O precioso trabalho de três freiras nos arredores de Montevidéu entre promoção humana e anúncio do Evangelho

LUCIANO ZANARDINI – 05/08/2019
ROMA. Nos arredores de Montevidéu, às margens de um rio contaminado, os mais pobres ocupam as terras que ainda não têm destino definido ou que pertencem a pessoas já falecidas.
Barrio Unidos é apenas um dos 300 assentamentos da capital do Uruguai. Nele moram 100 famílias.
Os mais afortunados têm casas de tijolos, as dos outros são de madeira ou de lata. Receberam recentemente o benefícioda água potável; para a luz, eles fazem gatos nnas redes da iluminação pública.
Mas podem contar com a presença amigável de Ana Laura, Mariana e Raquel: três missionárias franciscanas do Verbo Encarnado que trabalham no meio deles e para eles. Entre as muitas atividades que elas iniciaram, merece menção “L’Arca dell’Allegria”[A Arca da Alegria] onde as crianças, de manhã até à noite, estudam e frequentam alguns laboratórios (culinária, música e esportes).
E, pela primeira vez, graças aos cuidados das irmãs, muitas dessas crianças já chegaram ao ensino superior. Há também uma cantina para fornecer aos pequenos uma refeição quente.
As irmãs encontram todos os dias pais que têm dificuldades para alimentar, vestir e garantir que os seus filhos possam estudar. Infelizmente, a “disseminação da droga” também desempenha um papel importante.
“Muitas vezes as crianças mostram a sua agressividade destruindo as coisas ou jogando pedras”.
O apoio dos pais não é constante, porque o seu sustento depende de serviços esporádicos. Para uma mãe e um pai, é difícil ver os filhos chorando de fome.
“É por isso que
- não fazemos julgamentos,– diz a Irmã Mariana Marguery –
- nós buscamos soluções, não para eles mas com eles.
- Sabemos que existem situações que Deus não quer, que não são uma questão de caridade mas de justiça.
- Nós lutamos junto com eles para que possam ter oportunidades.
Como?
- Através de busca de trabalho,
- de promoção da saúde,
- de oferta de serviços públicos,
- informando sobre recursos que existem, mas que às vezes são desconhecidos”.
As irmãs também estão envolvidas em vários projetos com adultos. Temos
“45 mulheres que se mobilizaram para achar trabalho. Envolvemos os pais na realização de espaços recreativos, como um campo de futebol, para adolescentes”.
Há muitas ideias que as religiosas gostariam de desenvolver mas, mas
- não tendo áreas próprias,
- não podem estipular acordos com o Estado
- e dependem exclusivamente de doações.
“Os nossos projetos maiores são a promoção do estudo e o estímulo ao embelezamento do espaço que eles habitam”.
O trabalho das irmãs é valorizado, mesmo em um país onde, historicamente, há uma forte indiferença religiosa.
“Desde o primeiro dia dissemos claramente que
- somos um grupo cristão
- e que é, por essa razão, que estamos presentes entre eles.
- A sociedade é laicista, mas menos do que nós pensávamos.
- As pessoas acreditam em Deus, mas não vão à igreja, não se sentem Igreja”.
Mas pode-se falar de Deus. Pode acontecer que os pais peçam o batismo para os seus filhos, ainda que frequentem outras Igrejas.
“Convivemos com estas realidades. Do ponto de vista litúrgico, quando celebramos o Natal, o Tríduo Pascal ou outros momentos importantes, procuramos encená-los, porque esta é a forma que eles recordam e vivem mais”.
A ação da Igreja torna-se uma pastoral de proximidade.
- “Vamos de casa em casa. Procuramos conhecer as famílias sem julgar as situações por que elas estão passando.
- Nós simplesmente falamos do Evangelho do amor, tentamos consolar os que choram e aliviar o fardo da pobreza: é muito duro saber que outras pessoas podem usufruir de tantas coisas…”.
Apesar de tudo,
“a alegria das pessoas, especialmente das crianças, surpreende-nos.
- São capazes de construir uma casa num dia para oferecer um teto a quem não o tem.
- odos têm um profundo desejo de ter sua própria casa.
- Muitos enfrentam uma luta diária para sobreviver.
- Penso numa senhora que recolhe os restos do sabão em pó nos sacos de lixo para lavar as roupas dos filhos que vão à escola”.
No meio dos pobres “vê-se se um grande sentido de dignidade e respira-se uma grande cooperação recíproca”.
Todos os dias ressoam na cabeça das Missionárias Franciscanas do Verbo Encarnado, as palavras da fundadora, a madre Giovanna1, a todas as suas filhas espirituais:
“Uma única alma vale mais do que toda criação. Nenhum cálculo, nenhum obstáculo, nenhuma distância, nenhuma medida, deveriam existir para nós para seguirmos a Jesus onde quer que ele esteja e espere por nós”.
E Jesus, conclui a Irmã Mariana, “está lá, sem dúvida, em cada uma dessas famílias”.
_____________
NOTA:
1 Madre Giovanna Francesca dello Spirito Santo,[Joana Francisca do Espírito Santo]. Nasceu Luisa Ferrari, na cidade de Reggio Emilia, em 14/09/1888 e faleceu em Fiesole (Forença) em 21/12/1984.