
Eduardo Rodrigues, Idiana Tomazelli, Daniel Weterman e Adriana Fernandes,
Foto: Pedro França/ Agência Senado – 22 Julho 2020
Na primeira fase da reforma tributária enviada ontem ao Congresso, o governo propôs uma alíquota única de 12% para a Contribuição Sobre Bens e Serviços (CBS), que será criada a partir da unificação do PIS/Cofins, mas manteve uma tributação menor para os bancos, que pagarão 5,8%.
Já as receitas de prestação de serviços de transporte público coletivo municipal de passageiros,
- como rodoviário, metroviário, ferroviário e aquaviário,
- que mexem com a vida da população,
- ficarão isentas.
Pessoas jurídicas que não exercem atividade econômica ficaram isentas da incidência do novo tributo sobre suas atividades típicas.
São os casos de
- igrejas,
- partidos políticos,
- sindicatos,
- fundações,
- entidades representativas de classe,
- serviços sociais autônomos,
- instituições de assistência social.
Por outro lado,
- as empresas que prestam serviço para o consumidor final e são intensivos em mão de obra,
- como educação, segurança, informática, telecomunicações, hotelaria, transporte aéreo,
- deverão ter aumento de carga tributária porque têm poucos créditos para serem compensados.
Isso significa que
- caso a proposta seja aprovada da forma como está
- pode haver aumento no preço de serviços, como mensalidade escolar e consultas médicas.
A razão é que
- o custo maior da mão de obra não gera crédito para ser compensado no modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA), que será adotado com o CBS.
- Nessa sistemática, os créditos poderão ser usados pelas empresas para diminuir o valor a pagar, o que não acontece hoje.
- Esses setores já se movimentam para barrar o aumento da carga tributária.
O secretário especial da Receita Federal, José Barroso Tostes Neto, bateu na tecla de que o princípio é manter estável a carga tributária “global”, sem ganhos de arrecadação para o governo.
“A diretriz do ministro Paulo Guedes é não haver aumento de carga tributária”,
afirmou.
Em 2018, o PIS-Pasep e a Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) arrecadaram R$ 310 bilhões, de um total de R$ 1,54 trilhão de todos os tributos federais no período, segundo dados da Receita Federal.
Essa é só a primeira fase da reforma tributária.
A ideia do governo é fazer outras etapas, incluindo a criação de um novo tributo, nos moldes da antiga CPMF,
- para bancar o desejo do ministro da Economia, Paulo Guedes, de reduzir os impostos que as empresas pagam sobre a folha de salários (a chamada desoneração)
- e impulsionar o emprego.
Com o envio da proposta do governo, a expectativa é que a tramitação da reforma, considerada a mais importante para o crescimento depois da pandemia da covid-19, possa deslanchar no segundo semestre.
O temor com repercussão negativa no Congresso e junto à população
- levou o governo a desistir de acabar com a isenção dos produtos da cesta básica,
- medida que levaria ao aumento de preços.
Urgência
Para acelerar a votação, um despacho do presidente Jair Bolsonaro pede regime de urgência na tramitação, o que pode indicar que
- o governo vai buscar aprovar o projeto
- antes das propostas de mudança constitucional
- que já tramitam no Congresso e são mais abrangentes.
Estados e municípios, porém, já avisaram que querem uma reforma ampla, que inclua também o ICMS (imposto estadual) e ISS (imposto municipal).
Na apresentação da proposta, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que está nas mãos do Congresso fazer ou não mudanças tributárias para Estados e municípios.
“Não posso invadir território de prefeitos e governadores falando de ISS e ICMS”,
disse ele, que sempre defendeu a aprovação primeiro do IVA federal.
Os Estados e municípios, no entanto, não querem a aprovação separada. O presidente do Consefaz, colegiado que reúne os secretários de Fazenda dos Estados, Rafael Fonteles, do Piauí, disse que a proposta de Guedes vem “somar” às PECs de reforma.
“Os Estados já manifestaram que querem fazer uma reforma mais ampla, o governo disse que não se opõe”,
disse ele, que aposta na aprovação do texto em primeiro turno na Câmara ainda em 2020.
O secretário especial da Receita disse que
- a aprovação do projeto de lei primeiro
- não inviabiliza o avanço das duas propostas de Emenda Constitucional que já tramitam no Congresso.
Buscando convergência com Guedes, depois de uma série de atritos, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), defendeu a discussão da proposta da reforma tributária “com base no que está redigido” e criticou setores que falaram contra o projeto antes mesmo de conhecer sua íntegra. “É muito importante que a gente possa discutir com base no que está redigido nas propostas”.
Bancos
A assessora especial do Ministério da Economia Vanessa Canado, que trabalhou na proposta de reforma, disse que
- a alíquota paga por bancos aumentou em relação ao que é hoje (4,65%)
- e que há dificuldades técnicas na cobrança de impostos das instituições financeiras.
“Há limitações técnicas para a tributação de instituições financeiras. O valor agregado apurado por uma instituição financeira não pode ser apurado por meio de um sistema de débito e crédito como na cadeia de circulação de bens e serviços”,disse.
Especialistas, porém, têm dúvidas
- se a carga dos bancos não pode acabar ficando menor,
- já que eles terão um série de deduções maiores que poderão ser feitas, reduzindo o imposto a pagar.
Ex-secretário-adjunto da Receita, Paulo Ricardo Cardoso disse que
- não vê fundamentação técnica para tributar os bancos em 5,8%
- e as demais empresas em 12%.
Com as deduções, ressaltou, não se sabe ao claro qual o tamanho da carga tributária dos bancos.
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As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.