Anselmo Borges, 04/12/20120 – Imagem e descrição : Daqui
Angelus Novus (em português, ‘anjo novo) é o título latino de um desenho a nanquim, giz pastel e aquarela sobre papel, feito por Paul Klee em 1920. Atualmente faz parte da coleção do Museu de Israel, em Jerusalém.
Na nona tese do seu ensaio “Sobre o Conceito de História”, o filósofo e crítico literário Walter Benjamin, que adquiriu o desenho em 1921, escreveu: Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.
O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos.
Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.
Terminados os festejos da passagem de ano e já no novo ano de 2020, é bom e mesmo urgentemente necessário parar para reflectir sobre o enigma maior do tempo.
É, que queiramos ou não, com a passar do tempo, somos confrontados com aquela arrasadora constatação do historiador e filósofo R. Wittram na sua obra Das Interesse an der Geschichte:
“A mim os grandes acontecimentos históricos do passado afiguram-se-me como cataratas geladas, imagens congeladas pelo gelo da vida que se foi e nos mantém à distância. Gelamos à vista dos grandes feitos:
- reinos caídos,
- culturas destruídas,
- paixões apagadas,
- cérebros mortos.
Se tomamos isto a sério, podemos sentir que nós, historiadores, temos uma ocupação bem estranha: habitamos na cidade dos mortos, abraçamos as sombras, recenseamos os defuntos”.
Por isso, a questão do tempo é também a questão de Deus; por outras palavras, perguntar pelo tempo é perguntar por Deus. De facto, como questionava Theodor Adorno, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt,
- como se poderia falar de reconciliação à maneira do sonho marxista, por exemplo,
- se ela valesse apenas para os vindouros, numa sociedade realizada e sem conflitos?
Nessa situação, o que seria de todas as vítimas da injustiça da História e de todos os mortos do passado?
O tempo com final, na perspectiva bíblico-cristã, é o tempo da esperança na salvação de Deus para todos. Aquele Deus de quem o teólogo Karl Rahner disse que é “o Futuro Absoluto”,
- Futuro de todos os passados,
- Futuro de todos os presentes,
- Futuro de todos os futuros,
- na consumação e plenitude da existência de todos os homens e mulheres de todos os tempos.

Também o grande filósofo, Walter Benjamin, um marxista especial, de raiz judaica, perseguido pelo nazismo, se confrontou com o mesmo enigma. Na célebre tese 9 do seu ensaio Sobre o Conceito de História, escreveu:
“Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus.
- Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente.
- Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas.
- O anjo da História deve ter este aspecto.
Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés.
- Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído.
- Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar.
Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas. Enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.”
Sim, o progresso faz vítimas e assenta sobre vítimas, como, numa entrevista recente a José Manuel Vidal, Director de Religión Digital, veio relembrar, a propósito do seu novo livro, El tiempo, tribunal de la historia, o filósofo Manuel Reyes Mate, discípulo do filósofo e teólogo Johann Baptist Metz, que aqui referi recentemente, por ocasião do seu falecimento:
“A História da Humanidade é uma história de progresso lento sobre muito sofrimento causado. O progresso mata e exige vítimas. Que sobre as vítimas se construiu a História sabemo-lo, mas tornámo-las invisíveis, no sentido de que não lhes demos importância.”
E relembra também os tempos da sua juventude, com a esperança messiânica e dois messianismos.
- “O marxismo era um guia para muita gente. Hoje não é guia para quase ninguém, mas também não existe nada que o substitua, e há um grande vazio.
- O que agora existe é uma grande inesperança/desesesperança.
- Na altura, havia futuro: era uma sociedade que, apesar dos problemas, tinha futuro e tinha projectos de longo alcance,
- simbolizados pelo cristianismo e pelo marxismo.
Hoje, a sociedade vive na e da imediatidade, sem projectos.”
Deste modo, percebe-se o estado em que se encontra a política.
- “A política não tem apenas de resolver o dia a dia; tem de oferecer um horizonte de esperança à Humanidade.
- Mas, para isso, não pode renunciar às grandes perguntas.
- E as grandes perguntas têm a ver com a morte, com o sofrimento e com a injustiça.
- Na medida em que a filosofia política renuncia a essas perguntas, a política, como dizia outro marxista, Max Horkheimer, converte-se num negócio.”
E voltamos a Walter Benjamin, que não renunciou ao messianismo.
- Ele fala da teologia como “um anão feio e corcunda”, porque carrega com responsabilidades históricas, com erros e fracassos,
- mas ela não esquece as grandes perguntas.
Precisamente por causa do sofrimento e das vítimas,
- se a injustiça não pode ter a última palavra sobre a História,
- é necessário fazer apelo à teologia, como reconheceram Max Horkheimer e Theodor Adorno,
sendo, no entanto, Benjamin que insistiu em que
- a solidariedade com os mortos, concretamente com as vítimas inocentes,
- não permitia conceber a História “ateologicamente”, sem teologia.
A crise do nosso tempo manifesta-se essencialmente no esquecimento e obturação das grandes perguntas, decisivas, perguntas metafísico-religiosas.
Assim, o que resta é uma cultura empobrecida e uma política reduzida a negócios, sem horizonte autenticamente humano. Depois, é o que se sabe, está à vista.
Anselmo Borges
Padre, teólogo, filósofo e escritor. Autor de: Deus e o Sentido da Existência, entre muitos outros. Esvreve, aos sábados, no Diário de Notícias, de Lisboa.
Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/o-anjo-da-historia-11669885.html

