Francisco, o Papa que a Igreja esperava?

A Igreja tem um novo Papa, Cardeal Jorge Mário Bergoglio, que num momento de inspiração e com uma mãozinha do Cardeal Hummes, de São Paulo, escolheu ser chamado Francisco – Papa Francisco.Em toda a história da Igreja, ele é o primeiro Papa que escolhe esse nome. Durante toda a sua vida vem se inspirando nas virtudes do Il Poverello de Assis, e agora, neste momento em que Deus o chama para guiar sua Igreja, não poderia ter achado nome melhor para iluminar sua trajetória à frente do Povo de Deus.

Em sua primeira aparição na janela dos aposentos pontifícios, depois de eleito, disse na sua simplicidade e humildade, que seus colegas cardeais foram buscar um Papa no fim do mundo. E este fim de mundo se chama América do Sul.

Jorge Mário Bergoglio era Cardeal Arcebispo de Buenos Aires, na Argentina. Hans Küng, um dos baluartes da teologia neste momento, disse que foi uma das escolhas mais acertadas.

Após a renúncia de Bento XVI, no dia 28 de fevereiro, o mundo todo ficou apreensivo, especulando quem seria seu sucessor.  A torcida era geral a favor de um Papa originário de um continente que não fosse o europeu, mas no fundo, existia um grande medo de que os Cardeais italianos não deixariam escapar, pela terceira vez, a oportunidade de algum deles se sentar no trono de Pedro. Felizmente todas as previsões e apostas foram por terra: não teve para eles, também dessa vez. Era preciso mudar.

No entender de Frei Betto, em publicação no Jornal O Dia – R.J., do dia 08/03/2013, o Concílio Vaticano II havia proposto à Igreja um governo colegiado, o que não foi implementado por Paulo VI, nem por João Paulo II e, muito menos por Bento XVI.

A Igreja pós Vaticano II e principalmente neste começo do século XXI, com problemas seriíssimos de corrupção no Banco do Vaticano, escândalos de pedofilia e outras mazelas dentro do clero e a necessidade urgente de uma renovação doutrinária passou a pedir alguém que tivesse uma visão nova de Igreja.

Os grandes erros da Igreja atravessaram séculos. Quem conhece um pouco a história sabe que na primeira metade do século 4º, Constantino I percebeu que poderia usar o Cristianismo para consolidar seu império, mas para isso precisava ter a Igreja a seu lado, e foi aí que ele convocou o Concílio de Nicéia, no ano 325, fazendo com os Bispos da época uma série de conchavos interessantes para os dois lados. Permitiram-se distorções lamentáveis do conteúdo do Evangelho que, infelizmente persistem até hoje.

Frei Betto conclui: “É hora de o Papa calçar as sandálias do pescador, abdicar de títulos honoríficos herdados do Império Romano e assumir, em colegiado com os Cardeais de todo o mundo, o mais evangélico de todos os seus títulos: “servo dos servos de Deus”.

Poder-se-ia dizer mais: além de um Papa que evoque humildade e pobreza em sua postura, a Igreja do século XXI está precisando, com urgência, de líderes (Papa, Bispos e padres) como Hélder Câmara, Romero, Casaldáliga e, até de um Lutero que tenham coragem de, com peito aberto, se opor aos desmandos da cúpula que tanto envergonham a base. “A Igreja como um todo precisa oferecer e introjetar uma prova de que as alternativas que o catolicismo prega podem, de fato, ser vividas”

E o início do pontificado do Papa Francisco começa a despertar em todos essa esperança.

Sua primeira aparição na Praça de São Pedro no Vaticano, diferentemente dos outros papa, apresentou-se com simplicidade, humilde e sereno. Pediu ao povo que rezasse por ele e o abençoasse, curvando-se diante da multidão. Só depois pediu sua estola, revestindo-se com a autoridade de Pontífice eleito abençoou o povo que o aclamava. E, olhando para a praça cheia de pessoas de todos os cantos do mundo, certamente se lembrou do acontecimento narrado pelo Evangelista Lucas, no cap. 4, v.15: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação dos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”.

O Povo de Deus está ansioso à espera das efetivas reformas que Francisco possa vir a fazer na Igreja para que o Evangelho de Jesus Cristo realmente ilumine o mundo. É aqui que ela realiza seu serviço a favor do Reino, sem se deixar perder nas contradições e nos pecados de seus dirigentes, que, como a história comprova, têm desviado o foco, causado escândalos e desânimos em muitos, em sua caminhada.

Chega-se a pensar que a civilização cristã que nos foi legada está velha e gasta e perdeu o poderoso élan vital que possuía em seus primórdios, capaz de alavancar e levar a termo as grandes causas.

Queremos e ansiamos por experiências novas e reveladoras para esse momento de esmorecimento e crise por que passamos.

Concordo com Leonardo Boff, em memorável artigo publicado no Jornal O Tempo, de Belo Horizonte, no dia 15/02/2013: estão faltando à Igreja do século XXI duas coisas muito importantes:

1 – Testemunho – Testemunho de quem foi chamado para a missão de testemunhar. Perdeu-se, infelizmente, pelo excesso de centralismo e falsa ortodoxia, a capacidade de falar a linguagem atual e viva para os dias de hoje.

Um exemplo simples disso está na fórmula antiquada e fria como se proclama, nas assembléias, a palavra do Evangelho: “Naquele tempo…” Fosse só isso, estaria bom, mas poucos pregadores sabem fazer, em seu discurso, a preciosa transposição “daquele tempo” para os tempos de hoje; perdem-se em explicações de ordem histórica e exegética que tornam a mensagem desinteressante e insípida e, sobretudo, não sabem ensinar o povo a rezar, a falar com Deus.

Dentro do testemunho necessário estão o depósito da fé, os sacramentos, os valores cristãos, o Evangelho e outros que precisam ser atualizados permanentemente para que representem, de fato, a graça que prometem; do contrário, viram ritos vazios e sem sentido.

Ir à missa, hoje, para muitos, velhos e jovens, tornou-se uma das coisas mais maçantes e chatas por causa da mesmice das “fórmulas de efeito” empregadas, que não podem sair de um padrão litúrgico antiquado. Um culto evangélico, em algumas igrejas protestantes, dirigido por pastores carismáticos que não se encontram engessados por normas rígidas centralizadoras, mas movidos por um espírito inovador e atual de fé autêntica, atrai, por incrível que pareça, muito mais gente do que as missas dominicais, de ação de graças, de sétimo dia, etc. Lamentavelmente, a falta de testemunho dentro da Igreja chegou a um ponto crítico. Dogmas e outras coisas do gênero que até a pouco eram tidas como verdades absolutas, com a evolução do mundo e das ciências passaram a ser relativas, porque a humanidade não está parada no tempo e no espaço, mas caminhando e fazendo história.

É impressionante constatar em todos os Santuários Marianos, em diversos países, como a fé do povo está sedimentada em devocionismos que não deixam de ter seu valor, mas como um “pião”, rodam, rodam e, no fim, perdem a força e caem, porque sozinhos não subsistem.

Para reforçar essa convicção, cito novamente o Frei Betto: “É frequente encontrar quem tenha fé em Jesus Cristo. Raro é se deparar com quem tenha a fé de Jesus, que o levou a se posicionar em defesa dos oprimidos e excluídos em nome de um Deus amoroso e misericordioso”.

2 – Diálogo – A falsa premissa de que “fora da Igreja não há salvação”, embora já esteja superada, no entanto, como perdurou por muito tempo como verdade absoluta é, ainda, acatada por uma parcela considerável de fiéis.

É frequente ouvirem-se pessoas profundamente religiosas se pautando, em tudo, pelo que padre fulano ou sicrano disse sobre isso ou sobre aquilo, abdicando por completo do direito de ter um espírito crítico pessoal sobre pontos claramente controversos.

Hoje é patente que o “Reino de Deus” de que Jesus fala muitas vezes, não está lá, lá no céu, depois da morte, mas aqui e agora no meio de nós. E ele é maior que a Igreja e conhece, também, uma realização secular, onde há verdade, amor e justiça.

A mensagem do Cristo ressuscitado possui “dimensões cósmicas” e empurra a evolução para um fim bom. A revelação não terminou com a morte do último apóstolo de Jesus, mas se faz presente na história e nas pessoas e, muitas vezes, de onde menos se espera, vem uma luz, uma palavra que salva, que transforma.

O mistério de Deus é insondável, jamais abandona seus filhos e a todos oferece a salvação. E esta salvação não vem de fora como se fosse ministrada e liberada por alguém com poderes mágicos, mas tem seu início dentro, dentro do coração de cada um, quando percebe que tem ouvidos para ouvir a voz de Deus que lhe fala pela dor de uma criança abusada, pelo sofrimento de um irmão que passa fome ou pelas atrocidades e destruição da natureza, cometidas pelos poderosos em nome do progresso.

Se Francisco conseguir ser esse sinal de Deus na história e dentro da história humana e instrumento que implemente iteração com outros caminhos espirituais, será, com certeza, o Papa que estávamos esperando.

Belo Horizonte, 20/03/2013

José Lino de Araujo

Fonte: Enviado por e-mail pelo autor: joselinodearaujo@gmail.com

 

Respostas de 3

  1. Muito boa sua lembrança, meu caro Campos de Souza, mas eu diria mais: Estamos torcendo muito para que Francisco não se deixe picar pela ‘mosca azul’ do poder que, há séculos, é inquilina dos corredores do Vaticano. Já passou da hora de a escolha dos Bispos ser mais democrática, porque o Povo de Deus é um “rebanho” que tem voz e quer vê-la respeitada e ouvida.

  2. Caro José Lino de Araújo,
    Mas este é exatamente o motivo de as mudanças nunca acontecerem na ICAR: “…Estamos torcendo muito…”, ficam todos os católicos como meros torcedores, como meros espectadores.
    Assim, nada mudará nunca.
    É Preciso que se perceba de uma vez por todas, que Deus precisa de homens e mulheres para agir no mundo e na igreja.
    Ficar “torcendo” apenas não é o que Deus quer. Ele quer que calcemos as chuteiras e entremos em campo…, que atuemos como uma forte luz a dissipar as trevas.
    Porventura não foi esta passividade eterna dos católicos, esta postura de ficar “torcendo” que permitiu, entre tantas coisas, por exemplo, que centenas de crianças e jovens tenham sido abusados? Que centenas de mulheres de padres padeçam abandono, depressão e suicídio?
    É Preciso BRADAR, TOCAR AS TROMBETAS como fez Josué para derrubar as muralhas de Jericó…se ficarmos ao redor das muralhas da ICAR em silêncio, o Espírito não atuará por nosso intermédio. Se bradarmos, os céus enviarão os seus anjos, os quais, derrubarão as muralhas.
    Pergunto: o que achas que aconteceria por exemplo, se 2 ou 3 católicos decidissem sentarem-se na praça de São Pedro em greve de fome, a dizer que só sairiam dali para comer quando o bispo de Roma decretasse o fim do celibato? …isto seria uma forma de TOCAR AS TROMBETAS e fazer cair esta muralha.
    Que Deus tire-nos da “torcida” irmão José Lino, que tenhamos coragem para dar a cara e o corpo, e não só a escrita e a luta no espaço virtual.
    Deus o abençoe.

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