
Flávio Lazzarin – 13/10/2020 – Brasil em chamas. Foto: Daqui
Segundo ele, “o genocídio de povos indígenas e camponeses não é novo. O desastre ecológico dos biomas brasileiros não é novo. Novo, ou renovado, é o discurso despudorado e desumano, que raramente ousava se manifestar. Mas me parece evidente que a batalha não pode ser travada no plano dos discursos, das narrativas. Combate-se apenas no plano da verdade dos fatos. E o fato incontestável é a crise da nossa civilização. Disso deveria partir todo projeto político”.
Eis o artigo.
Giorgio Agamben escrevia sobre Guy Debord e sobre cinema quando fez uma observação que me levou a pensar. O filósofo mencionava a diferença de objetivos do cinema e do noticiário.
- Em tempos em que as portas do futuro parecem fechadas,
- muitos estão ressuscitando o passado mais trágico e insano
- e o cinema poderia fazer o contrário do que fazem os nostálgicos do terror.
Poderia favorecer uma memória que restitua, a partir das vítimas e dos derrotados do passado, a possibilidade de refazer a história.
- E pode fazer o contrário dos jornais e dos noticiários da televisão,
- cujo objetivo é nos confinar ao presente, apagar e deturpar a memória e propiciar ressentimentos estéreis.
- Os jornais nos oferecem os fatos, mas diante de cada notícia nos vemos impotentes,
- porque o poder da mídia consiste justamente em promover o telespectador desmemoriado, indignado e impotente.
Uma longa premissa para dizer que não me sinto à vontade quando sou convidado a comentar sobre a atualidade, acompanhando os noticiários e as redes sociais.
A Amazônia já está queimando há tempo
- Hoje, ganham manchetes os incêndios na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal, num Brasil cada vez mais inimigo da Terra e da vida.
- Hoje, ganham manchete as mentiras descaradas dos líderes políticos americanos
- e as reações pontuais, indignadas e impotentes daqueles que acreditam que pode ser suficiente manifestar dissenso em relação a Trump e Bolsonaro.
E, ao fazer isso, esquecemos que
- um profundo discernimento seria necessário para desmascarar supostas virgindades políticas e religiosas
- que nos requalificam, a baixo custo, como seres humanos éticos e solidários apenas porque nos opomos à nova direita mundial.
Nesse presentismo, inoculado pela mídia,
- corremos o risco de ser figurantes da democracia como farsa,
- em que regimes e oposições se associam para discordar nos detalhes
- e, ao mesmo tempo, para aceitar a gestão capitalista do planeta como natural e indiscutível.
Um exemplo que sintetiza essas atitudes políticas, generalizadas na Europa e na América, é dado pela reportagem publicada no Poder 360 (29 de setembro), na qual José Dirceu escreve que o Partido dos Trabalhadores (PT) deve mudar e a esquerda deve se atualizar.
No entanto,
- permanecemos desapontados
- com as limitações da análise, das perspectivas e das estratégias políticas.
Relembrar e reagir politicamente
Estamos mais uma vez diante da incapacidade de qualquer autocrítica e da reconstrução deformada do passado de Lula e Dilma,
como se
- sua gestão não se caracterizasse pela aliança com o centro-direita
- e com as elites empresariais, bancárias, de mineração e do agronegócio.
Como se
- a transposição do rio São Francisco,
- as hidrelétricas faraônicas de Belo Monte, Estreito, Jirau, Santo Antônio …
- Olimpíadas e Campeonato Mundial de Futebol …
- Programa Matopiba (conjunto maléfico de projetos que acaba por cancelar definitivamente o cerrado brasileiro do mapa dos biomas)
não fossem iniciativas decididas contra a vida dos indígenas, das comunidades tradicionais, das periferias urbanas, dos pequenos e dos pobres de Jesus
Para reagir de forma adequada é necessário refrescar a memória.
Descobriríamos que
- as atrocidades reveladas pelos discursos e turpilóquios do atual governo
- revelam com clareza o que sempre aconteceu,
- mas que permanecia elegantemente maquiado pelas liturgias do poder.
O genocídio de povos indígenas e camponeses não é novo. O desastre ecológico dos biomas brasileiros não é novo. Novo, ou renovado, é o discurso despudorado e desumano, que raramente ousava se manifestar.
Mas me parece evidente que
- a batalha não pode ser travada no plano dos discursos, das narrativas.
- Combate-se apenas no plano da verdade dos fatos.
- E o fato incontestável é a crise da nossa civilização.
Disso deveria partir todo projeto político. O que parece impossível mesmo neste Brasil, às vésperas das eleições municipais, admirável síntese da coação à repetição, que prenuncia as repetições que se esperam para 2022, ano das eleições presidenciais.
Uma resposta
Do que li parece que o autor defende o abandono da economia de mercado. Se alguma vez tal acontecer, o Brasil vai tornar-se na nova Venezuela. Do meu ponto de vista, o PT fez muito bem em respeitar a economia de mercado, pois só ela pode gerar prosperidade e bem estar econômico. O que falta é regular os mercados e é nessa tarefa que deve ser colocado o enfoque de quem governa.