Um ‘diretor-geral’ para a Cúria Romana

“Há uma figura muito importante, seria chamado de ‘Moderator Curiae Romanae’. É uma figura que se coloca ao lado do secretário de Estado, em estreita união com ele, mas diferente do secretário de Estado…”. O cardeal Francesco Coccopalmerio, grande canonista que preside o Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, fala tranquilamente no seu escritório voltado para a Praça de São Pedro. O seu nome é, talvez, o mais citado do outro lado do Tibre quando se fala da reforma da Cúria desejada por Francisco.

Entrevista com Francesco Coccopalmerio

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 22-04-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O papa nomeou um “grupo” de cardeais de todo o mundo que se reunirá a partir de outubro para estudar a reforma da Constituição Pastor Bonus sobre a Cúria, mas não começará do zero. Há semanas, fala-se do “esboço Coccopalmerio”, conta-se que durante as congregações gerais dos purpurados o seu discurso recebeu um grande consenso: os chefes de dicastério precisam de uma relação direta e frequente com o papa, é preciso mais coordenação entre os “ministérios” e é preciso uma maior eficiência na “governança” curial.

As suas propostas são mais do que simples hipóteses. Como a ideia de uma organização semelhante à que já existe nas diocese maiores: o mesmo Coccopalmerio, quando ele bispo auxiliar do cardeal Carlo Maria Martini, criou o cargo do “Moderador Curiae” na diocese de Milão.

Eis a entrevista.

Eminência, o que seria esse “Moderator”? Uma espécie de diretor-geral?

Algo semelhante, mas atenção: ele não se intromete entre o papa e os dicastérios, absolutamente. Ele é quem faz a Cúria funcionar. Se um dicastério tem uma tarefa particular, por exemplo, é o Moderator que se pergunta quais instrumentos ele precisa, se ele tem pessoal suficientemente qualificado e assim por diante. E para organizar as coisas, como consequência.

O secretário de Estado não manda mais na Cúria?

São papéis diferentes. A Secretaria ajuda mais diretamente o papa, e a figura do secretário de Estado é voltada ao exterior, ocupa-se dos problemas da Igreja universal ao lado do pontífice. A tarefa do Moderator, ao invés, é limitada à Cúria Romana, para que funcione melhor.

Tem-se falado de uma Cúria mais enxuta…

Perguntar-se se devemos reduzir não tem sentido em si só. A pergunta é: de que o papa precisa? Dizer que a Cúria deve ser “simplificada” sem mais é demagógico. Também pode haver setores subdimensionados. O mais racional é perguntar-se como torná-la mais eficiente para um serviço concreto ao papa.

Qual é, essencialmente, o objetivo de uma reforma?

O conceito de fundo é que o papa, para governar a Igreja, deve cumprir uma série de atividades: por exemplo, escolher os bispos, tecer as relações ecumênicas, cuidar dos consagrados, ou da família, ou dos seminários, e assim por diante. O papa tem muitas coisas para fazer e todas diferentes entre si. Ele deve ser ajudado por pessoas competentes e espiritualmente à altura. Portanto, os dicastérios da Cúria nascem para isso.

E então?

Por isso, é essencial que haja uma relação constante entre o pontífice e os dicastérios. O papa deve saber o que cada um está fazendo, dar a sua opinião: está bem, não está bem, pode-se corrigir isto, acrescentar isto. Porque, no momento em que ele diz: “Está bem”, ele assume a atividade do dicastério, é o Santo Padre que a realiza através das competências das pessoas que ele indicou.

Com o passar do tempo, caíram as audiências “de tabela” do papa, mas…

Exatamente, é necessário que os chefes de dicastério possam ser recebidos pelo papa até uma vez por mês. Que haja uma relação contínua, além disso, é também a ideia de fundo da própria Constituição Pastor Bonus. Mas não basta isso…

O que mais?

Também é essencial que os chefes de dicastério se encontrem frequentemente entre si, com a presença do papa ou não: para ter uma visão comum do que se está fazendo, coordenar as atividades, em suma, estabelecer um trabalho mais colegial. A Cúria não deve ser uma pedra no sapato, mas deve servir o papa e ajudá-lo a fazer o seu trabalho!

O senhor acenava à possibilidade de um conselho de várias pessoas ao lado do papa…

Sim, se poderia imaginar até mesmo um pequeno grupo de cardeais, além do secretário de Estado, que ajudem e aconselhem o papa. Duas ou três pessoas que, ao contrário do grupo cardinalício recém-nomeado, estejam sempre aqui no Vaticano. Mas isso é algo que se pode fazer ou não…

E o “grupo” de oito cardeais? Ele será ampliado, será permanente?

É o papa quem vai decidir. O grupo expressa a necessidade de que o pontífice esteja em contato e em comunhão com os episcopados das diversas partes do mundo. Poderia se tornar um órgão estável.

A Conferência Episcopal Italiana chegará a eleger o seu próprio presidente, não mais nomeado pelo papa?

Pode ser que sim. Do ponto de vista canônico, não haveria nenhum problema.

 

Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 22-04-2013

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/519554-um-diretor-geral-para-a-curia-entrevista-com-francesco-coccopalmerio

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *