
Jesús Espeja– 19.11.2019
Foto: Francisco, o Papa do povo
Tradução: Orlando Almeida
Na inspiração desta Igreja, rejuvenescida e estimulada pelo Espírito a sair da sua auto-referencialidade para o seguimento de Jesus Cristo e a ser um sinal credível do Evangelho, nasce esta Plataforma de “Teologia em saída”
Durante muito tempo, a Igreja se apresentou como sociedade perfeita, ao lado ou acima da sociedade civil e com poder de influenciá-la a partir de verdades divinamente reveladas. Essa visão explica de algum modo a atitude defensiva da Igreja quando os seres humanos na época moderna quiseram pensar por conta própria , tomar a palavra e agir com liberdade. Já a Igreja, na sua organização, funcionava e era percebida como uma sociedade de desiguais: uns poucos mandam, ensinam e celebram, enquanto os demais, a maioria, obedecem, escutam e assistem.
Por fim, como a sociedade europeia e especificamente a espanhola, se confessava oficialmente cristã, a missão praticamente identificava-se com o anúncio do Evangelho a pessoas e povos afastados “que viviam nas trevas da morte”.
Quando já era manifesta, nos povos europeus de tradição cristã, a apostasia das massas e a emancipação do mundo em relação à Igreja, o Vaticano II (1962-1965) trouxe nova luz.
Sem negar o lado sombrio do mundo, o concílio vê-o positivamente:
“toda a família humana com o conjunto universal das realidades entre as quais vive; o mundo, teatro da história humana, com os seus afãs, fracassos e vitórias; o mundo, que os cristãos creem fundado e conservado pelo amor do Criador, escravizado sob a servidão do pecado, mas libertado por Cristo, crucificado e ressuscitado”.
Reconhece-se que o Espírito atua já na evolução do mundo.

Seguindo a novidade da encarnação, a Igreja ratifica a sua aliança
“com as alegrias e as esperanças, tristezas e angústias da humanidade“.
Já não se apresenta como sociedade perfeita paralela ou acima da sociedade humana. Mais do que a sua dimensão institucional, a Igreja apresenta-se como uma comunidade de vida onde ninguém é mais que ninguém e todos somos irmãos com a mesma dignidade. Essa fé experiência concretiza-se em imagens como “corpo de Cristo” e “povo de Deus”. A serviço deste povo têm sentido os diferentes ministérios, como o bispo e o presbítero. Um enfoque que envolve a promoção de todos os batizados e um corretivo da patologia “clericalista”: identificar a Igreja com o clero.
Finalmente a Igreja constitui-se na missão: oferecer o Evangelho de maneira credível. Não com a lógica do poder, mas como pobre e servidora do mundo, seguindo a conduta de Jesus Cristo “luz para todos”. Como não há missão fora do mundo, este pertence à Igreja que deve discernir os sinais do Espírito nas alegrias e sofrimentos da humanidade, “especialmente dos pobres“.
Resumindo, o Vaticano II desenhou uma Igreja em saída do seu fechamento ao diálogo com o mundo ; da prioridade que tinha a organização visível; da obsessão de dominar o mundo, à mística de servir como testemunha do Evangelho; da obsessão de dominar o mundo à mística de ser uma testemunha credível do Evangelho a serviço do mundo.
Sucintamente,
- uma saída da instalação estrutural
- e uma conversão a Jesus Cristo
- que passou pelo mundo derrubando os muros de separação,
- que se pôs ao lado das vítimas
- e que deu a vida como servidor de todos.

Teología para una Iglesia en Salida Agustín de la Torre
Quando o Papa Francisco fala e, sobretudo quando atua como “Igreja em saída”, não é arriscado concluir que já iniciámos um terceiro período pós-conciliar. Podemos vê-lo logo na sua primeira Exortação: a Igreja tem de sair da sua
“auto-referencialidade” institucional: “mais do que o medo de cometer erros, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa contenção”.
Para isso, a Igreja deve dar prioridade à fé ou ao encontro com Jesus Cristo:
“Sem Jesus, a Igreja não pode existir”; ela deve examinar-se “diante do espelho do modelo que Cristo nos deixou de si mesmo”.
O seguimento de Jesus implica a saída e o diálogo :
“A Igreja acompanha a humanidade em todos os seus processos, por mais longos e prolongados que sejam”.
E esse acompanhamento não é feito com base no poder, mas no amor que serve:
“a Igreja vive um desejo inesgotável de oferecer misericórdia, fruto de ter experimentado a infinita misericórdia do Pai e a sua força difusora”.
Essa misericórdia gera compaixão efetiva pelas vítimas:
“hoje e sempre os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho: é preciso dizer sem rodeios que existe um vínculo inseparável entre a nossa [Igreja] e os pobres; nunca os deixemos sós”.
Na inspiração desta Igreja, rejuvenescida e impelida pelo Espírito a sair da sua auto-referencialidade no seguimento de Jesus Cristo e a ser um sinal credível do Evangelho, nasce esta Plataforma de “Teologia em Saída”. Não se pretende que seja um conjunto de teorias abstratas, mas uma reflexão dentro da fé ou da experiência cristã em solidariedade e compromisso com todos os que com um coração limpo buscam mais humanidade.

Teologia para uma Igreja na saída
Jesús Espeja