Aceito o pedido de renúncia do bispo de Augsburg, Walter Mixa, e algumas luzes no horizonte

Com uma rapidez contrária ao costume do Vaticano, o pedido de renúncia do bispo de Augsburg, Walter Mixa, enviado em 21 de abril de 2010, foi aceito pelo Papa Bento XVI no dia 8 de maio passado.

O mesmo Papa, que demitiu agora Mixa, foi quem o instalou há 5 anos como bispo de Augsburg. Era a primeira interferência do Papa no episcopado da Alemanha, seu país. Mixa era um bispo como Bento XVI desejava, fundamentalista, fiel a Roma, voltado para o passado. Mixa parecia indicado como bom bispo pelo seu apoio aos sacerdotes jovens e pelo ato disciplinar contra um pároco que, num encontro ecumênico, tinha participado da “Ceia” luterana.

O bispo Mixa era, portanto, para Bento XVI um homem importante para conseguir impor sua linha de política eclesiástica na Alemanha. A sua ascensão não foi conseguida por qualificações teológicas e pastorais mas por fidelidade ao Papa e pela sua obediência cega a Roma.

Depois de seu pedido de renúncia, o Presidente da Conferência Nacional dos Bispos da Alemanha, Robert Zollitsch, acompanhado pelo Presidente da Conferência dos Bispos da Baviera, Reinhard Marx, e o Bispo Auxiliar de Augsburg, Anton Losinger, foi a Roma falar com o Papa sobre o caso de Mixa:

Mixa tinha negado durante bastante tempo ter espancado crianças entre 1975 e 1996; teve, porém, de reconhecer depois, que “tinha dado umas bofetadas”. Também estão sendo investigados desvios feitos por ele de dinheiro destinado a um orfanato. E, nova acusação contra Mixa, esta vez de abuso sexual de menor no seu tempo de bispo de Eichstaett (1996 – 2005), está sendo investigada pela Procuradoria de Ingolstadt, Alemanha. O crime, se for confirmado, provalmente ainda não prescreveu.

Mixa não está disponível para um interrogatório. Encontra-se na Suíça, num hospital. O seu advogado “nega decididamente esta nova acusação”.

Segundo informações do Spiegel,o acusado teria, quando bispo de Eichstaett, muitas vezes convidado jovens seminaristas para seus aposentos privativos na casa episcopal e visitado com eles uma sauna.

Também foi constatado que ele conseguia atrair um número excepcionalmente grande de homens jovens para os seus seminários, mesmo indivíduos que tinham sido rejeitados por outros bispados como não aptos.

Tudo isso parece ter criado muitas fofocas desde uns tempos para cá. Entretanto Mixa era um dos que criticavam com frequência e duramente os gays e lésbicas e as suas uniões.

No entanto, todo este escândalo parece produzir uns frutos positivos:

O Arcebispo de Bamberg, Ludwig Schick (69), numa entrevista ao Spiegel exigiu uma discussão sobre o fim do celibato para sacerdotes diocesanos. “Queria que se ponderasse o assunto”, disse ele. Sua proposta é que somente bispos, religiosos e cônegos devam comprometer-se a observar o celibato. Schick exige uma mudança no clero: “A Igreja como um todo precisa de tornar-se mais aberta”, e isso, segundo ele, também implica mais responsabilidade e participação dos leigos nas decisões, e uma ação incrementada das mulheres na Igreja – não somente na pastoral mas também na direção.

O anterior Presidente da Conferência Nacional dos Bispos Alemães, cardeal Karl Lehmann, mostrou-se aliviado com a saída de Mixa. “Algo assim não presenciei em 27 anos; há infelizmente sempre também pessoas que não vivem devidamente o seu compromisso com a Igreja.”. A proposta do arcebispo de Bamberg, Ludwig Schick, de abolir o celibato para o clero diocesano, Lehman descreveu–a como “digna de consideração”. Porém, agora não seria o momento oportuno para um debate deste tema. Primeiro deviam ser esclarecidas todas as acusações contra Walter Mixa. Depois devia-se pensar sobre estas questões. “E então não se devia temer nada”, diz Lehmann. Perguntado se Bento XVI estaria preparado para pensar sobre o tema do celibato, Lehmann respondeu:”Eu creio que ele pensa sobre isso há muito tempo”.

Fonte: artigos de “Spiegel Online”de 7 e 8 de maio de 2010. Síntese de vários artigos por Irene Ortlieb Guerreiro Cacais

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