Repercusão das queimadas na Amazônia na mídia internacional. Jornais associam aumento de desmate na Amazônia com gestão Bolsonaro e interesses do agronegócio
EL PAÍS – 22.ago.2019 – Foto: metrojornal.com.br
Desde que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) contestou dados do desmatamento divulgados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o problema tem sido destacado pela mídia estrangeira, acarretando reações como o corte de repasses da Alemanha e da Noruega ao Fundo Amazônia.
Agora, a onda de queimadas e as declarações –sem provas– do presidente de que ONGs poderiam estar envolvidas nos incêndios que se alastram pelo país ganharam repercussão em todo o mundo. O saldo é que a Amazônia virou notícia nos principais portais estrangeiros.
Em sua maioria, ao analisar o cenário, os jornais associam o aumento do desmatamento na floresta à gestão de Jair Bolsonaro, aos interesses do agronegócio e à falta de investimentos do atual governo em políticas ambientais.
“Os ministros deixam claro que suas simpatias estão com os madeireiros, e não com os grupos indígenas que vivem na floresta”,
diz o britânico The Guardian.
Para o também britânico Financial Times, Jair Bolsonaro facilitou o “boom do desmatamento”, enquanto o espanhol El País diz que o Brasil “arde em um ritmo recorde”. Confira a repercussão nos principais veículos.
Veja a repercussão das queimadas da Amazônia na mídia internacional
THE GUARDIAN
O jornal britânico noticiou, nesta quarta (21), que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) acusou ONGs de terem envolvimento com a onda de incêndios na Amazônia, mesmo sem apresentar dados. No texto, o jornal afirma que Bolsonaro tenta evitar críticas internacionais sobre sua “incapacidade de proteger a maior floresta tropical” do mundo.
The Guardian também ressalta que, desde que Bolsonaro assumiu o governo, menos multas estão sendo aplicadas, e que seus ministros
“deixam claro que suas simpatias estão com os madeireiros, e não com os grupos indígenas que vivem na floresta”.
Nesta quinta (22), as vaias que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recebeu em evento sobre o clima em Salvador foram destaque na homepage do portal.
THE ECONOMIST
A capa da primeira semana de agosto da revista britânica já apresentava a imagem de um toco de árvore com o formato do mapa do Brasil sob o título “Vigília da morte para a Amazônia”. A publicação afirma que a região “está perigosamente perto do ponto de inflexão”, do qual não haveria como retornar.
“O Brasil tem o poder de salvar a maior floresta tropical da Terra, ou destruí-la”, escreve a revista em editorial, apontando o presidente brasileiro como responsável pelo problema.
THE WASHINGTON POST
O americano ressaltou que a floresta Amazônica é essencial para o equilíbrio climático e para a biodiversidade do planeta e que, sem ela, a mudança climática ocorrerá a níveis acelerados.
O jornal também falou do episódio ocorrido em São Paulo nesta segunda (19), quando uma frente fria e a fumaça vinda das queimadas escureceram o céu da capital paulista no início da tarde. Após citar São Paulo como “capital do Brasil”, publicou o erramos corrigindo para “maior cidade”.
THE NEW YORK TIMES
O jornal americano ressalta que o desmatamento da Amazônia aumentou rapidamente desde que Bolsonaro tomou posse e cortou subsídios para combater as atividades ilegais na floresta. A reportagem afirma que
“o presidente de extrema-direita acusou ONGs de colocar fogo na floresta depois que o governo cortou financiamentos, apesar de não apresentar nenhuma evidência”.
Na publicação, fazendeiros que estão “limpando suas terras” são responsabilizados pelos incêndios que se alastraram pelo Norte do país. A matéria também ressalta que o fogo aumentou tanto que a fumaça alcançou o litoral atlântico e São Paulo.
FINANCIAL TIMES
O jornal econômico publicou um artigo de opinião assinado pelo professor da Universidade de Oslo, Bard Harstad, sobre como a pressão comercial de outras nações pode ajudar a salvar a Amazônia brasileira.
O artigo ressalta que Jair Bolsonaro
“facilitou o boom do desmatamento”. “O diretor responsável por relatar dados de satélites foi demitido; um insider do agronegócio foi indicado para lidar com assuntos indígenas; a supervisão das terras indígenas foi transferida para o departamento agrícola; e o corte do orçamento está em execução. Como consequência, o desmatamento em julho foi o triplo de um ano atrás”, diz o artigo.
EL PAÍS
“A Amazônia brasileira arde em um ritmo recorde”, diz o espanhol El País. O jornal destaca que, nos oito primeiros meses do ano, o Brasil teve 84% mais incêndios que o mesmo período de 2018, segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
A reportagem também relata que o órgão tem sido alvo de críticas do presidente brasileiro, o qual colocou seus dados em dúvida, e que o mandatário sugeriu –mesmo sem apresentar provas– que os incêndios podem ser sido criminosos e provocados por organizações não governamentais.
LE MONDE
Sob o título “Incêndios na Amazônia: uma praga sazonal ‘amplificada pelas posições de Jair Bolsonaro'”, a publicação francesa destaca nesta quinta (22) em seu portal uma entrevista com a economista Catherine Aubertin. Nela, Aubertin diz que o presidente brasileiro colocou em prática “um sistema de enfraquecimento das instituições ambientais” para tirar proveito da região amazômica.
O jornal também publicou uma análise das principais fotos postadas por celebridades e internautas nas redes sociais com as hashtags #prayforamazonia e #PrayForAmazonas.
DEUTSCHE WELLE
A Alemanha, que recentemente decidiu suspender o repasse de verbas que iriam para o Fundo Amazônia, fez um levantamento sobre como a mídia do país está repercutindo as notícias do Brasil. Ela destaca a revista semanal Der Spiegel, que ressalta que
“A Amazônia diz respeito a toda a humanidade” e que “o desenvolvimento do clima do mundo depende da preservação da floresta tropical”.
A publicação afirma que
“chegou a hora de se pensar em sanções diplomáticas e econômicas contra o Brasil”.
O jornal Die Zeit afirma:
“de que adianta cortar o dinheiro para a conservação da floresta de um parceiro que, de qualquer forma, não tem mesmo interesse na conservação da floresta – e ainda responde à pressão pública com ostensiva teimosia, ao invés de mostrar disposição em conversar?”
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Mais do que o fogo, burrice amazônica do governo Bolsonaro ameaça o Brasil
Em rede nacional, Bolsonaro elogia política ambiental do país, que tenta destruir
Vinicius Torres Freire – 25.ago.2019 às 2h00
Houve panelaços contra Jair Bolsonaro em bairros de rico de São Paulo. São lugares onde o presidente ganhou de lavada e Fernando Haddad (PT) perdeu de João Amoedo (Novo) na eleição de 2018.
As panelas cantavam enquanto Bolsonaro aparecia em rede nacional, na sexta-feira (23). Com a catadura feroz de costume, falava como quem dá ordens a um pelotão de fuzilamento, um de seus padrões de eloquência.
No entanto, elogiava as leis ambientais brasileiras e o sucesso relativo do país no Acordo de Paris. Afirmava que o Brasil é um “exemplo de sustentabilidade” e que é preciso ter “serenidade” (!) no debate.
Parecia um discurso que fez em Davos, para inglês ver.
Presidente durante pronunciamento sobre crise ambiental – Carolina Antunes/PR
Não sabia do que estava falando, como de hábito. Bolsonaro elogiava décadas de políticas e acordos ambientais, os quais ameaça de morte, criados sob tantos governos, todos “de esquerda”.
- O progresso começa com uma lei de 1981, no governo do general João Figueiredo, que criou a Política Nacional do Meio Ambiente e o Conselho Nacional do Meio Ambiente.
- Passou a ter efeito prático com o Ibama, responsável pela implementação da política do meio ambiente, criado em 1989, sob José Sarney.
- A lei de crimes ambientais é de 1998, anos FHC.
- A medição e o controle sistemáticos do desmatamento começaram nos anos Lula.
A citação dos presidentes é ironia.
A aprovação e a aplicação das leis ambientais é uma resultante da ação
- de militantes,
- de partidos políticos,
- de funcionários de Estado,
- de “estudiosos e especialistas” (que Bolsonaro odeia),
- da diplomacia
- e, em anos recentes, de parte importante do empresariado rural.
Trata-se de um progresso da sociedade brasileira, por vezes parido à força ou em combates furiosos, até hoje frequentemente assassinos. A gente esquece, mas o país trabalhou muito para tirar sua imagem e suas práticas ambientais da lama tóxica. Um esforço de 30 anos que Bolsonaro queima em meses.
Quem passar um pente estatístico na série de números de queimadas terá grande dificuldade de afirmar que existe uma tendência de alta. Não é o caso do desmatamento. Seja como for, o problema maior até aqui é Bolsonaro, que ataca as instituições de progresso e controle ambiental.
Instituições não são máquinas de aplicação de políticas e leis. Para funcionar, dependem de apoios e incentivos materiais, morais e políticos, além da circulação livre de informação correta.
- O presidente toca fogo em tudo isso.
- Assim também ameaça a Polícia Federal,
- a Receita
- e a Procuradoria da República.
Jacta-se do poder da sua canetinha, associando o exercício da Presidência ao mandonismo, de modo jeca e ignaro, para piorar. Tivemos ditadores mais espertos.
De resto, cadê as políticas ambientais liberais de seu autoproclamado governo liberal? Há quem não goste, mas são alternativas no universo da razão.
Pode haver mercados de permissões para poluir, de cotas de exploração de recursos naturais ou de áreas de reserva ambiental, que dependem de controle e cadastro, como o rural, adiado sine die. Até o ano passado, o governo estudava a criação de um sistema de preços para emissões de poluentes. Cadê apoio técnico e incentivos de mercado para recuperar pastos e terras exauridos? Para o pequeno produtor? Para “start-ups” rurais, as agritechs?
Há apenas
- “desejo de matar”,
- “prendo e arrebento”,
- temperados por burrice e ignorância administrativa, política e diplomática.
Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).
