
“A sabedoria que os mestres espirituais nos propõem consiste em não preencher a nossa vida com atividades, em não se preocupar com o que temos que fazer no dia seguinte, mas simplesmente em viver cada momento como se fosse o último“,
escreve Ademir Guedes Azevedo, padre, missionário passionista e mestre em teologia fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma.
Eis o artigo.
Creio que a dor mais profunda do ser humano é a de não sentir-se amado. A famosa ideia de progresso estabelece os padrões de felicidade que devemos alcançar para sermos reconhecidos.
- A sociedade moderna prega um progresso linear,
- mas não sabe onde quer chegar.
- Simplesmente avançamos, mas sem ter uma meta a alcançar.
Vivemos nos projetando em situações que ainda não existem. Deixamos de habitar com intensidade o presente.
A sabedoria que os mestres espirituais nos propõem consiste
- em não preencher a nossa vida com atividades,
- em não se preocupar com o que temos que fazer no dia seguinte,
- mas simplesmente em viver cada momento como se fosse o último.
Quero propor um estilo de vida alternativo. Inspiro-me na obra do espiritual Henri Nouwen intitulada Uma espiritualidade do viver. O texto segue a ordem: isolamento (solidão), comunidade (celebrar) e ministério (fazer).
Isolamento (solidão).
Tudo deve começar por aqui. Na solidão descobrimos o amor próprio. Inicialmente, devemos entender que não necessitamos da aceitação da sociedade para sermos felizes. Devemos nos amar como somos, com nossos dons e limites.
- O problema moderno é forçar-nos a entrar em padrões estabelecidos,
- como a moda, a cultura do consumo, o sistema financeiro
- que nos dá uma falsa sensação de liberdade, etc.
A solidão consiste num estilo revolucionário porque resgatamos o livre-arbítrio. As novas tecnologias, apesar das inúmeras vantagens, manipulam nossos dados e privacidade. As grandes empresas do vale do silício
- impõem sobre nós, cotidianamente, as suas propagandas que criam padrões de homogeneidade,
- fortalecendo assim a ditadura do igual. Neste sistema não há alternativas.
A solidão é crítica porque me faz tomar distância para refletir sobre o que realmente vale a pena.
Comunidade (celebrar).
Se é na solidão que descubro que sou amado independente dos padrões sociais de aceitação, então
- estar em comunidade se trata de viver a unidade na pluralidade,
- ou seja, celebrar juntos os dons de cada um, sem processos seletivos.
A dimensão social do ser faz parte da alma política de cada indivíduo. A convivialidade é algo intrínseco a existência humana. Quando dizemos comunidade nos referimos à capacidade de respeito incondicional que se deve prestar a cada pessoa.
- O sistema atual é excludente porque seleciona os mais fortes.
- Trata-se de um neodarwinismo disfarçado.
O desafio consiste em criar espaços comunitários mais celebrativos, nos quais se trabalhe a acolhida das diferenças, sem sufocar a identidade pessoal de cada um.
Ministério (fazer).
Este é o último passo, mas não menos importante, do estilo alternativo de vida que estamos propondo.
- Alguém que se descobriu amado
- e que aceita celebrar esta dádiva com as diferenças, sem impor nada,
- torna-se realmente um ministro sensível aos apelos da vida.
A dimensão do fazer não é um mero executar de atividades.
- Ministrar é o mesmo que servir. Como ministros deveríamos ser todos servos uns dos outros.
- A lógica que impera é aquela da gratuidade.
- Mais uma vez, tem-se aqui um contraste com a sociedade moderna, pois a mesma parte do pressuposto da eficiência e eficácia.
No entanto, um modelo de vida alternativo baseia-se no dom de si, ou seja, cada um é convidado a entrar em cena e contribuir com algo de bom, independente de seus limites humanos. Para despertarmos a tal dimensão deveríamos aprender a ter mais contato com a realidade da dor alheia.
É emocionante, por exemplo, ver em asilos os próprios idosos, a maioria esquecidos por seus familiares, servindo aqueles mais frágeis:
- uns ajudando a levar comida à boca,
- outros empurrando as cadeiras de rodas daqueles que não têm mais forças nos braços;
- e tantos outros exemplos que poderíamos citar.
Isso se trata de um fazer que humaniza.
Em outras palavras: o segredo está em experimentar aquilo que achamos desnecessário, pois não nos trará reconhecimento e produtividade. Mas é só nesta lógica que se encontra a felicidade.
Solidão que faz descobrir-me que sou amado, comunidade onde celebramos juntos esta dádiva e ministério que nos leva a servir na gratuidade, eis as três grandes colunas de sustentação de uma espiritualidade do viver.
E você, não acha que chegou o momento de olhar a vida a partir desta ótica?

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http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/600491-uma-espiritualidade-do-viver
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