O Calvário de Bento XVI

“Se o mundo vos odeia, sabei que, antes do que a vós, me odiou a mim” (Jo 15, 18). Esta frase de Jesus aos discípulos nos seus momentos finais aqui na terra, quando deles se despedia, prevenindo-os de que, a exemplo dele próprio, também eles seriam odiados e perseguidos, dá bem uma idéia de que os discípulos de Cristo não devem esperar outra coisa do mundo, senão o ódio e a perseguição. Foi assim com o próprio Cristo, foi assim com os apóstolos, é e será sempre assim com quem toma nos ombros a árdua tarefa de não se conformar com o mundo, mas de tentar transformá-lo com a força do Evangelho.

Jesus se fez odiar pelos poderes deste mundo já desde o nascimento, quando Maria e José tiveram que fugir da perseguição de Herodes que protagonizou a covarde matança dos meninos de Belém e arredores, julgando que assim estaria matando o “rei dos judeus” que acabara de nascer (Mt 2). Jesus se fez ainda mais odiar, quando já adulto e em cumprimento de sua missão de anunciar o evangelho, proclamou bem aventurados os que têm espírito de pobre, os que choram, os mansos, os que têm sede  de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos e os que sofrem perseguição por amor à justiça, porque, disse Jesus, destes é o Reino dos Céus (Mt 5, 1-12). Estava delineado assim, nas palavras de Jesus no sermão da montanha e em sua conduta de se fazer rodear permanentemente de pobres e marginalizados, o confronto que sempre haveria de existir entre o seu ensinamento e aquilo que o mundo oferece como troféu. Jesus morreu por causa disso, porque se pôs do lado dos marginalizados, dos excluídos, dos perseguidos; numa palavra, porque se colocou contra os poderes opressores do Templo e do Trono.

Por isso Jesus foi morto. Pelo mesmo motivo os apóstolos, seus seguidores, foram perseguidos e mortos. E assim também, ao longo de toda a história cristã até os dias de hoje, todos os que autenticamente tomam nos ombros a missão de anunciar o Evangelho, dando continuidade e prosseguimento ao que fez Jesus, são também perseguidos, porque o mundo não tolera aqueles que lhe opõem a verdade de Deus. Como disse Jesus, a Igreja deve agir no mundo a exemplo de como age o fermento na massa, para transformá-la e não para ser por ela deteriorado (Mt 13, 33; Lc 13, 21). Por isso, a exemplo de como foi Jesus, é da essência da Igreja não se conformar às estruturas do mundo, mas, pelo seu exemplo e sua pregação, tentar transformá-lo pela força viva do Evangelho.

Portanto, não devemos nos admirar de que a Igreja e seus ministros sejam perseguidos por causa do Evangelho. Aliás, Jesus diz textualmente: “Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande no céu a vossa recompensa, porque assim também perseguiram os profetas que existiram antes de vós” (Mt 5, 11-12). Não nos admiremos, pois, da resistência que o mundo oferece ao anúncio do Evangelho e da perseguição que impõe àqueles que o pregam. Jesus diz que “o discípulo não é maior do que o mestre, nem o servo mais do que o Senhor; basta ao discípulo ser como o seu mestre e ao servo ser como o Senhor” (Mt 10, 24-25).

Deduz-se desse ensinamento que convém ao discípulo imitar seu Mestre quanto ao seu modo de viver, sempre em busca de uma santidade autêntica e verdadeira, como pediu o próprio Jesus: “Sede perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5, 48). Infelizmente, e para prejuízo do próprio anúncio do evangelho, hoje, como em todos os tempos da história, há discípulos que não se comprometem com o Mestre quanto à forma de viver. Vivem de forma dissimulada, fingida e escandalosa, e dão um testemunho indigno do evangelho, angariando descrédito para a Igreja. Escandalosos e inescrupulosos chegam às raias do crime, e neles podemos dizer que se realiza a sentença anunciada por Jesus: “Qualquer que escandalizar um só desses pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurassem uma mó de moinho ao pescoço e se lhe lançassem nas profundezas do mar” (Mt 18, 6). Esse tipo de ministro do Evangelho que causa escândalo pode ser hoje facilmente identificado com os clérigos pedófilos, que tanto mal vêem causando à Igreja e à sociedade. Não há dúvidas de que são verdadeiros demolidores da Igreja e da causa do Evangelho. O efeito devastador de seus atos criminosos é semelhante ao de uma tsunami para a Igreja. Um clérigo pedófilo, além de destruir a vida de inocentes crianças, algumas das quais não conseguem se soerguer do trauma psicológico, acabando por cometer suicídio. Seu comportamento criminoso, não raras vezes ocultado pelos superiores hierárquicos, também põe em risco a credibilidade da Igreja; colocam em risco ainda a confiabilidade em milhares de sacerdotes honestos, castos e de vida moral ilibada. Por isso a Igreja hoje está chorando lágrimas de sangue por conta desses criminosos travestidos de ministros.

Não obstante isto, a Igreja vem sofrendo nos últimos anos uma orquestrada onda de crítica e contestação vvinda de todos os lados, tanto do mundo exterior quanto, infelizmente, de suas fileiras internas. Em sua viagem a Portugal (11.05.2010), referindo-se aos crimes de pedofilia do clero, o papa disse aos jornalistas dentro do avião: “Hoje nós vemos de uma forma verdadeiramente terrível que a grande opressão da Igreja não vem de inimigos externos, mas nasce do pecado dentro da Igreja”. Esta constatação do papa não nos surpreende. Embora Bento XVI parta de uma constatação concreta, que é a pedofilia do clero, para falar da “grande opressão da Igreja” nascida “do pecado dentro da Igreja”, sabemos que há, juntamente com isto, outros acontecimentos nascidos também no interior da própria Igreja que são igualmente causa dessa “grande opressão da Igreja”.  Não há que se negar que o Papa Bento XVI vem sofrendo uma espécie de linchamento moral por conta de seus claros e decisivos posicionamentos contra uma série de crimes e desvirtuamento moral, como o aborto, a eutanásia, a união civil de pessoas do mesmo sexo, e outros pontos, aos quais papa nenhum poderá se conformar, mas que o mundo elegeu como suas bandeiras de glórias. E há os que, dentro da Igreja, defendem essas bandeiras. Mas o Papa não pode aquiescer e compactuar com aquilo que ele entende ser um erro. A Igreja deve ser soberana no seu direito de anunciar o Evangelho e o Papa não precisa da autorização do mundo para denunciar o erro e anunciar a verdade, pois a ele foi confiada por Cristo a vigilância e o cuidado universal sobre toda a Igreja (cf. Mt 16, 18-19; Lc 22, 31-32; Jo 21, 15-17).

Nesse tempo de relativismo ético e moral e de profunda contestação da autoridade, temos assistido a uma verdadeira avalanche de críticas, algumas das quais se aproximando da insensatez e do ridículo. Até compreendemos que algumas dessas críticas são no sentido positivo de quem quer ajudar a construir, como vindo de quem ama e busca autenticamente a verdade e dela não deseja se afastar; outros, entretanto, criticam pelo simples prazer de criticar, ou pelo prazer e a vaidade de querer mostrar ao papa como é que se deve governar a Igreja. Não são poucos os teólogos hoje em dia que se lançam no afã de querer mostrar ao papa e aos bispos os rumos que devem dar à Igreja. A última novidade nesse sentido foi a “carta aberta a todos os bispos do mundo”, escrita pelo teólogo Hans Küng em 16.04.2010, na qual, além de criticar duramente e apontar falhas do pontífice, esse teólogo propõe aos bispos uma espécie de insurreição contra a autoridade do papa, na tentativa de salvar o que ainda resta da Igreja, antes que venha o caos.

Sinto certa dificuldade de entender esse tipo de crítica vinda de setores internos da Igreja a atuação de Bento XVI, pois, em que pese não ser ele o papa preferido de muitos católicos, os quais, se pudessem, escolheriam um outro papa, ou até, prefeririam uma igreja sem papa, ele foi escolhido pela maioria dos cardeais numa eleição democrática. Se esse processo de escolha não é o mais perfeito, nem o que a maioria deseja, mas é o que perdura já há mais de mil anos. Portanto, há que ser respeitado.

Porque escolheram Ratzinger e não um outro? O Espírito Santo não tem algo a ver com essa escolha? Antigamente, na Igreja pré-conciliar, ensinava-se no catecismo e os padres em suas pregações, que a escolha de um papa devia-se fundamentalmente a ação do Espírito Santo. Hoje o Espírito Santo não participa mais na eleição de um papa? Afinal, é o apóstolo Paulo quem fala com tanta segurança aos bispos da Igreja: “Olhai por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a Igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (Atos 20, 28). De que servem estas palavras da Bíblia? Se Ratzinger foi o escolhido por Deus e pelos seus pares, porque tanta revolta quanto ao seu modo de conduzir a Igreja? Como papa legítimo, não tem ele o direito de conduzir a Barca de Pedro do modo que ele acha que deve? É óbvio que sempre se pode dar sugestões a quem dirige e governa; e o papa, com certeza, governa ouvindo. O que é incompreensível e impossível é cada um querer uma igreja tal qual o modelo que tem na própria cabeça.

Todos conheciam a atuação do cardeal Ratzinger, pois ele foi íntimo colaborador de João Paulo II por vinte e cinco anos. Portanto, sua conduta hoje na direção da Igreja não deve ser novidade para ninguém. Os rumos que ele vem dando à Igreja eram totalmente previsíveis, ao contrário de João XXIII, tão endeusado e festejado pelos que hoje estão mais descontentes. João XXIII sim, deu uma guinada não de 360 graus, mas de 720 graus nos rumos da Igreja, e fez isto inesperadamente, sem que ninguém tivesse condições de prever mudanças tão radicais. Pelo que consta, também não pediu opinião de ninguém; ao contrário, seguiu sua própria cabeça, pois, como sabemos, as opiniões eram bem contrárias e seus colaboradores mais próximos pensavam bem diferente dele. Bento XVI, ao contrário, age previsivelmente, como quem sabe para onde quer levar a Igreja. Precisa ser respeitado. Se não fosse pedir muito aos teólogos da atualidade, diria que precisa ser respeitado e obedecido, a menos que se entenda que ele não foi escolhido pelo Espírito Santo, mas isto seria contrariar enormemente as palavras do grande apóstolo São Paulo no texto citado acima.

Pe. Paulo Jorge Lúcio, Padre casado.

Respostas de 2

  1. Ilmo. Pe. Paulo Jorge Lúcio, Saudações em Cristo !

    Lendo suas palavras…:
    “Portanto, não devemos nos admirar de que a Igreja e seus ministros sejam perseguidos por causa do Evangelho”.

    …Pergunto-me:
    1.Joseph Ratzinger está sendo perseguido por causa do Evangelho, ou por ter sido cúmplice e mandante de ocultamento de crimes de pedofilia na igreja desde há 30 anos?

    Ilustre padre, tenho visto até políticos demitirem-se, quando suas atitudes não éticas (imorais) são descobertas ! Tanto mais deveria fazer alguém que era suposto ser: Sua Santidade!

    Não é mesmo por acaso, que os europeus já declararam: QUEREMOS DEUS, MAS NÃO QUEREMOS A IGREJA! …com ministros a terem esta atitude…, não há igreja que resista !!!

    Que o Senhor envie o fogo purificador sobre sua Igreja !

    Campos de Sousa

  2. Nos paises democráticos, quando o governante não corresponde aos anseios dos governados ele é substituido através de eleições livres ou de um golpe de estado praticado pelas Forças Armadas. E na Igreja? Não há eleições e nem golpe de estado. E o povo fiel é obrigado a suportar o mal governante até sua morte. A esperança é que o novo Papa seja melhor preparado do que o que se foi para o andar de cima. Mas nos últimos mil anos, desde 1139 DC, data do II Concilio de Latrão, todos os Papas sem exceção, vem mantendo a Lei do Celibato contra a vontade da esmadora maioria do povo católico. A Lei do Celibato interessa ao Poder da Igreja. Revogá-la significa grandes perdas econômicas e de comando na vontade dos padres. Se ela é má para o povo, mas boa para o poder da Igreja, que o povo se lixe, assim pensa a Santa Sé Romana.

    Convido todos os católicos de boa vontade a se engajarem na campanha FORA BENTO XVI. Mande um e-mail para o seu bispo, para a CNBB e para o Vaticano pedindo ao Papa Bento XVI um ato de grandeza – sua renuncia. Este é o melhor bem que ele pode fazer a nossa Igreja.

    Ir Alberto
    iralberto2007@yahoo.com.br

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