
Foto: O primeiro ministro da Índia, Narendra Modi, e Jair Bolsonaro durante cerimônia do Dia da República da Índia. Foto: Alan Santos/PR.
Em 20 anos, o cenário mudou radicalmente. A Índia, assim como o Brasil, foi “da esperança ao ódio” em queda livre. Passou de grande potência democrática a um regime autoritário, que proíbe manifestações e persegue a imprensa livre – a imprensa é chamada de “presstitute”.
NA VIRADA DO MILÊNIO, tendo a Índia como inspiração, o economista indiano e prêmio Nobel Amartya Sen escreveu um artigo no prestigioso Journal of Democracy sobre como a democracia se tornava um valor universal. Era uma fase de otimismo, quando economias emergentes despontavam como grandes promessas democráticas.
Para Sen,
- junto com o consistente crescimento econômico,
- a Índia estava sabendo tratar as diferenças políticas dentro dos parâmetros constitucionais,
- e os pleitos eleitorais garantiam a alternância de poder.
O país superava o enorme desafio de lidar com sua diversidade de linguagens e religiões.
O problema da exploração da fé por políticos sectários estava sendo contornado. Mas Amartya Sen alertava que
- a prosperidade do país dependia da estabilidade religiosa
- – além de hindus, a Índia tem a terceira maior população islâmica do mundo, além de cristãos, budistas, siques, parsis e jainistas. Touché.
Em 20 anos, o cenário mudou radicalmente. A Índia, assim como o Brasil, foi “da esperança ao ódio” em queda livre.
Passou de grande potência democrática a um regime autoritário, que proíbe manifestações e persegue a imprensa livre – a imprensa é chamada de “presstitute”.
O mesmo Journal of Democracy agora traz um artigo argumentando que,
- ainda que o país mantenha eleições regulares,
- todo o restante que constituiria uma “democracia liberal” se esvaeceu,
- como a garantia da liberdade ao debate e o funcionamento equilibrado das instituições.
A professora Nikita Sud, da Universidade de Oxford, vai mais longe e diz que os fatos recentes questionam o status democrático e acenam ao autoritarismo.
- Vozes que contestam o regime do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, são chamadas de traidoras, inimigas da nação, anti-Índia.
- Mais grave ainda é o estado legitimar massacres de turbas nacionalistas contra minorias religiosas, especialmente muçulmanas.
Em 72 anos de independência, o país vive uma de suas mais profundas crises. Só nos últimos dias, foram mais de 40 mortos e milhares de feridos.
Em recente entrevista para a revista New Yorker, o próprio Sen realiza uma jornada autorreflexiva sobre as transformações da Índia e o que teria dado errado. Consternado, ele comenta que
- hoje a maioria de seus amigos tem medo de se comunicar pelas redes sociais por serem vigiados.
- Ainda sem respostas fechadas sobre a crise democrática, ele acredita ter subestimado a importância da secularização nas democracias.
Em uma reportagem do Guardian sobre como supremacistas hindus estão dividindo a Índia, a cientista política Niraja Jayal afirma que,
- como seria impossível expulsar milhões de pessoas do país,
- o governo agora tenta consolidar o papel de subordinação dos muçulmanos.
Essa unificação imposta de cima para baixo
- não entrega o desenvolvimento econômico almejado por todos,
- mas responde ao ideal de uma comunidade hindu pura, limpa e paternal.
- O que está em jogo nessa arbitrariedade, em última instância, é o desejo de decidir quem pode e quem não pode ser indiano.

Foto: Jewel Samad/AFP via Getty Images
Modi e a pureza étnica
A violência religiosa não é nova na Índia. Massacres ocorreram em 1984 e 2002. No último, mais de 1 mil pessoas (800 muçulmanas) morreram. Na época, Modi era governador de Gujarat, no oeste da Índia, e é acusado de ter incentivado os ataques. Como em 2002, a atual onda de violência também está sendo legitimada pelo governo, encabeçado por Modi, o que torna a situação atual grave e inédita.
- A derrocada democrática na Índia começou em 2014, com a eleição de Narendra Modi, do Partido Bharatiya Janata, o BJP, de orientação nacionalista hindu.
- Uma tese que avaliei na Universidade de Oxford (não citarei o autor por razões de segurança), feita com base em pesquisa etnográfica em uma sede do BJP,
- não deixa dúvidas que a Índia foi pioneira na instalação de um “gabinete do ódio”, especializado em espalhar notícias falsas e memes discriminatórios e que incitam a violência contra inimigos internos, principalmente esquerdistas e muçulmanos.
Como no Brasil, muitos se perguntam quem são os eleitores de Modi e do BJP e se surpreendem em ver o quanto de gente que saiu do armário e passou a falar sem medo sobre os “infiltrados da nação”.
Assim como Bolsonaro, o primeiro-ministro ocupou o debate público, na primeira eleição, com um discurso contra a corrupção, tendo como alvo os escândalos da administração anterior.
Como analisa a professora Nikita Sud,
- Modi é obcecado pela ideia de limpeza:
- das ruas da capital Délhi, da corrupção e da questão ética,
- reproduzindo o fanatismo brâmane por pureza.
Nada mais anti-Índia do que a era Modi: a “Nova Índia” é hindu, com religião e linguagem única e não celebra sua diversidade étnica e cultural.

Um parente de Rahul Thakur, 23 anos, que morreu nesta semana nos ataques de gangues extremistas na capital Nova Délhi, antes da cremação do jovem. -Foto: Money Sharma/AFP via Getty Images
O estopim para o massacre
Em 2019, o parlamento indiano aprovou uma emenda à lei de 1955, que garantia cidadania a imigrantes de diversas minorias religiosas, sem discriminá-las – a lei significou um passo importante no sonho de construir uma Índia diversa e não dividida.
A emenda deu um passo atrás ao excluir a cidadania a muçulmanos oriundos do Paquistão, Bangladesh e Afeganistão.
Como resposta à emenda, a população reagiu.
- Foram mais de 70 dias de protestos pacíficos, em grande parte liderados por mulheres e jovens indianas, que reinventam a cena da resistência no país.
- Mas a polícia reprimiu com violência: cortou sinal da internet nas ruas, prendeu e bateu nos manifestantes.
- O governador de Uttar Pradesh, Yogi Adityanath, pediu “revanche” contra quem foi às ruas.
De um lado, há protestos. De outro, há ataques brutais contra quem protesta. Mas, como é bem conhecido por nós brasileiros, a narrativa da mídia hegemônica nem sempre discute a assimetria.
- Há uma insistência em retratar os eventos como “confrontos” da “polarização”,
- enquanto acadêmicos e ativistas não têm dúvida de que se trata de um massacre unilateral de grupos supremacistas contra minorias.
A leniência e incentivo do estado indiano a todo esse horror são um fato. Cotidianamente, autoridades dão depoimentos incendiários e já há infindáveis registros que mostram a polícia observando e sendo cúmplice dos massacres.
Os mais recentes, dos últimos dias, têm ocorrido em Délhi, que está com as emergências de hospitais lotadas.
- Encapuzados atacam homens e mulheres sozinhos.
- Colocam fogo em pessoas.
- Lincham-nas, quebram suas mãos e membros,
- chamam-nas de traidores e inimigos enquanto gritam “Jai Shri Ram”, slogan nacionalista.
Também há muitos registros de linchamento de pessoas comendo carne de gado (já que a vaca é um animal sagrado para os hindus) e depredação de casas e mesquitas.
Sem entregar a promessa econômica, os supremacistas insistem em viver do ódio.
- Um ataque emblemático ocorreu início de janeiro, na Jawaharlal Nehru University, a JNU, uma das mais tradicionais, críticas e progressistas universidades da Índia, que desperta o ressentimento dos nacionalistas.
- Cerca de 60 homens entraram encapuzados no campus, com pedaços de pau, gritando “atirem nos traidores”.
- As câmeras filmaram tudo, inclusive a polícia deixando os agressores agirem.
As turbas são milicianas. Seus sujeitos pertencem à organização não partidária nacionalista Rashtriya Swayamsevak Sangh, a RSS, que busca arquitetar um estado-nação hindu. Fundada em 1925 por membros ligados ao fascista italiano Benito Mussolini, hoje, estima-se, tem 6 milhões de filiados.
Um aspecto que me chama atenção em particular, por minha própria trajetória de pesquisa sobre a juventude bolsonarista, é o apelo que a RSS tem entre os jovens. Como mostra a investigação do jornalista Samanth Subramanian, Akhil Bharatiya Vidyarth Parishad, a ABVP, é a ala jovem da RSS que atua perseguindo outros jovens.
Interessante perceber que, por muito tempo, eles tinham vergonha de se mostrar e eram minoria na progressista JNU. Mas desde a virada do milênio, precisamente quando a extrema direita passa a se organizar no mundo e ganhar proeminência, eles começam a ganhar eleições em diretórios.
Os paralelos com minha pesquisa e de Lucia Scalco sobre juventude periférica em Porto Alegre são reveladores e merecem um futuro aprofundamento. Por ora, basta notar que
- tanto a figura empresarial de Modi
- quanto a organização miliciana
- têm atraído milhões de jovens homens desempregados por causa da recessão, um exército de frustrados sofrendo de uma dupla crise de provedor e masculinidade.
Esses homens se aliam à milícia e se radicalizam como vingança ao sonho de futuro interrompido. No Brasil, vimos o germe dessa atitude entre jovens que se aliaram ao bolsonarismo.
Isso ocorre justamente em uma época de baixo crescimento econômico – estima-se uma taxa de 5% este ano, a taxa mais baixa em 11 anos – e aumento significativo da pobreza.
- Em plena recessão, sem sinais de recuperação, diversos analistas notam que, para o governo Modi,
- polarizar é justamente o objetivo para manter as bases mobilizadas na política da inimizade interna.
Sem entregar a promessa econômica, os supremacistas insistem em viver do ódio – e qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.

Eles têm bastante em comum. Foto: Alan Santos/PR
Não é à toa que Bolsonaro foi o convidado no Dia da República da Índia em 2020. Os dois líderes têm muito em comum
- no discurso vazio anticorrupção,
- na incompetência econômica na promoção de desenvolvimento,
- no desrespeito às liberdades políticas e civis,
- na forma como lidar e deslegitimar a imprensa e os fatos científicos
- e, principalmente, a simpatia por grupos milicianos e paramilitares.
São autoritários que afundam seus países no obscurantismo e enterram o sonho de um mundo multipolar de economias emergentes e democráticas, as quais serviam de referência para o resto do mundo.
Num campo progressista que se pretende descolonial, discutir a situação do nossos irmão BRICS deve ser uma prioridade. Muitos fatos na Índia nos refletem como um espelho, outras nos ensinam importantes lições. Dentre as lições, destaco uma:
- a de que a reeleição de Modi em 2019
- teve impacto direto na escalada da violência
- e a subsequente legitimação da sanha autoritária do estado indiano.
Nota: agradeço à ajuda dos colegas e amigos Nikita Sud, Tatiana Vargas Maia e Fabrício Pontin na apuração deste texto.
