
Laura Montanari – 11 Julho 2020 – Imagem: Daqui
“A herança do Covid19 nos diz que “a Natureza não é um recurso para desfrutar e que a escola e a saúde pública devem estar o centro da soiciedade” , disse o psicanalista Massimo Recalcati, em sua intervenção desta sexta feira, último dia dia do evento “Repubblica delle Idee”: uma reflexão sobre o que passamos e sobre onde encontraremos os caminhos a seguir.
A reportagem é de Laura Montanari, publicada em La Repubblica, 10-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Voltamos para o lado de fora [na Itália], caminhando pelas ruas, mas com máscara e distâncias. O que a Covid-19 deixou dentro de nós, como herança?
Esperamos diversas coisas. Esperamos não esquecer tudo logo. Isso também aconteceu depois do 11 de setembro. Devemos reencontrar o mais rápido possível o direito de não pensar e de dormir em paz. Em vez disso,
- seria uma tragédia na tragédia se não tivéssemos aprendido nada,
- se voltássemos a dormir como se nada tivesse acontecido.
Há pelo menos três imensas lições da Covid-19 que nos conviria não esquecer e herdar.
A primeira:
- não se pode reduzir a natureza
- a um mero recurso a ser explorado impunemente.
A segunda:
- não é possível que um país não tenha um sistema de saúde pública espalhado por todo o território
- e uma escola capaz de garantir educação, pesquisa científica e formação.
A terceira: a liberdade
- não pode coincidir com uma propriedade do indivíduo,
- não pode ser reduzida ao capricho de fazer o que se quer.
Sem a solidariedade, a liberdade é uma palavra vazia. A salvação ou é coletiva ou não pode existir.
De acordo com o Istat (Instituto Nacional de Estatísticas da Itália), o medo e a incerteza causados pela pandemia levarão a um colapso dos nascimentos até 2021. O que você acha?
Penso que o evento do nascimento
- envolve uma parte de confiança no futuro,
- e que, no tempo deste trauma coletivo, o horizonte do futuro inevitavelmente se contraiu.
Mas,
- para reaver o futuro, é necessário agir no presente com decisão.
- Por exemplo, permanecendo próximo dos últimos e dos mais frágeis economicamente;
- por exemplo, garantindo o direito ao trabalho. Sem trabalho, não há futuro.
Então, como podemos reagir após as ansiedades e a reclusão?
O risco será
- o de preferir o fechado, a proteção,
- a defesa ao aberto,
- à liberdade, à geração.
Era um risco já presente antes da Covid-19
- nas formas da pulsão securitária,
- da defesa das fronteiras,
- da sua militarização.
O símbolo do muro havia voltado a ser de grande atualidade de modo inquietante pelos Estados Unidos de Trump até os arames farpados de Orban.
O risco que eu vejo é uma acentuação da cultura do muro e da segregação.
A partir do seu observatório clínico, como estiveram as relações entre os casais no confinamento? Houve mais ou menos separações?
A proximidade, quando forçada, é sempre prejudicial ao desejo. Foi o que muitas vezes ocorreu. Ao mesmo tempo, porém, experimentamos que mesmo as relações a distância podem ser próximas.
E as famílias?
As famílias foram o lugar da resistência civil ao vírus.
- Supriram a ausência da escola,
- suportaram a angústia dos filhos,
- mantiveram aberta a esperança,
- suportaram materialmente condições de vida muitas vezes difíceis.
O que pode nos ajudar a retomar a normalidade que o vírus nos roubou: imaginar as férias, inscrever-se em um curso de ioga, ler um livro…? Como podemos reencontrar o equilíbrio que perdemos, o abraço com os amigos que nos falta?
Continuar distinguindo o essencial do não essencial. Porque essa foi outra lição do vírus que seria bom não esquecer tão cedo.
