Busca de Equilíbrio sobre o papa Francisco

A meu ver temos de ficar atentos ao ôba! ôba! midiático sobre Francisco e ser capazes de manter nossa cabeça fria. Senão, vamos ser ingênuos e descambar para uma fácil e piegas papolatria, tão cultivada nos últimos 34 anos.
Mas precisamos também ficar atentos aos fortes ataques a ele, vindos sobretudo da Argentina onde ainda há muitas feridas não saradas. E, também, de setores conservadores da Igreja, que já devem estar bem preocupados até com o nome escolhido e, sobretudo, com seus primeiros passos, palavras e atitudes simples, simpáticas e abertas…
Ainda vão ser precisos meses, talvez anos, para uma catarse completa sobre esses anos de Bergoglio como Provincial dos jesuítas e sua atuação com os dois colegas ameaçados, devido ao seu trabalho entre os pobres, expulsos da Ordem por ele, e depois presos e torturados. Provavelmente esse vai ser um espinho na carne (2Cor 12, 7) com que Francisco vai ter de conviver. Como Pedro com sua negação de Jesus na noite da paixão…
Quase trinta anos se passaram, mas não houve boa digestão desses fatos e vai ser preciso dar tempo ao tempo.
Há defensores de peso, como Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz e há também acusadores de peso, como por exemplo, o jornalista Atilio Boron, que acaba de escrever em Página 12, um forte artigo contra Bergogoglio : DE BERGOGLIO A FRANCISCO . Seria Página 12 um jornal anticlerical, como afirma o porta-voz vaticano Pe. Lombardi? Não parece fácil provar isso…
Postamos há dias no nosso Site um artigo alertando que não está ainda na hora de santificar Francisco.
Mas digo agora: nem ainda de o condenar, pelas repetidas más notícias contra ele. Entendo que a melhor política é deixar rolar, dar tempo ao tempo até que a verdade toda venha à tona.
***
Atentos aos sinais dos tempos e ao soprar dos ventos, de olho cravado na mídia nacional e internacional, com nosso inconteste amor à Igreja de Jesus, devemos nos interrogar o que este mega-empenho midiático mundial em torno da eleição e tomada de posse de Francisco significa:
  • em termos de Argentina, com muitas e grandes feridas ainda não sanadas, com um exagerado relacionamento entre religião e política, com gravíssima omissão da maioria dos bispos durante a ditadura e a sanha assassina dos generais presidentes (desde a conivência aberta, à  omissão dos bispos, em nome do perigo comunista), salvo poucas exceções;
  • em termos de mundo que, em gravíssima crise financeira, econômica e axiológica globalizada, de fanatismos exacerbados nos países muçulmanos, já à vista do ocaso e do malogro da esperança surgida com a Primavera Árabe, busca, onde os puder encontrar, sinais de esperança, táboas de salvação;
  • em termos de Igrejas, cada uma com vários e sérios problemas internos mal resolvidos e ariscas com o “ecumenismo” de Bento XVI e João Paulo II;
  • em termos de Igreja católica que:
  1. Após o inverno rigoroso trazido por João Paulo II e Bento XVI, na sua determinação clara e explícita de acabar com todas as esperanças suscitadas pelo Concílio Vaticano II, pelas Conferências de Medellin e Puebla, pela Teologia da Libertação e pelas Comunidades Eclesiais de Base: uma maneira nova de ser Igreja, a partir das bases que liam as Escrituras, olhavam a realidade concreta de pobreza, exploração e injustiça generalizadas, e se perguntavam: “o que Jesus faria nestas circunstâncias”?
  2. Após a onda clara e explícita de bispos escolhidos por João Paulo II e Bento XVI, cuja principal virtude deveria ser a obediência cega, surda e muda, não  o profetismo e a responsabilidade por seu rebanho. E cuja principal missão deveria ser seguir à risca as ordens do Vaticano, sem as discutir: acabar com o Vaticano II e as CEBs;
  3. Após tantos escândalos de pedofilia e de homossexualidade em tantos países, tão bem guardados debaixo do tapete por Bento XVI, inclusive a escandalosa cobertura dada por João Paulo II ao criminoso Pe. Marcial Maciel, fundador do Legionários, hoje um dos grupos com forte poder no Vaticano, junto com o Opus Dei, Comunhão e Libertação, Caminho Neo-Catecumenal, etc.
  4. Após o aumento do segredismo suspeito que envolve o Banco do Vaticano (IOR) sobre o qual a Itália e a Europa lançam graves acusações de lavagem de dinheiro e de ligações com a máfia;
  5. A pós os desastres no relacionamento de Bento XVI com os discípulos de Lefèbvre (a quem tanto concedeu e dos quais nada conseguiu), com os muçulmanos e com os anglicanos com quem criou sérios atritos;
  6. Após todas as denúncias, vindas de dentro da Cúria, feitas nos livros: Via col Vento in Vaticano – (O Vaticano contra Cristo, na versão portuguesa); Sua Santidade; Vatileaks, etc.;
  7. Está perdendo visivelmente muitos fieis na Europa e na América Latina;
  8. Está com uma grave crise de vocações na Europa, onde a média de idade dos padres está acima de 65 anos, tendo, por isso de importar padres de vários continentes, num movimento missionário inverso;
  9. Está aumentando, por exemplo no Brasil, o número, mas não a qualidade intelectual, espiritual, pastoral e moral dos padres. Muitos deles orientados para os mega-shows, o mega-exposição midiática, a religiosidade sentimental, tipo carismático e outros semi-irracionais…
  10. Endureceu e parou o discurso sobre padres casados; católicos em segundas núpcias; sacerdócio para as mulheres, etc.
Visto tudo isso, é natural que a Renúncia de Bento e a eleição de Francisco, tenham suscitado um tsunami de esperanças… e ainda bastantes receios:
  • Será que vamos assistir  uma nova Primavera, tipo João XXIII e Vaticano II, Comunidades Eclesiais de Base, Igreja com séria e sistemática opção preferencial pelos pobres?
  • Será que agora, como desejaram João Paulo I e talvez Bento XVI, (mas foram impedidos, o primeiro porque Deus o chamou ou alguém na Cúria resolveu despachá-lo antes do tempo,o segundo por um governo paralelo no Vaticano), agora vai haver um séria reforma na Cúria romana, acusada de ligações com a máfia e a maçonaria, ferinas guerras pelo poder, assassinato e sumiço do corpo da garota Emanuela Orlandi, filha de um funcionário vaticano que sabia demais, rede de homossexualidade já com chantagens a membros do clero vaticano, satanismo, fumaça do diabo pairando sobre o Vaticano, no dizer de Paulo VI, etc.?
  • Será que é agora que toda essa parafernália ridícula e antiquada dos adereços de papa, cardeais e bispos (o que Jesus diria disso tudo?) vai acabar: grandes cruzes e aneis de ouro, mitras, báculos, caudas de até 15 m., cores berrantes, palácios, etc.?
  • Será que a Cúria vai ser uma eficiente assessoria do papa para um bom governo do rebanho de Jesus, em vez de um saco da gatos em luta pelo poder?
  • Será que se vai acabar com a triste e falida figura do Núncio Apostólico e entregar essa função a um bispo escolhido pela Conferência episcopal de cada país?
  • Será que os bispos vão ser escolhidos pelo povo de Deus junto com o presbitério? Ou, pelo menos, pelas Conferências episcopais?
  • Será que o Povo de Deus vai ter voz ativa na formação dos seminaristas e na aceitação dos candidatos ao Sacerdócio e ao Diaconato permanente?
  • Será que o Catecismo de João Paulo II/Bento XVI e o Direito Canônico vão continuar a prevalecer sobre a Bíblia e o Vaticano II?
  • Será que os padres casados vão continuar a ser tratados como cristãos com menos direitos do que os leigos na Igreja?
  • Será que os católicos em segundas núpcias vão continuar a ser excluídos da Eucaristia, mesmo sendo já convidados a participarem da vida paroquial?
  • Será que mais de 50% da Igreja católica, as mulheres, vão continuar com menos direitos que os homens? Em base a quê, bíblica ou teologicamente?
  • Será que os cardeais, apelidados de “Príncipes da Igreja”, figuras nada bíblicas, mas muito constantinianas e até pagãs, vão continuar, a ser os únicos eleitores do papa e seus mais diretos assessores? E por que não simplesmente leigos, religiosas, padres e bispos para isso delegados pelas igrejas nacionais?
  • Será que o papa vai continuar a ser um monarca absoluto, acima do Concílio e continuando a governar sem o Sínodo dos Bispos, ou outro órgão de governo colegiado da Igreja?
  • Será que a única Teologia possível é a romana, no máximo a europeia, o que leva facilmente a eliminar violentamente Teologias nascidas e desenvolvidas noutros continentes?
  • Será que o papa e a Cúria vão querer continuar a ter autoridade direta no governo das dioceses, anulando, na prática, a autoridade natural e sacramental de cada bispo diocesano, confundindo unidade da Igreja com uniformidade, pior como submissão automática e acrítica às normas vindas de Roma?
Que o Espírito Santo desça e cumule Francisco com todos os seus Dons, lhe dê força, coragem e visão prara levar a bom porto a barca de Pedro à deriva num mar tão agitado e a fazer água por tantos buracos. Vai mesmo precisar…
S. Luís – Maranhão, 22/03/2013
João Tavares
Fonte: enviado por e-mail pelo autor: tavaresj@elo.com.br

Respostas de 8

  1. Muita sensatez nas considerações do Tavares. Vamos aguardar. Eu pessoalmente tenho um sentimento interno que o novo papa será muito mais Francisco do que Bergoglio. Não é possível que aquelas reuniões do colégio cardinalício pre-conclave não tenham tocado nas chagas da igreja institucional. Acredito fortemente que ele vai agir colegialmente. Segundo informações, foi o responsável pelo documento original de Aparecida que sofreu censura de Bento XVI antes da publicação. Uma coisa é certa, ele sabe onde as cobras dormem…

  2. Esperança e cautela – é assim que defino o meu sentimento para com o nosso novo papa Francisco.
    Após a sua posse, a sua popularidade vem aumentando gradativamente e, a cada momento, ele nos surpreende com atitudes que, assim como eu e milhares de católicos, esperamos de um representante de Cristo; mas como humano e não divino, sujeito a erros e tropeços!
    Esperamos gestos de humildade, complacência para com os pobres, preocupado com as questões ambientais, um homem firme, corajoso e determinado em “arrumar e limpar” a casa, enfim uma pessoa iluminada, é o que desejamos de um pontífice.
    Diante de tanta podridão que se encrustou dentro do Vaticano, o Papa Francisco deverá dirigir o seu rebanho com cautela, prudência, em função de sacerdotes mafiosos que se instalaram dentro da igreja católica. Infelizmente esta é a realidade!
    O Concílio Vaticano II -um legado que João XXIII nos deixou-, foi “abortado”, e deve ser retomado o mais rápido possível.
    A igreja católica precisa mudar. Ela pede socorro e misericórdia dos seus governantes!

  3. …Gostei particularmente deste texto tão oportuno e necessário. Parabéns e obrigado por levar a gente a refletir melhor sobre este momento eclesial.

  4. …artigo bem feito sobre o novo Papa…
    sempre são novas esperanças… COM EQUILIBRIO…

  5. …Agradeço o envio deste belo texto de reflexão e quero dar os parabéns ao seu autor, João Tavares.
    Está muito bem escrito e é, para mim, um bom artigo para me ajudar a reflectir sobre estas questões, no dealbar de uma nova era para o povo de Deus, assim acredito. É mesmo preciso! Eu tenho muita esperança que o Papa Francisco consiga levar a sua tão nobre missão a bom porto. Rezemos por ele e deixemos que o Espírito Santo o encha dos seus Dons. Façamos também nós, cristãos, a nossa parte.

  6. Gostei muita desta análise em relação a Papa Francisco, dos aspectos positivos e negativos da sua escolha e também das suas atitudes franciscanas ou populistas, mas, embora devamos ficar de orelhas de pé, se colocamos na balança os prós e os contras, tem um crédito positivo. Vamos portanto dar um voto de confiança e que continue seguir as pegadas de São Francisco.
    Em relação ao seu silêncio durante a ditadura de Vilela, acho que é facil criticá-lo depois, mas na hora qual seria a atitude melhor: a diplomática ou a linha dura de Pio XI e XII em relação aos países do Leste europeu, excomungando a torto e a direito todo mundo com un resultado trágico: dezenas de milhares de católicos foram assassinados, padres, bispos e cardeais, assissinados ou apodrecidos nas prisões.
    Qualquer atitude que se tome nestes casos tem sempre os prós e os contras.
    Quem sabe que ele, Bergoglio, escolheu o mal menor!!! Cada qual responde à própria consciência. Rezemos pelo Papa Chico que, no momento, parece que está humildemente na escuta da voz do Espírito Santo.Vamos acreditar no copo meio cheio…

  7. Amigo Joâo:
    Lo felicito por su artículo de hoy, que me parece muy bueno, equilibrado y constructivo.
    Adhiero a todo lo que usted dice; por lo tanto, no quiero comentar su mensaje; solamente algunos comentarios acerca de las polémicas en Argentina.

    1) ¿Tiene Bergoglio responsabilidad en la desaparición de los dos jesuitas? Si yo fuera juez, no podría estar seguro, ni de sí, ni de no; según mi opinión, no hay argumento definitorio, ni para probar la acusación,ni para rechazarla.
    Denunciar el anticlericalismo de los que acusan al Papa es de mala fe : es dar por supuesto que si alguien se declara no creyente, debe ser necesariamente una persona mentirosa y llena de odio.
    Desde hace 30 años, mucha gente, tanto creyentes como no creyentes, piden a la Iglesia que abra sus archivos y cuente realmente todo lo que saben; la colaboración de la Iglesia de Argentina en esta búsqueda de la verdad y en la búsqueda de los desaparecidos han sido muy pobre.
    Ahora surgirá una nueva pregunta :¿el papa Francisco abrirá los archivos del Vaticano para poner a disposición de la verdad, de la justicia, y de los familiares de los desaparecidos, todo el material allí disponible? ¿ó el Vaticano seguirá con su diplomacia que prefiere el disimulo a la búsqueda de la verdad?

    2) ¿Luego de la desaparición de los dos jesuitas, ¿Bergoglio hizo todo lo posible para tratar de salvarlos?
    A esta pregunta, tampoco puedo responder.
    Quizás hizo todo lo posible, quizás tuvo mucho miedo, como cualquier; y si tuvo mucho miedo, lo comprendo.
    Cuando fue desaparecido un muchacho muy amigo mío, yo también tuve mucho miedo, y me costó mucho tomar alguna medida frente a esta desaparición.

    3) ¿Y si el Papa tiene alguna mancha, algún pecado?
    Pedro, el primer papa, negó tres veces a Jesús.
    Lo renonoció, lloró, y fue papa.
    Si el papa ha pecado, esto no me molesta.

    4) ¿Hay mucho anticlericalismo en Argentina?
    Evidentemente, hay anticlericalismo.
    El anticlericalismo es el fruto producido por el clericalismo.
    Y el clericalismo, en Argentina, es muy grande.
    Pero, aún en caso de haber anticlericalismo, este no puede ser un argumento suficiente par desautorizar las opiniones de los anticlericales.

  8. Boas as colocações e bem proféticas as interrogações.Como bem diz em o texto:

    “Ainda vão ser precisos meses, talvez anos, para uma catarse completa sobre esses anos de Bergoglio como Provincial dos jesuítas e sua atuação com os dois colegas ameaçados, devido ao seu trabalho entre os pobres, expulsos da Ordem por ele, e depois presos e torturados. Provavelmente esse vai ser um espinho na carne (2Cor 12, 7) com que Francisco vai ter de conviver. Como Pedro com sua negação de Jesus na noite da paixão…”.

    Contudo, pelo modo do Papa Francisco se apresentar ao povo de Deus, dá para perceber que as mudanças virão, a começar por ele mesmo.
    Vamos acreditar na ação do Espírito Santo.
    Pe. José Maria Ribeiro
    Presidente da ANPB

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