NÓS E O PADRE ANTHONY MUSAALA

Procurando evitar qualquer envolvimento emocional, gostaria de colaborar com umas poucas palavras acerca deste assunto que está mexendo com nossa comunidade de MFPC.
Primeiramente, vai aqui o nosso abraço para Padre Musaala, na certeza do nosso sacerdócio comum nos unir sempre, fazendo de nós uma comunidade que deseja caminhar, como Abraão, rumo a terras novas, porque as antigas já foram, exaustivamente, lavradas, apresentando-se cansadas e, consequentemente, pouco produtivas.
Padre Musaala sugere “o início de uma reflexão interna sobre o ‘fracasso do celibato entre os padres diocesanos’ “. Gostaria de lembrar que esta mesma reflexão já foi sugerida ao Papa João Paulo II, através da intervenção direta de Aloísio Cardeal Lorscheider, quando da visita do Papa a Fortaleza em julho de 1980. A resposta foi um ensurdecedor silêncio! A resposta do Arcebispo de Kampala, Cyprian Kizito Lwanga, é mais clara: mais uma vez o Direito Canônico “resolveu” o problema, através da suspensão ferendae sententiae, como prescrito pelo cânon 1314.
Ou seja, desde 1980, isto é, em 33 anos, nada mudou, passo algum foi feito, a porta continua fechada e a “janela aberta” da Igreja em geral e do Vaticano em especial, com a qual Papa João XXIII tanto sonhava, não se realizou, tendo como consequência que, ao menos em relação a este assunto, “a primavera” ainda não chegou à Igreja, continuando ela mergulhada num grisalho e frio inverno, representado pelo Direito Canônico, que jamais deixará de ser um dos obstáculos principais para a Igreja tornar-se verdadeiramente Igreja de Cristo, comunidade de amor. 

Gostaria de perguntar ao senhor arcebispo de Kampala, como ele entende a palavra de Jesus quando diz: “Entre vocês não deve ser assim” (Jesus se refere à disputa, superioridade de uns sobre outros – onde há superiores, também há inferiores -) etc. ?

O senhor arcebispo alega que Padre Musaala “desperta o ódio e o desprezo contra a Igreja”. Creio que esta afirmação não necessite de comentário, pois fatos internos da Igreja Católica Apostólica Romana dos últimos anos falam por si, por terem causado profundo ódio e desprezo contra a Igreja, sem precedentes.Padre Musaala fala em “efeitos nada positivos em conseqüência de uma imposição”. O senhor arcebispo se nega a entrar no âmago da questão (a obrigatoriedade do celibato), refugiando-se no Direito Canônico, atitude típica de quem não tem argumentos. É fechada novamente a porta para o diálogo, a Igreja de Puebla, aquela da “Comunhão e Participação”, levando-a, mais uma vez, ao túmulo.

Gostaria de perguntar ao senhor arcebispo de Kampala, com que olhos ele lê o capítulo quarto do Evangelho de João, quando Jesus conversa, respeitosamente, com a mulher samaritana, interessando-se pela vida dela, procurando ajudá-la encontrar novas perspectivas para sua vida? Será que Jesus não quis ensinar-nos a arte do diálogo?

O Padre Musaala diz: “É necessária uma campanha de sensibilização pelo celibato opcional, já que não há argumentos teológicos, mas apenas as restrições de tradição e da disciplina da Igreja”.

 

 

Se somente no Brasil há, ao menos, 8.000 padres casados (não tenho idéia de quantos há pelo mundo afora), então a proposta por uma “sensibilização” acerca da questão obrigatória do celibato parece-me mais do que sadia, necessária, além de urgente. Creio, por sinal, que nós, o MFPC, deveríamos tomar a iniciativa deste processo de sensibilização.

Gostaria de perguntar ao senhor arcebispo de Kampala, e a todos que dirigem a Igreja, por que tanto medo, qual razão, por que tanta rigidez, frieza e insistência em não querer compreender o outro lado. Parece haver algo a esconder, algo de se envergonhar. Porque os senhores não abrem o jogo? Porque não vamos dar um “basta” a esta brincadeira de mau gosto deste interminável “esconde-esconde”? Paulo diz aos Efésios: “Confessando a verdade no amor, cresceremos sob todos os aspectos em direção àquele que é a cabeça, Cristo” (Ef. 4, 15).

 


Entende-se esta palavra de Paulo no seguinte sentido: nós podemos fazer crescer as coisas em direção a Cristo. Ou seja: Cristo e sua verdade aparecerão se sentarmos à mesa para o diálogo e, depois, para a partilha do pão, juntos, que nem os discípulos de Emaús (Lucas 24, 30-32).
Embora ainda haja muitos outros aspectos a serem abordados, paro por aqui.

É evidente que o MFPC, em nível nacional, precisa declarar-se, publicamente, diante desta questão, começando por uma carta aberta ao Padre Musaala, deixando claro que ele é nosso irmão. Depois uma nota de protesto ao senhor arcebispo de Kampala, pedindo a ele para refletir sobre a palavra do Padre Musaala, quando este diz: “Casos (escandalosos) não são isolados, sintomáticos de um sistema doente que perdeu a sua integridade, mas que nunca vai admitir isso.”
Fonte: enviado pelo autor, via e-mail:  geraldof73@yahoo.com.br

06 de abril de 2013
Geraldo Frecken
(com total e irrestrita aprovação de Claudete)
Para ler mais:
 

Respostas de 3

  1. Eu penso que para responder aos questionamentos do Geraldo Frencken, é preciso, antes de mais nada, considerar esta igreja romana como uma instituição humana, o que ela, aliás, é.
    E utilizar os instrumentos de análise de qualquer sociedade humana.

    Qual é sua natureza? Quais são os elementos de sua identidade? Qual é sua composição? Como se se torna membro dela? Como se pode sair dela?
    Quais são os elementos de autoridade?
    Quais são seus meios de ação?
    O que tem ela revelado de seu ser-no-mundo nos séculos passados?
    O que ela trouxe de positivo à sociedade? E de negativo?
    Qual é a percepção que dela têm as pessoas que não são seu público?
    Quais são seus problemas hoje?
    quais são as respostas que ela traz para estes problemas?
    O que dizem dela os seus membros? O que dizem os seus detratores?

    Longo trabalho. Mas eminentemente construtivo, longe de tudo o que ela própria diz sobre si mesma. Boa caminhada.

    Jean

  2. Muito boa a reflexão do Geraldo Frencken!!!
    Parabéns pela lucidez e ponderações!
    Este assunto, com certeza, deveria ser levado adiante,provocando um debate maduro e coerente, pois, assim como eu, padre casado, milhares de outros padres casados, poderiam estar dando sua contribuição EFETIVA e AFETIVA para o crescimento da igreja de Jesus Cristo nas comunidades onde vivemos.
    Muitas vezes não temos a coragem de nos oferecer para algum trabalho, pois, percebemos com muita clareza, a frieza e desconfiança de muitos padres (com algumas exceções) que ainda estão na ativa, em relação a nós que deixamos o ministério.
    Infelizmente, creio que, enquanto as “autoridades da igreja” continuarem se escondendo atrás do direito canônico (como argumento inexplicável para tais questões), não permitirão que se sobressaia o verdadeiro debate e avanço de diálogo, que deveriam ser iluminados pela bíblia (Palavra de Deus).
    A sensação que tenho, é de que, se não houver uma verdadeira mudança de rota e de pensamento (URGENTES), por parte da direção da Igreja católica, o desencanto só tende a aumentar, em relação a tantas coisas maravilhosas que a própria Igreja, enquanto instituição, poderia realizar neste mundo marcado pelas diferenças de relações e de pensamentos.
    Parafraseando o belíssimo Hino do Magnificat de Maria, rogamos ao Senhor, que derrube do trono, “os poderosos”, juntamente com suas hipocrisias; abra espaço para que novos ventos possam arejar as estruturas eclesiásticas, permitindo que as luzes do Altíssimo iluminem novos caminhos, a serem percorridos por TODOS os homens e mulheres de boa vontade…

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