Frei Bento Domingues, O.P. – 17.05.2020 – Fotos: Fátima cheia e Fátima vazia – Reprodução da internet
Esta crise obrigou-nos a parar. Mas suspeito que este medonho susto ainda não conseguiu alterar, em profundidade, a mentalidade geral.
- … os verdadeiros adoradores de Deus não são os que adoram em Jerusalém ou em Garizim, em Roma ou em Meca, em Fátima ou em Lourdes,
- mas aqueles que O adoram em espírito e verdade, dentro ou fora de qualquer igreja. O verdadeiro e sagrado templo da divindade é o ser humano, no acolhimento do outro como irmão.
1. Chegam-me de vários lados, com propósitos diferentes, notícias e comentários sobre
- o comportamento lamentável de algumas correntes do alto e baixo clero
- unidas no afrontamento das medidas recomendadas pela OMS
- e que a DGS e os governos impõem para evitar o contágio do covid-19.
Unidas também no declarado incitamento ao seu desrespeito, a nível nacional e internacional.
Essas movimentações ressurgem
- quando muita gente já se sente desesperada entre o apertado confinamento,
- o emprego perdido, a ronda da pobreza, a ameaça da morte
- e um futuro de pouca esperança.
A agitação de algumas tendências do clero revela, no entanto, outra conhecida e renovada motivação:
- atacar a pastoral do Papa Francisco
- para que as linhas mais inovadoras do seu pontificado e do seu estilo morram e sejam enterradas com ele.
Procura-se fazer acreditar que Bergoglio
- é um instrumento das forças que desejam acabar com a prática religiosa, já muito enfraquecida, numa Europa laicizada.
- É preciso estar em sintonia com maçónicos, comunistas e ateus para proibir missas abertas ao público e impedir as grandes e tradicionais manifestações da fé católica.
Este Papa, dizem os seus adversários,
- acaba sempre por fazer o jogo dos inimigos da Igreja,
- transformando-a numa banal associação filantrópica com igrejas de portas fechadas.
Para a grande maioria dos católicos,
- a relevância do exibicionismo desse clero, com mitra ou sem mitra,
- depende, em grande parte, do acolhimento que lhe é dado em certos meios de comunicação
- e não pela sua real representatividade.
Por mim, não posso deixar de louvar a coragem do Bispo de Leiria-Fátima — em harmonia com a Conferência Episcopal — pela atitude exemplar, em relação à maior manifestação da religiosidade popular de Portugal e do Ocidente.
Mostrou, pela sua decisão, que
- para Jesus Cristo
- a maior glória de Deus é o cuidado com a saúde e a vida dos seres humanos.
Esse cuidado vale mais do que o cumprimento literal de todas as promessas e sacrifícios. Deus lê nos corações e o mal pede mais combate inteligente do que teologuemas sacrificiais, que insultam piedosamente o infinito mistério que envolve a nossa condição.
O Bispo António Marto tornou-se testemunha do sentido, para o nosso tempo, do célebre diálogo de Jesus com a Samaritana junto ao poço de Jacob [1]:
- os verdadeiros adoradores de Deus não são os que adoram em Jerusalém ou em Garizim, em Roma ou em Meca, em Fátima ou em Lourdes,
- mas aqueles que O adoram em espírito e verdade, dentro ou fora de qualquer igreja.
O verdadeiro e sagrado templo da divindade é o ser humano, no acolhimento do outro como irmão.
Com esta observação, não estou a desvalorizar a importância dos espaços sagrados nem a simbologia do calendário das celebrações da fé cristã. O espaço, o tempo e a itinerância são dimensões fundamentais da nossa condição que não pode prescindir da linguagem de ritos sagrados e profanos.
Participei, muitas vezes, no 13 de Maio na Cova da Iria e nunca senti nada de tão comovente como a imensa Procissão das Velas e do Adeus, ambas completamente inúteis, como são os grandes poemas e como é este:
- o de um povo sofrido que não desiste nem de partir nem de regressar.
- Fátima é o barco e o cais das nossas reais e míticas viagens na escuridão do mundo [2].
2. Vivemos na civilização da velocidade, da pressa em chegar sempre antes do outro.
Esta crise obrigou-nos a parar. Mas suspeito que este medonho susto ainda não conseguiu alterar, em profundidade, a mentalidade geral. Continuamos a perguntar quando poderemos regressar à vida normal.
- Aquilo a que chamamos vida normal já mostrou, nesta calamidade,
- as suas estruturais anormalidades semeadas de velhas e novas desigualdades vergonhosas.
E surge a pergunta: o que é possível e desejável fazer para acudir ao presente e preparar um futuro viável?
As retóricas descrições de tudo o que está mal — à vista de quem quiser ver — e as retóricas das receitas prontas a resolver todos os problemas parecem-me que confiam demasiado no poder mágico das palavras. A eficácia da linguagem performativa é de outra ordem.
Fazer coincidir a rapidez do dizer com o acontecer das transformações sociais pertence à ordem do milagre, pouco frequente, no devir da natureza, da cultura e da investigação.
- Os sistemas autoritários pretendem substituir, pelo quero, posso e mando,
- a lentidão das decisões democráticas de consensos alargados.
No entanto, se as democracias se perderem na exibição de labirínticas discussões clubísticas acabam por cansar os cidadãos que reclamam e esperam resultados, em todos os domínios, para a construção do bem comum.
- Será possível combinar as respostas às urgências maiores da população mais pobre
- e ir alterando o sistema económico dominante e insustentável,
- assente na exploração ilimitada de recursos limitados e em perpetuar escandalosas desigualdades sociais?
Há quem pense que é este o tempo certo para delinear futuras estratégias económicas baseadas na tríade inseparável:
- biodiversidade,
- alterações climáticas
- e saúde pública [3].
3. Perante a tragédia que estamos a viver e pensando no futuro, é recorrente a expressão, nada pode continuar como dantes.
- Quem assim fala manifesta vontade de mudança, de conversão.
- Quem, pelo contrário, não quer perder a vida altamente privilegiada de que disfruta,
- até da crise procura servir-se para alargar os seus injustificados privilégios.
Em 2015, o Papa Francisco publicou a encíclica Laudato Si sobre o cuidado da Casa Comum que inscreveu no movimento ecológico mundial.
- É um documento minucioso e abrangente que mostra a raiz humana da crise ecológica,
- fruto e causa de muitas outras crises.
A ecologia integral que propõe envolve múltiplas dimensões:
- ambientais, económicas, sociais e culturais, vida quotidiana,
- seguindo sempre o princípio do bem comum e da justiça intergeracional.
Não se limita aos aspectos doutrinais. Apresenta também linhas de orientação e acção, para vencer a indiferença geral e os obstáculos levantados pelos interesses insensatos dos poderosos.
Nada disto, porém, é possível
- sem uma autêntica conversão ecológica
- e uma espiritualidade que alimente a paixão pelo cuidado do mundo e não pela sua dominação destruidora.
Por outro lado, para chegar à conversão ecológica é indispensável a conversão do desejo distorcido. Quem deseja tudo para si próprio só pode ver, nos desejos dos outros, rivais a dominar ou abater. Não sente alegria com a diferença.
[1] Jo 4,1-42.
[2] Frei Bento Domingues, A Religião dos Portugueses, Temas e Debates – Círculo de Leitores, 2018; ver também Anselmo Borges, Fátima e a covid-19, in PÚBLICO, 13.05.2020.
[3] Maria Amélia Martins-Loução, O tempo certo, in PÚBLICO, 26.04.2020.
Frei Bento Domingues
Fonte: https://www.publico.pt/2020/05/17/opiniao/opiniao/conversao-ecologica-desejo-distorcido-1916701


