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O Anjo da História

  • 06/01/2020
  • 21:00
Resultado de imagem para O ANJO DA HISTÓRIA

Anselmo Borges, 04/12/20120 – Imagem e descrição :  Daqui

Angelus Novus (em português, ‘anjo novo) é o título latino de um desenho a nanquim, giz pastel e aquarela sobre papel, feito por Paul Klee em 1920. Atualmente faz parte da coleção do Museu de Israel, em Jerusalém.

Na nona tese do seu ensaio “Sobre o Conceito de História”, o filósofo e crítico literário Walter Benjamin, que adquiriu o desenho em 1921, escreveu: Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.

O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. 

Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.

 

 Terminados os festejos da passagem de ano e já no novo ano de 2020, é bom e mesmo urgentemente necessário parar para reflectir sobre o enigma maior do tempo.

É, que queiramos ou não, com a passar do tempo, somos confrontados com aquela arrasadora constatação do historiador e filósofo R. Wittram na sua obra Das Interesse an der Geschichte:

“A mim os grandes acontecimentos históricos do passado afiguram-se-me como cataratas geladas, imagens congeladas pelo gelo da vida que se foi e nos mantém à distância. Gelamos à vista dos grandes feitos:

  • reinos caídos,
  • culturas destruídas,
  • paixões apagadas,
  • cérebros mortos.

Se tomamos isto a sério, podemos sentir que nós, historiadores, temos uma ocupação bem estranha: habitamos na cidade dos mortos, abraçamos as sombras, recenseamos os defuntos”.

Por isso, a questão do tempo é também a questão de Deus; por outras palavras, perguntar pelo tempo é perguntar por Deus. De facto, como questionava Theodor Adorno, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt,

  • como se poderia falar de reconciliação à maneira do sonho marxista, por exemplo,
  • se ela valesse apenas para os vindouros, numa sociedade realizada e sem conflitos?

Nessa situação, o que seria de todas as vítimas da injustiça da História e de todos os mortos do passado?

O tempo com final, na perspectiva bíblico-cristã, é o tempo da esperança na salvação de Deus para todos. Aquele Deus de quem o teólogo Karl Rahner disse que é “o Futuro Absoluto”,

  • Futuro de todos os passados,
  • Futuro de todos os presentes,
  • Futuro de todos os futuros,
  • na consumação e plenitude da existência de todos os homens e mulheres de todos os tempos.

 

O anjo da história

Também o grande filósofo, Walter Benjamin, um marxista especial, de raiz judaica, perseguido pelo nazismo, se confrontou com o mesmo enigma. Na célebre tese 9 do seu ensaio Sobre o Conceito de História, escreveu:

“Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus.

  • Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente.
  • Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas.
  • O anjo da História deve ter este aspecto.

Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés.

  • Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído.
  • Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar.

Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas. Enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.”

Sim, o progresso faz vítimas e assenta sobre vítimas, como, numa entrevista recente a José Manuel Vidal, Director de Religión Digital, veio relembrar, a propósito do seu novo livro, El tiempo, tribunal de la historia, o filósofo Manuel Reyes Mate, discípulo do filósofo e teólogo Johann Baptist Metz, que aqui referi recentemente, por ocasião do seu falecimento:

“A História da Humanidade é uma história de progresso lento sobre muito sofrimento causado. O progresso mata e exige vítimas. Que sobre as vítimas se construiu a História sabemo-lo, mas tornámo-las invisíveis, no sentido de que não lhes demos importância.”

E relembra também os tempos da sua juventude, com a esperança messiânica e dois messianismos.

  • “O marxismo era um guia para muita gente. Hoje não é guia para quase ninguém, mas também não existe nada que o substitua, e há um grande vazio.
  • O que agora existe é uma grande inesperança/desesesperança.
  • Na altura, havia futuro: era uma sociedade que, apesar dos problemas, tinha futuro e tinha projectos de longo alcance,
  • simbolizados pelo cristianismo e pelo marxismo.

Hoje, a sociedade vive na e da imediatidade, sem projectos.”

Deste modo, percebe-se o estado em que se encontra a política.

  • “A política não tem apenas de resolver o dia a dia; tem de oferecer um horizonte de esperança à Humanidade.
  • Mas, para isso, não pode renunciar às grandes perguntas.
  • E as grandes perguntas têm a ver com a morte, com o sofrimento e com a injustiça.
  • Na medida em que a filosofia política renuncia a essas perguntas, a política, como dizia outro marxista, Max Horkheimer, converte-se num negócio.”

E voltamos a Walter Benjamin, que não renunciou ao messianismo.

  • Ele fala da teologia como “um anão feio e corcunda”, porque carrega com responsabilidades históricas, com erros e fracassos,
  • mas ela não esquece as grandes perguntas.

Precisamente por causa do sofrimento e das vítimas,

  • se a injustiça não pode ter a última palavra sobre a História,
  • é necessário fazer apelo à teologia, como reconheceram Max Horkheimer e Theodor Adorno,

sendo, no entanto, Benjamin que insistiu em que

  • a solidariedade com os mortos, concretamente com as vítimas inocentes,
  • não permitia conceber a História “ateologicamente”, sem teologia.

A crise do nosso tempo manifesta-se essencialmente no esquecimento e obturação das grandes perguntas, decisivas, perguntas metafísico-religiosas.

Assim, o que resta é uma cultura empobrecida e uma política reduzida a negócios, sem horizonte autenticamente humano. Depois, é o que se sabe, está à vista.

 

 

Anselmo Borges

Padre, teólogo, filósofo e escritor. Autor de: Deus e o Sentido da Existência, entre muitos outros. Esvreve, aos sábados, no Diário de Notícias, de Lisboa.

Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/o-anjo-da-historia-11669885.html

 

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