Questões Epidemiológicas
Pesquisa mostra que, no Maranhão, total de contaminados é 22 vezes o registrado nos dados oficiais

CAMILLE LICHOTTI – 01set2020
Pesquisa domiciliar com aplicação de teste sorológico no Maranhão / Foto: Reprodução
O resultado surpreendeu os pesquisadores, tanto pela proporção de casos positivos quanto pela rapidez com que o Sars-CoV-2 se espalhou pela região. Foram pouco mais de quatro meses desde a confirmação do primeiro caso, em março, até dia 8 de agosto, quando o estudo foi concluído.
- Nesse período, segundo o inquérito, mais de 2,8 milhões de maranhenses contraíram o vírus
- – quase 22 vezes o registrado oficialmente pela secretaria de Saúde até então, dado que também assustou os pesquisadores.
Das pessoas que tiveram o resultado positivo no exame sorológico, apenas 4% haviam realizado o teste RT-PCR.
O índice de subnotificação encontrado no Maranhão
- é maior que o estimado pelo projeto EpiCovid-19,
- que calculou, para todo o país, um número de infectados sete vezes maior que o dos registros oficiais.
Para Antônio Augusto Moura da Silva, epidemiologista do departamento de Saúde Pública da UFMA e coordenador do estudo, a diferença pode ser explicada pelo tipo de teste aplicado.
- “A maioria dos outros estudos estão sendo feitos com testes rápidos.
- Nós coletamos o sangue e analisamos a presença de anticorpos em laboratório, através do método de eletroquimioluminescência, que é muito mais preciso”, explica.
Ao todo, 3.156 pessoas foram sorteadas para participar do estudo, entre 27 de julho e 8 de agosto.
“A prevalência aqui é a maior encontrada no mundo em um estudo de base populacional”, diz Silva. “Já vimos valores maiores, mas não para uma área do tamanho do estado do Maranhão, equivalente à da Itália.”
Apesar do alto número de infecções, não é possível afirmar que o estado atingiu a imunidade de rebanho. Isso porque pesquisadores ainda não chegaram a uma conclusão sobre qual proporção garantiria o declínio da taxa de transmissão do Sars-CoV-2. Um estudo publicado em julho sugeriu que a imunidade de grupo poderia ocorrer com 20% da população infectada – o que não foi verificado no Maranhão.
“Se tivéssemos imunidade de rebanho com 20%, o Maranhão não atingiria a prevalência de 40%”, explica Silva. “E a transmissão aqui continua, a doença não parou.”
Em agosto, a secretaria de Saúde registrou, em média, mil novos casos da doença por dia. A única certeza que os pesquisadores maranhenses têm é que existe um risco menor de uma segunda onda acontecer em curto prazo.
Diferente do que os pesquisadores esperavam,
- a maior prevalência – 47,6% da população infectada – está nos municípios de médio porte, que têm de 20 a 100 mil habitantes,
- e não nas grandes cidades.
Para Silva, isso pode indicar uma dificuldade política e econômica das prefeituras em estabelecer regras rígidas de isolamento social.
“Essas medidas de proteção podem desgastar a popularidade dos governantes”,explica.
Outra surpresa foi a taxa de letalidade, calculada levando em conta o número total de infectados. Os pesquisadores estimaram, já considerando a subnotificação, uma taxa de 1,7 mortes a cada mil infectados – uma das menores do mundo.
- “Observamos que o Sars-CoV-2 no Maranhão foi muito transmissível e menos virulento”, explica Silva.
- “Estamos nos preparando agora para fazer uma análise genética desse vírus.
- Nossa hipótese inicial é que talvez tenha predominado no Maranhão uma cepa diferente, menos letal do que em outras regiões”.
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- Já no fim de abril, o sistema de saúde colapsou na capital, e a taxa de ocupação de leitos de UTI na rede estadual chegou a quase 100%.
- Nesta segunda-feira (31/07), a ocupação era de 74% em Imperatriz, segunda maior cidade do estado.
Os pesquisadores da UFMA
- estimaram 5.026 mortes por Covid-19 até dia 8 de agosto, levando em conta a subnotificação – até esta segunda-feira (31),
- contudo, a Secretaria de Saúde do estado havia registrado apenas 3.446 mortes.
No início deste mês, escolas privadas do Maranhão voltaram a oferecer aulas presenciais. Para Silva, entretanto, esse tema ainda precisa ser discutido com mais cuidado. O inquérito sorológico mostrou que
- crianças de 1 a 9 anos têm a mesma chance de se infectar que adultos.
- Nessa faixa etária, a prevalência foi de 42,6%, parecido com o encontrado entre jovens de 20 a 29 anos – 49,2%.
“Pessoas nessas faixas etárias se expõem mais e não têm qualquer garantia de proteção da doença.”
Mesmo que não desenvolvam um quadro clínico grave, qualquer criança ou jovem infectados podem transmitir o vírus.
“Nós, cientistas, não gostamos de usar nossa percepção pessoal quando analisamos um estudo”,conta Silva.
“Mas dessa vez o resultado de alta prevalência acabou confirmando a sensação que eu já tinha.”
Nos últimos meses, o pesquisador recebeu diariamente relatos de pessoas contaminadas que pediam algum tipo de orientação. Para lidar com uma população ansiosa por informações, Antônio da Silva começou a fazer, uma vez por semana,lives em seu Instagram pessoal. O tema é sempre o mesmo: o novo coronavírus.
E foi lá, em um espaço aberto a todos, que o pesquisador divulgou os dados do inquérito sorológico que coordenou e a interpretação de cada um deles. O vídeo, que trata de um tema relevante para os moradores do Maranhão, já teve mais de mil visualizações.
“É impressionante o número de pessoas que perguntam, que se interessam e trazem questionamentos”, conta. “A verdade é que não faz sentido produzir conhecimento sem disseminá-lo.”

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CAMILLE LICHOTTI