Papa Francisco reafirma crítica à Conferência de Lideranças das Religiosas nos Estados Unidos e plano de reforma
O Papa Francisco reafirmou a repreensão do Papa Bento XVI ao principal grupo de lideranças das irmãs católicas nos Estados Unidos e aprovou um plano para colocar esse grupo sob o controle de três bispos americanos, segundo o Vaticano.
A reafirmação da medida ocorreu numa reunião realizada segunda-feira entre as líderes da conferência nacional das religiosas nos Estados Unidos (LCWR, na sigla em inglês) e o arcebispo Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, segundo uma declaração proveniente do Vaticano.
Durante a reunião, afirmou o Vaticano, Müller disse às líderes da LCWR que tinha “discutido recentemente” a questão com o Papa Francisco, “que reafirmou os resultados da Avaliação e o programa de reforma”.
Essa reunião foi a primeira entre a LCWR, que representa cerca de 80% das cerca de 57 mil irmãs dos Estados Unidos, e Müller, que se tornou chefe da congregação doutrinal em julho.
A LCWR confirmou que sua liderança se encontrou com autoridades do Vaticano numa declaração na segunda-feira e disse que a conversa foi “aberta e franca”.
“Oramos para que essas conversas deem frutos para o bem da Igreja”, concluiu a declaração.
Em abril de 2012, a congregação doutrinal criticou o grupo das religiosas, divulgando uma declaração que dizia que o trabalho da LCWR continha “temas incompatíveis com a fé católica”. Essa medida ensejou, em todo o país, protestos em apoio às irmãos.
Os resultados concluíram uma investigação do grupo que durou três anos e era formalmente conhecida como uma “avaliação doutrinal”, lançada pelo prefeito anterior da congregação e ex-arcebispo de São Francisco, o Cardeal William Levada.
A congregação colocou o grupo sob o controle do arcebispo de Seattle, J. Peter Sartain, que recebeu um mandato de cinco anos para supervisionar as reformas como arcebispo-delegado da congregação.
Em junho, a LCWR disse que as críticas da congregação se baseavam em acusações não comprovadas, provinham de um processo cheio de falhas e causaram “escândalo e dor em toda a igreja”.
As notícias sobre a reunião de segunda-feira foram publicadas em cinco parágrafos do boletim informativo diário do Vaticano, que disse que Müller, as líderes da LCWR e Sartain estavam presentes à reunião.
Antes de reafirmar a crítica da congregação doutrinal, disse o release, Müller “expressou sua gratidão pela grande contribuição das religiosas à igreja nos Estados Unidos”.
Müller também “destacou” ensinamentos do Concílio Vaticano II que promovem “uma visão da comunhão eclesial fundamentada na fé em Jesus Cristo e nos ensinamentos da Igreja transmitidos fielmente ao longo do tempo sob a orientação do Magistério”, afirma o comunicado à imprensa.
Müller também enfatizou que “uma Conferência de Superioras Gerais e Provinciais, como a LCWR, existe com a finalidade de promover esforços comuns entre seus institutos-membro e a cooperação com a Conferência dos Bispos local e com os bispos individualmente”, disse o release. “Por essa razão, essas Conferências são constituídas pela Santa Sé e permanecem sub sua direção”.
A notícia sobre a reunião de segunda-feira poderia reacender uma divisão entre membros da burocracia do Vaticano em relação à maneira de tratar esse grupo de irmãs.
Enquanto a Congregação para a Doutrina da Fé pode estar adotando uma abordagem do tipo linha dura, a congregação vaticana responsável pela supervisão do trabalho das ordens religiosas no mundo inteiro assumiu recentemente uma postura mais sensível, chegando a indicar que buscava o diálogo com as irmãs.
A nomeação do padre franciscano José Rodríguez Carballo como segundo na linha de comando da Congregação para os Institutos da Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, que foi a primeira nomeação do Papa Francisco para a burocracia do Vaticano, parecia aprovar a abordagem mais branda: os colegas de Rodríguez disseram que ele é uma pessoa que busca colaboração, e não conflito.
A congregação religiosa iniciou anteriormente, em 2009, uma investigação própria das irmãs americanas. Conhecida como “visitação apostólica”, ela examinou individualmente ordens das irmãs católicas nos Estados Unidos. Essa investigação começou sob o Cardeal Franc Rodé, ex-líder da congregação para os religiosos. Em 2011, ele foi substituído pelo cardeal brasileiro João Braz de Aviz.
A última declaração oficial de qualquer das partes a respeito da reforma da LCWR foi feita após uma reunião, ocorrida em 11 de novembro, entre quatro líderes da LCWR e os três bispos americanos.
Como parte do mandato recebido por Sartain para a reforma do grupo, ele tem poder sobre cinco áreas, incluindo a revisão de seus “planos e programas”, o que poderia afetar a assembleia anual da LCWR em agosto.
Os poderes de Sartain incluem os seguintes:
• revisar os estatutos das LCWR;
• criar novos programas para a organização;
• revisar e oferecer orientação sobre a aplicação de textos litúrgicos; e
• rever a filiação da LCWR a outras organizações, incluindo o grupo NETWORK, que faz lobby político, e o Resource Center for Religious Institutes.
A LCWR já anunciou alguns planos para sua assembleia de agosto, incluindo a apresentação de uma distinção para a irmã franciscana Pat Farrell, a presidente imediatamente anterior do grupo que foi seu líder durante a divulgação da crítica do Vaticano em abril de 2012 e ajudou a coordenar a reação do grupo.
Ao ser contatado em 4 de abril para falar a respeito da distinção concedida a Farrell, um representante de Sartain disse que o arcebispo “não tinha nada a declarar no momento” sobre o assunto nem sobre seu envolvimento no plano ou na concessão de distinções por parte do grupo de irmãs.
Fonte: A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no jornal National Catholic Reporter, 15-04-2013.
A tradução é de Marcos Luiz Sander.
Uma resposta
As religiosas nos EUA estão 100 anos na frente da nossa cultura brasileira. No entanto acredito que exageraram ao convidar Barbara Hubbard, líder da Nova Era, para a palestra introdutória na Assembléia Geral da LCWR.