Diálogos futuristas com José Comblin

Quando recebi a obra póstuma do teólogo Pe. José Comblin: “O Espírito Santo e a Tradição de Jesus”, estávamos sem Papa, na expectativa do conclave.

Nas quatro versões apresentadas pelo autor – seriam cinco, a quarta, porém, foi por acidente deletada – impressionou-me a ênfase na figura do poverello de Assis, que rompeu com a riqueza de sua família burguesa e com o clericalismo da cristandade medieval.
 Justamente naquele período de Sede vacante, devorei as 480 páginas dessa obra, que poderia ser tomada como autêntico testamento espiritual do autor. E qual não foi o meu espanto ao ouvir da sacada da Basílica de São Pedro que o Cardeal Jorge Mario Bergoglio escolhera o inusitado nome de FRANCISCO para ser chamado como bispo de Roma e o suposto 266º. Sucessor de Pedro.

Assim, nestes diálogos futuristas com o padre José, quero prestar-lhe uma homenagem a ele que sinto muito vivo e presente na Igreja Latino-americana e sobretudo entre os pobres do Nordeste do Brasil. Não pretendo dialogar com um morto e sim com um amigo, lembrando-me de nosso único contato naquele 12 de janeiro de 2008, no Recife, durante o Encontro Nacional das Famílias dos Padres Casados. Ao autografar-me o seu livro O Povo de Deus, ele me desejou coragem, ressaltando a minha pertença ao Povo de Deus. Embora já tenha lido muitos de seus escritos – artigos e livros – reconheço não conhecer a fundo o seu pensamento. Tenho muito mais a convicção da importância de seu testemunho de fé, pobreza e simplicidade bem franciscana na opção que fez de engajamento junto do povo pobre e sedento do Evangelho. Creio que ele está contente com a escolha do Cardeal Bergoglio, primeiro latino-americano e primeiro Papa a se chamar Francisco, hoje numa Igreja que clama por mudanças e renovação.

Nas quatro versões de sua obra, Comblin bate constantemente nesta tecla: a cristandade medieval escondeu, no aparato religioso construído ao longo de mil anos (sec. IV – sec. XIV), tanto a tradição de Jesus como a presença do Espírito Santo, que nos foi dado para recordar o caminho de Jesus. E Francisco, ao inaugurar um novo estilo de evangelização na pobreza, junto dos pobres e sem o aparato clerical¸ provocou verdadeiro terremoto nas estruturas autoritárias e aterrorizantes da Igreja de Inocêncio III, o Papa da Inquisição, das Cruzadas e da Cúria Romana.

Comblin também não hesitou em vislumbrar o futuro do Evangelho na África e sobretudo no extremo Oriente: na China, no Japão, no Vietnã, no Camboja, na Índia, que no séc. XVI foi terreno fértil para a obra de outro Francisco, missionário jesuíta, de sobrenome Xavier. Nosso amigo, bom conhecedor da história da Igreja européia e latino-americana, não nutria, em sua obra póstuma, muita esperança no futuro da Igreja Católica nesses rincões marcados pela cristandade medieval e pela disciplina contrarreformista do Concílio de Trento. Nem mesmo sobre o Nordeste do Brasil, onde trabalhou a maior parte de sua vida e se encantou com as figuras emblemáticas do Padre Ibiapina e do Padre Cícero do Juazeiro, deixava de ter um olhar sombrio, atribuindo a escassez de vocações sacerdotais à superficialidade das raízes evangélicas junto das famílias interioranas, ao contrário do que , segundo ele, acontecia no Sul e Sudeste do Brasil que receberam imigrantes italianos, alemães e poloneses.

É de se perguntar a Comblin, um erudito que sempre buscou as causas dos problemas com análise das conjunturas sócio-políticas, a que se deveu mesmo a florescência de vocações religiosas abaixo do Planalto Central. Não teria sido motivada por uma política de propaganda e recrutamento de crianças e jovens pelas inúmeras congregações religiosas que preferiram essas regiões menos inóspitas às do Nordeste? Seguindo essa geopolítica de romanização com a fundação de seminários modelados nos decretos de Trento, a ousadia de um Dom Luiz Antônio dos Santos, 1º. Bispo do Ceará, reverteu essa situação de penúria vocacional com a criação do Seminário da Prainha de Fortaleza (1864), onde estudou o Padre Cícero, e do Seminário do Crato (1875), ambos confiados à Congregação da Missão ou simplesmente aos lazaristas franceses.

Comblin, sempre pródigo na exaltação dos modelos monacais e das ordens mendicantes do milênio que moldou a Idade Média européia, passando pelos beneditinos de Cluny e Cister, ou seja, de Agostinho de Hipona a Bernardo de Claraval e Francisco de Assis, deteve-se muito pouco, em sua obra póstuma, em esmiuçar a atividade exemplar de um Padre Ibiapina ou de um Cícero do Juazeiro. Nem sequer mencionou nominatim Antônio Vicente Maciel, o Conselheiro de Canudos, ou o beato José Lourenço do Caldeirão, ambos estigmatizados como fanáticos que estariam a promover uma experiência de socialismo caboclo, muito incômoda para os latifundiários e as autoridades eclesiásticas. Aliás, em sua rememorização da cristandade medieval, Comblin jamais menciona Gioachino da Fiore, cuja heresia dava precisamente ao Espírito Santo um papel transformador das estruturas decadentes da Igreja, projetando-a numa nova idade de fervor pentecostal.

Essas observações de cunho mais histórico que trago a título de diálogo, de conversa com um amigo teólogo, são na verdade marginais e não entram no mérito de sua obra que reputo de muito interesse para a síntese de seu pensamento. Gostaria, no entanto, de me deter sobre a dicotomia, bem à maneira karlbarthiana, entre evangelho (fé) e religião, entre o caminho de Jesus, o homem da cruz que renunciou ao poder, e a criação de todo um aparato religioso que esconde, oculta e põe debaixo da cama a lamparina do anúncio evangélico.

Essa distinção, que exageradamente chamei de dicotomia, é bem mais metodológica e acadêmica, no catolicismo concreto, desde os séculos II e III nas lutas dos padres da Igreja contra o gnosticismo. É uma distinção que não pode ser radicalizada a ponto de secundarizar o primeiro Testamento, como fez Marcião, e negar a imbricação do novo no antigo [é de Agostinho o célebre dito: “Novum in Vetere latet, Vetus in Novo patet”]. Nesse sentido, as realidades humanas, imperfeitas e balbuciantes da Revelação, são veículos inarredáveis desse mistério de presença amorosa de Deus entre nós. Não são contaminações descartáveis.

Até mesmo pode-se perguntar que teria sido do judaísmo bíblico, estruturado no exílio e no pós-exílio, sem a contribuição de um Dêutero-Isaías, com os cânticos do Servo; de Daniel, com o Filho do Homem; de Jó, com a desmontagem da doutrina da justificação pelas obras? Não se chegaria jamais a uma nova imagem de Deus, do Deus Pai e amoroso de Jesus, sem a impregnação de correntes e culturas estranhas ao Povo de Israel. O escândalo dos escândalos foi a façanha de traduzir toda uma tradição numa língua e numa cultura dos goîm, na língua grega da LXX de Alexandria e nas categorias helenistas, a ponto de o sacratíssimo Nome do Senhor (YHWH) passar a ser chamado de o SER (to ôn), aquele que É, o absoluto existente, arrancando-o da história da libertação do Egito para a esfera etérea do mundo supra-sensível das abstrações.

Se nem Jesus escapou, no anúncio do Reino, das concepções religiosas de seu tempo e de seu povo: o que seria mesmo esse Reino de Deus? Se o próprio Paulo e o autor do Evangelho de João, cidadãos de um mundo bem distante da Palestina rural, tiveram de misturar o anúncio evangélico com as categorias de compreensão que lhes estavam à disposição, mergulhadas noZeitgeist helenista (pleroma, soma, logos, gnôsis, sophia) e judaico (apokálypsis, mysterion, parousía), como é possível não admitir contaminação? Por isso mesmo é que não faz sentido a crítica aos teólogos da libertação, como o nosso Comblin, quando têm no marxismo uma ferramente de crítica sócio-econômica aos desmandos do capitalismo selvagem. Agostinho e Tomás de Aquino se serviram muito bem de Platão e Aristóteles na elaboração de suas sínteses teológicas, obras de inteligência que eles construíram na certeza de estarem prestando um serviço ao Evangelho.

Sei muito bem que Comblin, possuidor de um descortino inquestionável, não quis, em sua obra póstuma, retomar a surrada temática da inculturação e do relativismo em matéria de teologia. Ele já participara, noutras ocasiões, dessas discussões,  impulsionadas inclusive pelo magistério papal em pronunciamentos e documentos – como o Christus Dominus – que causaram furor. O diálogo interreligioso e ecumênico ainda se ressente de posições que não fazem jus a tudo o que foi plantado e não frutificou ao longo desses cinqüenta anos de pós-Vaticano II: em vez de abertura e acohida, enrijecimento num status quo ante de uma Igreja que não quer ouvir e receber.

Nessas circunstâncias, para onde nos leva o futuro? Comblin nos lança para os confins do extremo Oriente: para a China – o novo centro nervoso de decisões do mundo capitalista – e para a Índia, berço do budismo. Pois as nossas igrejas, estruturadas sob a inspiração da cristandade medieval, para ele não têm, como religião, salvação. Mas como se daria essa reinvenção da tradição evangélica de um Jesus sem o aparato religioso de sua herança judaica (Lei – Templo – Sacerdócio) e sem o fausto imperial das cortes bizantinas e da administração jurídica romana?

Invoco aqui, com Comblin, a presença do Espírito Santo que, sem a menor dúvida, está trabalhando no coração de tantas mulheres e homens que dão testemunho de Jesus, sem muito blá-blá-blá, entre os pobres da periferia do mundo. Creio até que, entre as populações, p. ex., tocadas pelo trabalho das irmãzinhas de Madre Tereza de Calcutá, muitos já descobriram – sem imposição colonialista – o Jesus do Evangelho, o Jesus compassivo e amante dos excluídos. Não estariam entre esses, aos quais o anúncio se faz por uma práxis, pela aproximação em gestos concretos da presença fraterna, os futuros anunciadores do Reino de Deus em ação? Núcleos e células comunitárias comprometidas com a fé no Jesus, o Cristo ressuscitado? E sua conversão, sua mudança de mentalidade (metánoia), implicaria na renúncia radical de sua visão de mundo e de sua herança religiosa multimilenar? Não seria o Espírito, como no Pentecostes de Jerusalém, a lhes infundir um entendimento a partir de sua própria cultura? Se é assim, o monolitismo dogmático das verdades, recitadas em nossos catecismos e nas fórmulas de fé, não faz mais sentido, uma vez que a unidade no mesmo Espírito tem de conviver com linguagens, ritos e, portanto, concepções diferentes, capazes de se intercambiarem dialogicamente a partir de uma convivência fraterna mais profunda.

Por tudo isso é que o Evangelho de Jesus pobre e crucificado ainda pode – qual fermento – revolucionar e trazer uma Boa Nova de vida para o Velho Mundo nascido da cristandade medieval e para o Novo Mundo, marcado pelo colonialismo em todos os quadrantes da terra, do qual não escaparam nem a China, nem o Japão, nem a Índia e sobretudo a África, marcada a ferro e fogo pela ganância destruidora e tenebrosa dos que se diziam civilizados e cristãos. Por que um Ibiapina, junto de quem está sepultado Comblin, e o Padre Cícero do Juazeiro, ambos enaltecidos por ele, em sua obra póstuma, conseguiram tal audiência junto do povo simples do Nordeste, apesar de carregarem a pesada herança penitencial da religião trazida da Europa pelos missionários capuchinhos? É que o Jesus que lhe apresentaram não escondia o rosto misericordioso e paterno do Deus de Jesus. Apesar das distorções teológicas nas ênfases expiatórias e sacrificiais, fundadas no medo do castigo, a presença acolhedora do Coração de Jesus e de sua Mãe das Dores – a Virgem Compadecida –  suplantava o terror do inferno.  O fator estruturante da vida religiosa também carregava, lá no fundo, a alegria da pertença a um povo salvo por Jesus, o crucificado, nosso Salvador.

É bem difícil imaginar o futuro da fé com uma mudança radical dos paradigmas de compreensão da mundo da vida, marcado pela ciência e tecnologia pós-moderna. Mas é preciso ter mais confiança na presença atuante do Espírito Santo que – como insiste Comblin – vem nos lembrar a tradição de Jesus. Ela não se confunde com nenhuma cultura ou religião e está presente e fermentando a todas, iluminando como Palavra (logos) toda a humanidade. Não sabemos, porém, qual a cara que essas comunidades, esse Povo de Deus peregrino, vai assumindo ao longo da História. É preciso perscrutar os sinais do tempos para enxergar e compreender as novas linguagens de expressão da fé e do caminho de Jesus. (Francisco Salatiel-Brasília/DF).

Francisco Salatiel – teólogo, biblista

Fonte: Artigo enviado pelo autor. E-mail: chicosalatiel@gmail.com

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