Bento XVI. Uma vida (3)

No dia 11 de Outubro de 1962, foi a inauguração solene do Concílio Vaticano II, o maior acontecimento em número de participantes na história da Igreja e de consequências mais significativas também – o general De Gaulle considerou-o o maior acontecimento do século XX.

 

De 133 países seguiram para Roma 2540 padres conciliares; o seu número ascendia a 2908, mas muitos não puderam comparecer. Pela primeira vez, houve mulheres convidadas e também observadores protestantes e ortodoxos.

  • Nos concílios anteriores, a finalidade era um tema concreto e para condenar heresias.
  • Neste, tratava-se doaggiornamento (actualização e abertura) da Igreja,
  • não para condenar, mas para ir ao encontro do mundo moderno, estabelecendo pontes.

Como disse João XXIII, para quem o Concílio devia ser um “novo Pentecostes”, a Igreja

“julga satisfazer melhor as necessidades de hoje mostrando a validade da sua doutrina do que renovando condenações”

Nos documentos conciliares, afirma-se que

  • a Igreja é Povo de Deus, a hierarquia vem depois;
  • afirma-se a colegialidade episcopal,
  • promove-se o apostolado dos leigos;
  • a revelação não é uma herança enregelada, mas viva e dinâmica;
  • reformou-se a liturgia e introduziu-se o vernáculo;
  • renovou-se a formação do clero;
  • afirmou-se a liberdade religiosa;
  • aprofundou-se o ecumenismo e o diálogo inter-religioso;
  • a Igreja é um serviço a toda a humanidade…

Pergunto a mim mesmo muitas vezes o que seria hoje a Igreja sem o Concílio.

A festa da abertura terminou com um acontecimento “inesquecível”, segundo Ratzinger. Ao anoitecer, uma multidão de meio milhão de pessoas com tochas na mão concentrou-se na Praça de São Pedro e, com o luar, formou uma cruz imensa. João XXIII veio à janela, acenando:

“Quando voltardes para casa, dai aos vossos filhos um beijo de boa noite e dizei: é um beijo de boa noite do Papa. Que saibam que o Papa, sobretudo nas horas mais tristes e duras, está junto dos seus filhos. Ele é um irmão que, por vontade de Nosso Senhor, se tornou pai.”

Os trabalhos conciliares começaram, e estava tudo preparado pela Cúria para que se mudasse alguma coisa ficando tudo na mesma.

À frente, o cardeal Ottaviani, o chefe da então Inquisição, que disse:

“Eu peço a Deus para morrer antes de o Concílio terminar, assim posso morrer católico.”

Mas um conjunto de cardeais da Europa Central e do norte

  • exigiu mudanças, liberdade para discutir livremente,
  • e começou a revolução conciliar que “mudou a Igreja para sempre”, escreve Peter Seewald, que acrescenta:

“O cardeal Frings, de Colónia, e o seu conselheiro Ratzinger viraram o Concílio.”

A revista Der Spiegel escreveu então que Frings, que era um conservador, tinha dado o tom no discurso de Génova.

“Nele, pela primeira vez na sua vida, disse que a Igreja

  • tinha de rever formas tradicionais, como o índex (dos livros proibidos), e a sua respectiva praxis,
  • pois as pessoas são tremendamente críticas e hostis contra todos os sinais totalitários de comportamento.
  • Exigiu também que se tinha de dar suma importância à ideia de tolerância, de atenção à liberdade dos outros.
  • E sublinhou ainda o tema que no Concílio afirmou como central: a Igreja precisa de uma intensificação do poder episcopal.”

O que a revista não sabia é que o texto completo do discurso provinha de Ratzinger.

Frings tornou-se “um herói”e Ratzinger, “o mais jovem perito da maior e mais importante assembleia eclesial de todos os tempos”, “uma estrela”. O Concílio terminou em 1965 e Ratzinger, com 38 anos, encontra-se no cume da carreira,

“tinha atingido tudo o que um professor pode querer: notoriedade, reconhecimento, influência”.

Em 1966, ascende à Universidade de Tubinga, “o Olimpo da teologia alemã”, onde reencontra o seu colega e amigo Hans Küng. Mas pouco depois deixa Tubinga, que troca por Regensburg (Ratisbona).

Que se passou? Este é o tema da próxima crónica.

De qualquer forma, em 1970, apontando para a Igreja do ano 2000, ainda se pronunciou de modo aberto sobre temas complexos, em relação aos quais voltaria atrás mais tarde.

  • A “Igreja tornar-se-á pequena. Com o número dos seus membros, perderá muitos dos seus privilégios…
  • Conhecerá também certamente novas formas do ministério e ordenará como padres cristãos que deram provas, que têm a sua profissão…  Juntamente com estes é indispensável o padre oficial como até agora.
  • O futuro da Igreja não virá daqueles que só têm receitas…
  • O processo será longo e difícil…, mas de uma Igreja interiorizada e simples sairá uma grande força.
  • Porque as pessoas num mundo totalmente planificado sentir-se-ão indizivelmente sós.
  • Com o desaparecimento de Deus, experimentarão a sua total e terrível pobreza.
  • E descobrirão então a pequena comunidade dos crentes como algo completamente novo.
  • Como uma esperança, como uma resposta pela qual secretamente sempre suspiraram, como pátria que lhes dá vida e esperança para lá da morte”.

Também o celibato foi um tema debatido:

“Por um lado, a defesa do celibato, mas, por outro, deixar a questão em aberto.”

Quanto era para ele importante o tema da ordenação dos chamados viri probati (homens de fé provada, casados ou não), mostra-se numa carta de 1971:

“Ouço dizer que os bispos alemães se terão pronunciado contra; infelizmente, pois parecia-me ser o caminho para, com sentido e sem quebra da tradição, criar novas possibilidades.”

Em 1972, Ratzinger manifestou-se também aberto a novas soluções para a possibilidade da comunhão para divorciados recasados.

(Continua)

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Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia

Fonte:  https://www.dn.pt/edicao-do-dia/22-ago-2020/bento-xvi-uma-vida-3-12542678.html?target=conteudo_fechado

 

 

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