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O que suponho que Lula deveria dizer. Artigo de Tarso Genro

  • 20/11/2019
  • 21:00

Tarso Genro – 18 Novembro 2019 – Foto: Lula Livre / Ricardo Stuckert

“Celso Furtado foi um ‘herói’ e ‘um grande homem’, assim como o nacional-desenvolvimentismo  foi uma importante elaboração estratégica de um grande período de lutas. Suponho todavia que hoje,

  • o que resgata para o futuro a ideia primária de um projeto socialista contemporâneo 
  • é a ideia de tirar dos ultra-ricos seus excedentes, que são supérfluos até para manterem seus modos de vida abastados,
  • para assim integrar -socialmente- as grandes maiorias populares que estão fora do jogo, tanto da vida comum, como da própria democracia política em crise”, escreve 

Tarso Genro, ex-governador do Estado do Rio Grande do Sul, ex-prefeito de Porto Alegre, ex-ministro da Justiça, ex-ministro da Educação e das Relações Institucionais do Brasil, em artigo publicado por Sul21, 16-11-2019.

Eis o artigo.

Carlyle dizia que a “história do mundo é apenas a biografia dos grandes homens”.

Exageros à parte, as diversas teorias e filosofias da História com credibilidade intelectual – de Plekanow a Toynbee, de Nietzsche a Marx– sempre reservaram parte da suas abordagens sobre os processos históricos ao papel dos “heróis”, tomados como “grandes homens” independentemente do tipo que caracteriza a “grandeza”.

O Governo democrático e popular que pensávamos em 88 realizou-se em 2002 como um Governo Democrático, centrista e progressista, que

  • respeitou rigorosamente as “regras do jogo” democrático
  •  e conseguiu melhorar as condições de vida do nosso povo,
  • prestigiou a Constituição
  •  e deu solidez ao nosso prestígio internacional,

como em nenhuma outra época da nossa História.

Deve-se isso

  • à liderança de Lula,
  • ao respeito que àquela época o ex-Presidente FHC impregnou na transição
  • e ao talento político magnífico de Lula.

Ele é o nosso “grande homem” e o que ele diz e faz é também da nossa conta e responsabilidade.

  • Assim como Bolsonaro é o ”grande homem” de uma parte da população que, enganada ou conscientemente cultua a tortura e a morte como solução para os litígios políticos do Estado Democrático de Direito,
  • Lula é o “grande homem” do acordo, da compreensão da correlação de forças para governar com respeito e autoridade dentro da democracia.

Só que a nossa herança, a democracia e os pobres entrando na Casa Grande, pode ser varrida pelo fascismo,

 

Pela visão de Carlyle,

  • D. Pedro II e Deodoro,
  • Getúlio e Juscelino,
  •  Castelo Branco e Ulysses,
  • Lula e Fernando Henrique

– pelo papel forte que tiveram em determinados períodos da nossa história – seriam “grandes homens”, que moldaram nossa vida nacional nos seus respectivos tempos.

Um livro de intelectuais e filósofos peronistas (“Que es el peronismo – una resposta desde la filosofia”, Ed. Outubre, 2O14, 377 pgs.) trata deste viés das concepções da história, a partir da vida política e pessoal do “grande homem” – neste sentido – que foi Juan Domingo Perón, na Argentina do século passado, tomando-o como modelo de “grande homem” latino-americano a quem deve a Argentina o que ela tem de melhor.

  • A “condução política” e a “valorização cultural” dos territórios -nos quais os “grandes homens” atuaram-
  • seriam os elementos primários considerados para compreender o efetivo papel que aqueles “grandes” exerceram”, nas condições sócio-culturais que os formaram enquanto líderes.

Assim, a visibilidade de um “céu iluminista” com as estrelas da inteligência ilustrada -acessível para os “grandes homens europeus”– influíram na moldagem específica, jurídica e econômica, que eles instauraram nos seus respectivos Estados Nacionais.

Este céu iluminista, entretanto, transplantado para periferia do sistema global, gerou – segundo estes intelectuais peronistas – uma “autoconsciência” que acompanharia os processos de formação dos novos Estados da periferia.

Neste espaço periférico, líderes locais

  • promoveram a referida “autoconsciência”,
  • não como pura imitação -mas como apelo aos demais líderes- para “recuperar e compreender o valor da cultura popular que, nos marcos do país iluminista era, e é, não só deixada de lado -pelo predomínio da cultura ‘purista’ e racionalista extrema- mas também (por ser) depreciada (na Europa)”.

Aí estariam as raízes da implantação do peronismo na alma argentina, com suas barbáries e grandezas:

  • de Perón a Isabelita,
  • de Câmpora às pandilhas fascistas e assassinas de Lopez Rega.

A adaptação do iluminismo a um “grande homem” local teria promovido a vertebração dos Estados modernos locais, mediada pelo encontro entre “cultura popular da resistência x civilização colonial iluminista”.

Seria o conflito permanente pelo qual se disputaria na Argentina, até hoje, a sua chegada à modernidade madura do Estado Social.

A luta política é uma das mais curiosas e relevantes atividades (“praxis”) humanas, que nos distingue da animalidade pura. A nossa luta – para afirmação e reprodução da espécie na nave Terra – percorre um infinito indeterminado e nós, na superfície desta nave, vamos afirmando nossos desejos, misérias e grandezas: somos indivíduos feitos de “cal, desejo e sangue”.

Erros e acertos, paixões e desapreços, são produtos também deste encontro permanente, entre golpes e revoluções, revoltas, morticínios e chacinas. É a Argentina, a América, o Brasil colonial e escravista, que foi herdado pelas nossas classes dominantes, sumulado por Machado de Assis no seu conto genial, “Pai contra Mãe”, escrito 18 anos após o fim da escravidão.

  • A curiosidade atual, neste caminho da esquerda que não desistiu de lutar por um mundo melhor possível,
  • é a exigência de que Lula faça uma “autocrítica” dos seus governos, proposta principalmente dos que apoiaram o golpe contra Dilma.

Na imprensa e nos partidos eles ajudaram a formar um Governo composto por

  • religiosos do dinheiro,
  • milicianos e fascistas,

que envergonha o Brasil no mundo.

Agora não se cansam de pedir uma autocrítica de Lula sem se envergonhar do que nos legaram:

  • Ernesto Araujo,
  • Weintraub,
  • Bolsonaro,
  • Queiroz,
  • Witzel e os milicianos no poder
  • – a crise profunda do Estado de Direito 
  • – e a fragilização de todas as instituições do Estado que protegem os direitos fundamentais.

Organizaram uma chacina social, com suas reformas “à chilena” e que terão (não duvidem) resultados “à chilena”, no campo das relações sociais e da política.

Mesmo assim

  • querem uma autocrítica de Lula
  • e agem como se o processo político fosse um culto fundamentalista,
  • no qual os demônios são expulsos por uma catarse que sempre termina na contribuição em dinheiro para os donos da religião.

No caso da “autocrítica” de Lula – todavia –

  • terminaria numa contribuição política
  • para fazer esquecer a tragédia moral e política que eles representam para o Brasil no Século XXI.

Não integro mais a direção do PT e sou divergente de uma boa parte da linha adotada pela nossa Direção Nacional – sem deixar de reconhecer seus méritos, por dois motivos fundamentais:

  • primeiro, porque ela não processou um debate interno, “aberto” à sociedade civil democrática, para analisar em profundidade – durante os últimos anos – quais foram as condutas – na economia e na política – que “facilitaram” os procedimentos individuais de continuidade – não de “inauguração” como diz a direita craque em corrupção – de métodos oligárquicos de governabilidade;
  • segundo, divirjo também porque a atual hegemonia interna no PT não nos conduziu para uma discussão madura – em tempos de crise global do sistema do capital – sobre qual o projeto que devemos à sociedade, após a brutal “desindustrialização” dos últimos 10 anos, que não permite qualquer recuperação gigantesca do emprego, a curto prazo, como parece propor Lula, após a sua saída do cárcere.

A primeira pergunta diz respeito ao Partido político que, durante o Governo,

  • deveria propor condutas a quem estava no Governo – pelas suas direções colegiadas – num cenário histórico de alta complexidade,
  • gostassem eles (lideres governantes) – ou não – das orientações produzidas pelo Partido político,
  • que deveriam ser ofertadas abertamente, como propostas concretas para elidir a crise, especialmente durante os Governos Dilma.

A segunda pergunta diz respeito

  • ao que deveria ser dito, ao líder mais importante,
  • que encarnava – mesmo preso num processo político (mas preso) – as melhores possibilidades do projeto petista.

E assim tratar de contribuir, mesmo discordando dele, para potencializar o seu papel na História da forma mais ampla da que pode ser vista das janelas do seu cárcere.

Eximindo-se dessa responsabilidade o Partido reservou para si apenas o papel de um prolongamento burocrático das palavras do líder injustamente preso.

As respostas a estas perguntas

  • estão vinculadas às propostas imediatas que devemos oferecer – em conjunto com a esquerda e o centro progressista que ainda resta no país –
  • para conversar com a ampla maioria dos chamados “pobres de direita”

(designação humilhante e injusta com os mais oprimidos),

  • precários,
  • intermitentes,
  • desempregados,
  • meio-jornadistas,

que estão fora da classe trabalhadora tradicional, mas são a base popular do proto-fascismo em curso no país. Os trabalhadores majoritariamente hoje formam um contingente muito maior do que a classe trabalhadora tradicional resguardada pelas normas da velha CLT.

A resposta a ser dada – opino – revoga a designação “democrático-popular”, que está na base das elaborações estratégicas que fizemos nas últimas duas décadas, como tentativa mal-sucedida de não parecermos assemelhados aos enjambramentos autoritários que os “soviéticos” implantaram nos países do Leste Europeu. A resposta a ser dada pode vir – por exemplo – da assumida pela Senadora Elizabeth Warren (“Eu , Fim de Semana”, “Valor”,14-15 nov. Helena Celestino),

“que move multidões ao propor uma taxação maior aos super-ricos, mas assusta com a ideia de garantir saúde de graça para todos”.

Warren propõe

  • a tributação dos 1% mais ricos do país, que detinham 8% do PIB e “agora detém 22% de toda a riqueza” dos EEUU,
  • taxação que atingiria 175 mil pessoas e empresas

e que aportariam recursos ao Estado – por exemplo – para

  • promoverem cuidados integrais a todos os bebês de zero a quatro anos,
  • reduzirem pela metade a dívida das famílias com o crédito educativo, portando -ainda- recursos que poderiam manter sem pagamento, na Universidade -por 4 anos- todos os que quisessem estudar
  • e ainda permitiriam aumentar, significativamente, os salários de todos os professores americanos.

Estes exemplos concretos serviriam para

  • dar sustentação a umasocial-democracia novo tipo e mais democrática – na era do capital financeiro dominante,
  • que se oponha à extração de recursos feita pelos diversos tipos de “rentismo” (incidiria nos EEUU sobre fortunas acima de 50 milhões de dólares) que é sobreposto como um sistema de confisco que rouba renda de toda a sociedade, inclusive das empresas capitalistas da indústria tradicional.

Celso Furtado foi um “herói” e “um grande homem”, assim como o nacional-desenvolvimentismo foi uma importante elaboração estratégica de um grande período de lutas.

Suponho todavia que hoje,

  • o que resgata para o futuro a ideia primária de um projeto socialista contemporâneo
  • é a ideia de tirar dos ultra-ricos seus excedentes, que são supérfluos até para manterem seus modos de vida abastados,
  • para assim integrar – socialmente – as grandes maiorias populares que estão fora do jogo, tanto da vida comum, como da própria democracia política em crise.

 

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Tarso Genro

É um dos políticos inteligentes com visão de Brasil. PT de raíz, continua sendo hoje uma consciência crítica dentro do PT, partido que continua incapaz de séria auto-crítica.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/594420-o-que-suponho-que-lula-deveria-dizer-artigo-de-tarso-genro

 

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