
Bruno Desidera, 03/03/2020 – Tradução: Orlando Almeida
Em 2032, no Brasil, Igreja Católica deverá ser ultrapassada pelas igrejas pentecostais e evangélicas.
Entre as causas desse acontecimento, o individualismo crescente nas periferias, a crise econômica, o aumento das desigualdades sociais: segundo estas igrejas, uma pessoa só se salva de todos estes problemas pelos seus próprios méritos pessoais, independentemente das dinâmicas associativas e comunitárias.
Para esclarecer o que está acontecendo, o Sir1 entrevistou três especialistas: o teólogo Rodrigo Coppe Caldeira, o historiador Gianni La Bella e o padre Geraldo Ferreira Bendaham, coordenador da Pastoral da Arquidiocese de Manaus.
O ano “previsto” é 2032. Nessa data, se a tendência atual continuar, no Brasil, as igrejas evangélicas e pentecostais deverão ultrapassar a Igreja Católica. Essa é a hipótese formulada por um estudo do DataFolha publicado recentemente.
Segundo a pesquisa, o catolicismo ainda está no topo do ranking, com cerca de 50% da população, mas o número dos seus fiéis continua em declínio. Por outro lado, os evangélicos continuam a crescer e atingem 31%. A área com a maior porcentagem de católicos é o Nordeste do país, enquanto que os evangélicos, além de uma forte presença no Sudeste e no Centro-Oeste, triunfam no Norte (ou seja, nos Estados da Amazônia), onde atingem 39% .
Na realidade,
é difícil dar os “números certos”; mas a tendência é indiscutível
e certamente este é um dos assuntos abordados nestas últimas semanas durante as visitas ad limina dos bispos brasileiros.
- Quais são, então, as causas deste crescimento que parece imparável?
- E a Igreja, como é chamada a responder a esse desafio?
O Sir perguntou-o a alguns especialistas no assunto.
O individualismo cresce nas periferias
Rodrigo Coppe Caldeira
O teólogo Rodrigo Coppe Caldeira, especialista na área de temas e de fenômenos religiosos e professor da Universidade Católica de Minas Gerais explica:
“A que estamos assistindo agora
- é a terceira onda evangélica que atinge o Brasil,
- após a primeira no início do século XX, que se direcionou essencialmente para o Sul,
- e a segunda, que remonta aos anos cinquenta do século passado.
Essa terceira onda, iniciada na década de 1970, prosperou devido às mudanças sociais que, nesse meio tempo, ocorreram no Brasil.
- As áreas-chave desse sucesso são constituídas pelas periferias das grandes cidades.
- Aqui, a assim chamada ‘teologia da prosperidade’, dirigida sobretudo ao indivíduo,
- seduz as pessoas que vivem no entorno das metrópoles”.
O teólogo cita pesquisa realizada entre 2016 e 2017 pela fundação Perseu Abramo, ligada ao Partido dos Trabalhadores, nos arredores de São Paulo. Segundo o estudo,
- a fase de crise econômica que se seguiu aos anos de crescimento
- fez surgir uma mentalidade individualista, baseada no mérito,
- em detrimento da atenção às dinâmicas associativas e comunitárias.
E é justamente neste contexto que as igrejas pentecostais ganham espaço, reflete Coppe Caldeira, também diante de “certa fragilidade institucional da Igreja Católica, a partir da presença sacerdotal”, que se torna mais evidente no Norte e nos Estados da Amazônia, outras zonas de expansão das “novas” igrejas.
O maior desafio para os católicos.
Gianni La Bella
O professor Gianni La Bella, professor de História contemporânea na Universidade de Modena e Reggio Emilia, especialista em questões latino-americanas tanto devido à sua pesquisa acadêmica como ao seu compromisso com a Comunidade de Santo Egídio, também acredita que o representado pelos pentecostais é
“o maior desafio que está enfrentando a Igreja Católica Brasileira”.
Obviamente, adverte o professor,
“a questão é complexa até porque esta galáxia que chamamos de evangélica ou pentecostal é, na realidade, difícil de definir e de quantificar.
Trata-se de uma realidade em evolução, que passou das ‘mega-igrejas’, das grandes estruturas de alguns anos atrás, para as
‘igrejas portáteis’ que agora estão se espalhando, igrejas de proximidade, informais e pequenas, quase familiares”.
Para La Bella,
“é no entanto indubitável o crescimento destas realidades em toda a América Latina. Em algumas áreas da América Central, particularmente em Honduras, acredito que a ultrapassagem sobre os católicos já aconteceu”.
Apresentam-se como “solução para problemas”.
Padre Geraldo Ferreira
Completa o “diagnóstico” o padre Geraldo Ferreira Bendaham, coordenador da Pastoral da Arquidiocese de Manaus, a metrópole que surge no coração da Amazônia, um dos lugares onde o crescimento dos pentecostais é mais tumultuoso:
“É necessário distinguir, há certamente evangélicos que vivem realmente a fé em Jesus Cristo e as suas implicações práticas e estão longe de uma fé alienada ou manipulada por pastores políticos-empresários, que transformam a religião em numa atividade econômica”.
Para o padre, em qualquer caso, o crescimento dos evangélicos pentecostais deve-se a algumas constantes:
“Em primeiro lugar, o aumento das desigualdades sociais deu origem a uma massa de pessoas pobres que se tornam o público de referência da pregação de muitas igrejas pentecostais, que, enquanto o governo está ausente, se apresentam como a solução para todos os problemas.
Estas igrejas também
- usam muito a mídia e as novas linguagens,
- têm uma grande disponibilidade financeira,
- aplicam à religião as regras do marketing
- e funcionam como empresas que oferecem aos ‘clientes’ o ‘produto’ que eles esperam, com retorno imediato.
Além disso, para os líderes e para os pastores, é suficiente uma formação teológica mínima e rápida”.
Diante de tudo isso,
“há uma Igreja Católica que às vezes não tem profundidade, que acaba por preparar o terreno para os evangélicos, ou é fechada em si mesma e distante”.
Retorno a Aparecida e nova temporada laical.
Como pode, então, a Igreja responder a este desafio, parcialmente evocado também durante o recente Sínodo? Para La Bella,
“é necessária uma estratégia orgânica que vá além da lamentação. A Conferência do Episcopado Latino-Americano de Aparecida terminou com um convite à Missão Continental. É preciso recomeçar dali, questionando-se o que significa hoje ser ‘Igreja em saída’ em três grandes contextos:
- primeiro as enormes periferias urbanas;
- depois o mundo indígena-amazônico, protagonista do recente Sínodo;
- por fim também o mundo rural, que ainda continua sendo uma realidade fundamental no continente”.
Quando lhe dizemos que, depois do Sínodo para a Amazônia, talvez fosse necessário um sínodo para grandes realidades urbanas, o historiador concorda:
“Sim, seria necessário um sínodo para as megalópoles, onde a própria base paroquial entra em crise e conta até certo ponto”.
E, além disso, há outras dimensões que deveriam ser aprofundadas:
“Penso
- no papel dos santuários e da religiosidade popular,
- na necessidade de um catolicismo que não seja apenas apresentado ‘racionalmente’,
- mas que responda ao ‘desafio da emoção’, dentro da cultura emocional em que vivemos”.
Sobretudo, também à luz da exortação Querida Amazônia,
“o desafio passa por uma nova mobilização dos leigos, por uma ideia eclesiológica nova. E num novo enraizamento entre humildes e pobres, colocando no centro o ‘nós’, em contraposição aos pentecostais que põem no centro a dimensão do ‘eu’; neste sentido a deles é uma religião meritocrática”.

Bruno Desidera


