
Hernán Reyes Alcaide, enviado especial a Tokio – |Fotos: Religión Digital
O papa fez um apelo aos líderes mundiais para que reduzam efetivamente o acúmulo de armas atômicas e pediu a eles que pensem no “impacto catastrófico” sobre a humanidade
“Este lugar nos faz mais conscientes da dor e do horror em que os seres humanos, nós, somos capazes de infringira nós mesmos”
“O nosso mundo vive a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança”
“No mundo de hoje, onde milhões de crianças e de famílias vivem em condições sub-humanas, o dinheiro que se gasta e as fortunas que se ganham na fabricação, modernização, manutenção e venda de armas, cada vez mais destrutivas, são um atentado contínuo que brada ao céu”
“É necessário considerar o impacto catastrófico de um uso do ponto de vista humanitário e ambiental, renunciando ao fortalecimento de um clima de medo, de desconfiança e de hostilidade, impulsionado por doutrinas nucleares”
EIS O ARTIGO
O Papa Francisco voltou a fazer um apelo aos líderes mundiais por um desarmamento nuclear “coletivo e urgente” e, na cidade japonesa de Nagasaki, denunciou que a corrida armamentista e os seus gastos são um “atentado contínuo”.
“Este lugar faz-nos mais conscientes da dor e do horror que os seres humanos, nós, são capazes de infringir a nós mesmos”.
O pontífice iniciou assim o seu histórico discurso no Parque da Memória, que mantém viva a lembrança do massacre cometido pelo bombardeio dos EUA em 1945.
“A cruz bombardeada e a estátua de Nossa Senhora, recentemente descobertas na Catedral de Nagasaki, lembram-nos mais uma vez o indescritível horror sofrido na sua própria carne pelas vítimas e pelas suas famílias“, acrescentou Bergoglio.
Diante de um mundo em que pelo menos nove países continuam a manter arsenais nucleares, Francisco disse que
“um dos desejos mais profundos do coração humano é o desejo de paz e de estabilidade”.
No epicentro da explosão
Francisco falou do local que foi o epicentro da explosão de 9 de agosto de 1945: dentro do Parque da Paz da Cidade,
- ao pé de uma enorme escultura de Seibo Kitmura que simboliza o temor atômico,
- mas ao mesmo tempo a esperança de unidade entre os povos.

Antes, ele rezou em silêncio e acendeu uma vela em homenagem aos caídos.
“A posse de armas nucleares e de outras armas de destruição em massa não é a resposta mais acertada a este desejo; mais do que isso, parecem pô-lo à prova continuamente. O nosso mundo vive a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e de desconfiança, que acaba por envenenar as relações entre os povos e impedir qualquer diálogo possível ”, lamentou.
Ameaça de aniquilação total
Nesse contexto, reiterou a sua posição crítica em relação ao armamentismo em geral e ao nuclear especificamente, e afirmou que
“a paz e a estabilidade internacionais são incompatíveis com qualquer tentativa de fundar-se sobre o medo da destruição mútua ou sobre uma ameaça de aniquilação total; só é possível a partir de uma ética global de solidariedade e de cooperação a serviço de um futuro moldado pela interdependência e pela corresponsabilidade entre toda a família humana de hoje e de amanhã”.
“Aqui nesta cidade, que é testemunha das catastróficas consequências humanitárias e ambientais de um ataque nuclear, serão sempre poucas as tentativas de levantarmos a nossa voz contra a corrida armamentista”, criticou.
Além disso, como já havia adiantado Religión Digital, Bergoglio também teve palavras para os milhões de dólares que o mundo gasta em armas em detrimento de outras prioridades:
“Este desperdício recursos valiosos que poderiam, ao contrário, ser usados em benefício do desenvolvimento integral dos povos e para a proteção do meio ambiente natural.
- No mundo de hoje, em que milhões de crianças e de famílias vivem em condições sub-humanas,
- o dinheiro que se gasta e as fortunas que se ganham na fabricação, modernização, manutenção e venda de armas, cada vez mais destrutivas,
- são um atentado contínuo que brada ao céu”, criticou.
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Assim, afirmou que “um mundo em paz, livre de armas nucleares, é a aspiração de milhões de homens e mulheres em todos os lugares” .
“Transformar este ideal em realidade requer a participação de todos:
- das pessoas, das comunidades religiosas, da sociedade civil,
- dos Estados que possuem armas nucleares e dos que não as possuem,
- dos setores militares e privados, e das organizações internacionais.
A nossa resposta à ameaça das armas nucleares deve ser coletiva e concertada, baseada na construção árdua mas constante de uma confiança mútua que rompa a dinâmica de desconfiança predominante atualmente”, incentivou.
“É necessário romper a dinâmica de desconfiança que prevalece atualmente e que faz correr o risco de levar ao desmantelamento da arquitetura internacional de controle das armas. Estamos presenciando uma erosão do multilateralismo, ainda mais grave diante do desenvolvimento das novas tecnologias de armamentos; este enfoque parece bastante incongruente no contexto atual marcado pela interconexão, e constitui uma situação que reclama uma atenção urgente de todos os líderes, bem como dedicação”, pediu.
Chamamento aos líderes políticos
Depois de analisar o compromisso da Igreja com o desarmamento, em especial por parte dos bispos japoneses, o Papa fez um forte chamado aos líderes mundiais.
“Com a convicção de que um mundo sem armas nucleares é possível e necessário, peço aos líderes políticos que não esqueçam que elas não nos defendem das ameaças à segurança nacional e internacional do nosso tempo”, reclamou a eles.
✔@antoniospadaro
Encontro com a mulher do fotógrafo do horror
“O estado atual do nosso planeta exige, por seu lado, uma reflexão séria sobre como todos estes recursos poderiam ser utilizados, com referência à complexa e difícil implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, e alcançar assim objetivos como o desenvolvimento humano integral”,
propôs Francisco, antes de se encontar com a esposa de Joe O’Donnell, autor da foto que mostra “o horror da guerra”e que o próprio Papa distribuiu em 2018. E cujo protagonista, um garoto de 10 anos com seu irmão morto nas costas, continua sendo um mistério, apesar da campanha da imprensa japonesa para encontrá-lo nos dias anteriores à chegada do Papa.
Numa época em que o perigo de uma guerra planetária está em níveis recordes desde 1953, para Bergoglio
“é crucial criar ferramentas que garantam a confiança e o desenvolvimento mútuo e ter líderes que estejam à altura das circunstâncias”.
