálculos realizados por organismos das Nações Unidas mostram que,
- se os países ricos, 20% da população mundial, quisessem universalizar o seu padrão de riqueza,
- precisaríamos de mais três Terras iguais à nossa, que não existem.
Este tipo de sociedade, sociedade do consumismo voraz, criando inclusivamente necessidades artificiais, produz dois tipos de injustiça: “a injustiça social e a injustiça ecológica”, de tal modo que o grito dos pobres é igualmente o grito da Terra e vice-versa.
Criam-se profundas e gritantes desigualdades sociais,
- a ponto de 20% da população mundial possuir 80% de toda a riqueza da Terra.
- As três pessoas mais ricas do mundo acumulam activos que superam a riqueza dos 48 países mais pobres do planeta, 600 milhões de pessoas aproximadamente.
- Gritante: 257 pessoas acumulam mais riqueza do que 2,8 mil milhões de pessoas.
O resultado desta situação reflecte-se em
- quase mil milhões de pessoas a passar fome
- e 2,5 mil milhões a viver abaixo do limiar da pobreza, sobrevivendo apenas com dois dólares por dia.
Outra consequência é que, para lá de todo o sofrimento e humilhação das pessoas, a cada ano morrem, antes de chegar aos 5 anos, 15 milhões, por causa de doenças que seriam facilmente tratáveis.
Esta injustiça social anda associada à injustiça ambiental, que se traduz no
“mau-trato da natureza, das florestas, dos animais, das águas, do ar, dos solos”.
A espécie humana já ocupou 83% do planeta, e “ocupou-o devastando-o”.
- No processo da evolução, desaparecem naturalmente em cada ano à volta de 300 espécies.
- Mas, por causa da voracidade humana, desaparecem anualmente entre 70 mil e 100 mil espécies.
- E acaba-se com a biodiversidade.
A quantidade de poluentes lançados para a atmosfera produz o efeito de estufa, que causa o aquecimento global, que se tem acelerado, com o perigo grave de se exceder o limite que a Terra poderia suportar:
- suponhamos um sobreaquecimento entre 1,4 e 6 graus Celsius ou mais;
- o resultado seria, com o degelo nos polos, um aumento tal de água nos oceanos
- que levaria à destruição de cidades costeiras e à morte de milhões e milhões de pessoas…
As alterações climáticas já estão aí e podem, segundo alguns cientistas, ter impulsionado o aparecimento da covid-19. E quem pensa nas gerações futuras?
Impõe-se pensar e agir. É da sobrevivência da Humanidade que se trata. Como escreveu o Papa Francisco,
“a educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não procurar também aprofundar um novo paradigma sobre o ser humano, a vida, a sociedade e a relação com a natureza”.

.
Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia. Escreve de acordo com a antiga ortografia
in DN 13.02.2021
Fonte: www.dn.pt/edicao-do-dia/13-fev-2021/educacao-para-a-ecologia-13344688.html